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Sideways - Entre Umas e Outras
(Sideways)
123 min - Comédia, Drama, Aventura - 2005 (Estados Unidos)
Dois amigos desiludidos com suas vidas decidem fazer uma viagem pela Califórnia antes do casamento de um deles - uma aventura regada a vinho e conversas sobre relacionamentos e mulheres.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Alexander Payne. Com: Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh, Marylouise Burke, Jessica Hecht, Missy Doty.

Com apenas quatro longas-metragens em seu currículo, o diretor Alexander Payne já conseguiu se estabelecer como um dos autores mais interessantes do atual Cinema norte-americano. Contando sempre histórias que giram em torno de personagens ambíguos que seguem obviamente a definição clássica do anti-herói, Payne leva o espectador a se envolver com figuras que, em produções menos ambiciosas, seriam retratadas como seres desagradáveis e repulsivos. Mas há um elemento adicional que une Ruth (Ruth em Questão), o professor Jim McAllister (Eleição), o aposentado Warren Schmidt (As Confissões de Schmidt) e o escritor Miles Raymond (deste Sideways): a insignificância, o sentimento de que são apenas uma nota de rodapé no catálogo telefônico.

Baseado no livro semi-auto-biográfico de Rex Pickett, Sideways – Entre Umas e Outras acompanha uma semana na vida de dois personagens: o professor de escola primária Miles, que aguarda ansiosamente a resposta de uma editora que pode vir a publicar seu primeiro livro, e seu melhor amigo, o ator fracassado Jack, que irá se casar dali a alguns dias. Determinados a aproveitarem ao máximo seus últimos dias juntos como solteiros (Miles é divorciado), os dois partem em uma viagem por uma região da Califórnia conhecida por suas vinícolas, já que o professor (que também é enólogo) quer ensinar ao colega um pouco mais sobre os diferentes tipos de vinhos – aproveitando para embebedarem-se no processo, é claro.

Pois o fato (que o filme jamais escancara, permitindo que o espectador o perceba sozinho) é que a erudição de Miles sobre vinhos é uma fachada conveniente para seu alcoolismo: com suas ambições artísticas frustradas, seu casamento fracassado e sua crônica falta de dinheiro, o sujeito leva uma vida medíocre – e tem consciência disso. Assim, sua paixão `acadêmica` pela bebida não apenas permite que ele fuja da realidade através do álcool como também adiciona um toque de sofisticação a uma existência prosaica - sua fascinação pela enologia é mais do que fruto de sua atração por vinhos; é, principalmente, um desejo de se diferenciar de seus `pares`. Miles é, afinal de contas, um ser humano falho como todos nós – o que não o torna `mau`, apenas patético. Quando ele rouba dinheiro da própria mãe, percebemos que não se sente bem fazendo aquilo, mas só compreendemos a dimensão de sua vergonha quando descobrimos que ela emprestaria a quantia ao filho caso este pedisse: para Miles, seria mais desonroso confessar seu fracasso profissional do que simplesmente furtar parte das economias da mãe.

Criando um personagem complexo e real, Paul Giamatti oferece outra atuação estupenda – e é inacreditável que a Academia tenha lhe negado uma merecida indicação ao Oscar pelo segundo ano consecutivo, depois de já tê-lo injustiçado ao ignorar Anti-Herói Americano. Ao longo de Sideways, Giamatti leva o espectador a compreender a dor de Miles e mesmo a perdoá-lo por suas fraquezas – e, no processo, protagoniza uma infinidade de momentos memoráveis que causariam inveja em qualquer ator. Cito apenas três exemplos que, sozinhos, já seriam mais do que o bastante para garantir a indicação do ator a qualquer premiação (e que, juntos, transformam o erro da Academia em um tropeço imperdoável):

  1. Depois de consumir mais vinho do que o recomendado, Miles comete o erro de `beber e telefonar`, ligando para a casa da ex-esposa tarde da noite. Observe o comportamento de Giamatti nesta cena e perceba como o sujeito tenta soar jovial ao mesmo tempo em que seus olhos traem toda a sua dor – e como, aos poucos, ele não consegue deixar de expor seu rancor. Aliás, é comovente vê-lo utilizando uma das chantagens emocionais mais primárias entre ex-amantes, quando diz que não vai ao casamento de Jack apenas na esperança vã de ouvir a ex-esposa dizer que quer que ele vá.
  2. Durante uma conversa com a garçonete Maya, Miles explica por que aprecia tanto o vinho Pinot Noir, citando, com tom de mágoa, a fragilidade da uva e a necessidade de que o vinicultor saiba apreciar seu potencial, protegendo-a e valorizando-a. Naquele momento, fica óbvio para a moça (e para o espectador) que ele está falando de si mesmo – e o olhar de vulnerabilidade de Miles deixa claro que ele tem plena consciência de estar se expondo mais do que o habitual.
  3. Mas o grande momento de Paul Giamatti surge quando Miles ouve determinada notícia que claramente o deixa abalado. Porém, o brilhantismo da performance do ator reside na forma com que ele tenta esconder a dimensão do choque que sofreu: esforçando-se para sorrir, Miles procura conter as lágrimas, mas podemos perceber o tremor de seus lábios, os olhos umedecidos, a dificuldade com que respira e a oscilação de sua voz. Um instante como poucos na carreira de um ator magnífico.

Enquanto isso, Thomas Haden Church consegue a proeza de levar o espectador a gostar de Jack, mesmo que este se revele um canalha egocêntrico que, em busca de satisfação sexual, não hesita em contar graves mentiras à amante, uma mãe solteira (a sempre interessante Sandra Oh, esposa do diretor Payne). Neste caso, a força da composição de Haden Church reside na vivacidade de Jack, com seu jeitão de garotão de meia-idade e seu sorriso aberto e tolo. Impulsivo e inconseqüente, o sujeito nos faz acreditar que, de certo modo, acredita nas mentiras que conta – e sequer passa por sua mente a possibilidade de que possa vir a ferir quem quer que seja com suas fantasias. Com isso, é impossível, para o público, deixar de comover-se quando Jack finalmente enfrenta um momento de surpreendente vulnerabilidade.

Fechando o elenco, vem Virginia Madsen, que compõe a personagem mais centrada do filme: sensata (ainda que profundamente romântica), Maya revela sua compreensão sobre a personalidade de Miles em uma cena de incrível sutileza do longa, que provavelmente passará desapercebida por muitos espectadores: ao descobrir que a garçonete está fazendo mestrado em horticultura, Miles expressa um espanto tão grande que, embora ele manifeste sua admiração pelo esforço da garota, se torna óbvio que ele a subestimara – e, ainda que sinta-se ofendida por alguns segundos, Maya logo demonstra sua maturidade ao mudar de assunto com imenso tato. Além disso, Madsen protagoniza outra cena belíssima ao explicar de onde vem o interesse de sua personagem por vinhos (e sua eloqüência é tamanha que testemunhamos o segundo preciso no qual Miles se apaixona pela moça).

Dirigindo o filme com inteligência, Alexander Payne sabe exatamente quando se aproximar dos personagens (em closes reveladores) e quando se manter afastado (como ao respeitar o embaraçoso momento entre Miles e Maya na cozinha). Da mesma forma, o cineasta sabe que o olhar é algo fundamental em um filme tão intimista quanto Sideways e, por esta razão, procura sempre capturar a reação de um personagem ao que é dito para outro (um exemplo: quando a mãe de Miles o aconselha a se casar novamente, Payne não busca a reação óbvia, que seria a do próprio escritor, mas sim a de Jack, que estuda o amigo para ver como este receberá o conselho). E não há como não admirar a fotografia reveladora de Phedon Papamichael (também injustiçado pela Academia), que situa Jack sempre sob a luz do sol ao mesmo tempo em que mantém Miles na sombra – situação que só muda quando o protagonista finalmente se sente feliz pela primeira vez em muito tempo, quando, então, o filme se enche de cores e brilho.

Porém, talvez eu tenha deixado de fazer justiça a um elemento fundamental de Sideways: seu humor. Trazendo várias cenas divertidíssimas que certamente levarão o público às gargalhadas, o roteiro de Payne e seu parceiro habitual Jim Taylor consegue fazer rir por compreender que as situações engraçadas só funcionam quando integradas de maneira orgânica aos demais elementos da história – e, por acreditarmos naqueles incidentes, os consideramos ainda mais hilários.

É verdade que os personagens de Sideways caminham (metaforicamente, é claro) de lado, como o título original aponta com inteligência: presos em uma situação de constante mediocridade, Miles e Jack encontram-se no limbo da meia-idade, quando é tarde demais para retroceder a fim de buscar outro caminho e cedo demais para desistir de achar uma nova estrada que os leve adiante. No entanto, mais fascinante do que vê-los encontrar a tão sonhada rota da satisfação pessoal é testemunhar seus tropeços e torcer para que se levantem novamente.

Afinal, não podemos nos esquecer de que, na realidade, estamos todos percorrendo a mesma estrada.
``

04 de Fevereiro de 2005

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