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As Aventuras de Tintim
(The Adventures of Tintin)
107 minutos - Drama - 2012 (Estados Unidos, Bélgica, Nova Zelândia)
Criado pelo cartunista belga Hergé, Tintim é um jovem e destemido repórter que viaja pelo mundo combatendo o crime, ao lado de seu cachorro, Milu, e outros amigos.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Steven Spielberg. Com: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Nick Frost, Simon Pegg, Toby Jones, Joe Starr, Mackenzie Crook, Cary Elwes.

Em As Aventuras de Tintim, finalmente temos de volta o Spielberg que tanta falta fez nos últimos anos, quando comandou mediocridades aborrecidas como O Terminal, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal e Cavalo de Guerra. Parecendo recuperar a vitalidade que usou para nos presentear com os três primeiros Indiana Jones, Parque dos Dinossauros e Tubarão, o cineasta abraça aqui a energia das cinesséries das décadas de 30 e 40 que já o haviam inspirado em Caçadores da Arca Perdida, criando uma narrativa que parece composta quase exclusivamente de uma sucessão de clímaces e que jamais permite que o protagonista e o espectador respirem. Sem medo de investir numa história absurda, Spielberg transforma o filme numa aventura tola, infantil e... sempre divertida.

Inspirado nos quadrinhos criados pelo belga Hergé (que aparece numa “ponta” no início da projeção, desenhando Tintim), o roteiro do estreante em Cinema Steven Moffat - e posteriormente “polido” por Edgar Wright (Scott Pilgrim Contra o Mundo) e Joe Cornish (Ataque ao Prédio) – gira em torno do jovem repórter que, mesmo com cara de menino, mora sozinho, tem seu próprio revólver e exibe nas paredes de seu escritório um histórico impressionante de aventuras. Certo dia, ao comprar a miniatura de uma embarcação, Tintim (Bell) se vê perseguido pelo misterioso Sakharine (Craig), que parece determinado a possuir o objeto – e  não demora muito até que o herói se veja preso no barco que antes pertencia ao alcóolatra Capitão Haddock (Serkis), agora também prisioneiro. Sempre acompanhado pelo cãozinho Milu, Tintim se alia ao capitão numa jornada que os levará a diversos locais exóticos, incluindo a fictícia cidade de Bagghar.

Desenvolvido a partir da técnica do motion capture empregado em obras como O Expresso Polar e A Casa Monstro e contando com uma tecnologia que permitiu ao cineasta manipular com total liberdade uma câmera virtual pelos ambientes digitais concebidos por sua equipe, As Aventuras de Tintim jamais parece parar – e isto se aplica não só à sua história, mas aos planos sempre em movimento criados por Spielberg e que conferem dinamismo invejável à narrativa, que faz jus à origem da palavra “cinema” (do grego “kinema": “movimento”). Claro que, de certa forma, o diretor parece exagerar em seu entusiasmo, jamais resistindo à tentação, por exemplo, de atravessar paredes e vidraças com sua câmera (algo sempre acompanhado por um efeito sonoro), o que, com o tempo, acaba se tornando previsível e cansativo. Por outro lado, ele se diverte ao criar quadros que se colocam diretamente atrás de personagens enquanto estes se encontram diante de espelhos e outras superfícies brilhantes, já que uma das vantagens de mundos (e câmeras) virtuais é não precisar temer o próprio reflexo.

Da mesma maneira, a possibilidade de enfocar a ação a partir de qualquer lugar concede a Spielberg a oportunidade de investir em planos como aquele no qual Tintim encontra-se em meio a um movimentado cruzamento e a câmera se desloca ao seu redor à medida que os carros quase o atingem – e, de forma similar, não demora muito até que acompanhemos o cachorrinho Milu em uma pequena jornada que traz o animal subindo escadas, saltando sobre poltronas e atravessando janelas ao perseguir alguém. Nada, porém, se compara ao fabuloso plano-sequência em Bagghar que, envolvendo dúzias de personagens e figurantes, uma inundação, um falcão e a fachada de um hotel carregada por um tanque, dura vários minutos enquanto heróis e vilões tentam recuperar três pedaços de papel – uma perseguição absolutamente brilhante que marca um dos melhores momentos da carreira de um diretor responsável por uma parcela considerável de cenas clássicas.

Contando com a supervisão do diretor de fotografia Janusz Kaminski, parceiro habitual de Spielberg, As Aventuras de Tintim é plasticamente admirável: investindo de maneira elegante em sombras que conferem um tom quase noir à narrativa, o longa acentua o mistério da trama e a tensão, encontrando tempo para brincar até mesmo com artefatos de técnica como os flares provocados pelo reflexo indesejado da luz nas lentes. Além disso, o design de produção cria com eficiência tanto ambientes mais intimistas, como os apartamentos de Tintim e do batedor de carteiras, quanto cenários amplos e ambiciosos, como a já citada Bagghar e o porto que abriga o clímax – isto sem deixar de mencionar a cidade natal do herói, com sua leve e constante neblina.

Montado por Michael Kahn (sim, Spielberg muda a técnica de produção, mas não a equipe), o longa é sempre ágil em suas transições – e assim como ocorreu em Cavalo de Guerra, aqui a dupla nos oferece duas fusões particularmente inspiradas (minha favorita sendo aquela envolvendo o oceano e uma poça d’água). Como se não bastasse, a sequência que enfoca o retorno das memórias de Haddock beira o poético em sua viagem contínua entre presente e passado, trazendo também transições belíssimas e repletas de criatividade – e ver as areias do deserto transformando-se em um mar revolto representa outro grande instante do projeto. Enquanto isso, John Williams volta a acertar ao se preocupar mais em acentuar a atmosfera da narrativa do que em criar temas específicos ou tentar comentar cada passagem da história como fizera em Cavalo de Guerra.

Beneficiado pela composição cuidadosa do elenco, que comprova o potencial do motion capture em servir mais como maquiagem digital do que como um substituto dos atores (um temor infundado de muitos intérpretes), o filme traz personagens com expressões faciais e corporais extremamente realistas (Haddock chega a cuspir ao falar) e que dizem muito sobre as performances envolvidas: Tintim, por exemplo, traz uma expressão constantemente fascinada pelo que o cerca, refletindo sua jovialidade também nos modos ágeis e impulsivos, ao passo que o capitão Haddock, mais lento e cansado, expõe o temperamento de um homem há muito derrotado pelas circunstâncias. Para completar, Sakharine surge encurvado e ameaçador – e seu hábito de balançar a bengala e a espada sugere não só alguém sempre preparado para o ataque, mas também hábil como esgrimista.

Isto tudo, aliás, se reflete também no design dos personagens, cujos traços estilizados, com grandes narizes ou olhos impraticavelmente pequenos, se contrapõem ao aspecto mais realista de Tintim e, de certa forma, do vilão. E se é inevitável aplaudir detalhes como as levíssimas linhas de expressão e rugas que surgem no rosto do herói nos planos mais fechados, uma admiração similar deve ser devotada ao cãozinho Milu – o verdadeiro herói do filme -, que surge como um animal também de aparência naturalista mesmo se comportando como uma criatura mais inteligente e consciente do que todos os humanos da trama.

Assim, é uma pena que As Aventuras de Tintim se concentre tanto na ação e se esqueça de desenvolver melhor seus personagens – um descuido que Spielberg certamente não demonstrou em Caçadores da Arca Perdida, por exemplo, que frequentemente interrompia a correria desenfreada para permitir que conhecêssemos melhor o herói e seus companheiros. Aliás, o foco na ação é tamanho que mesmo as informações fundamentais para contextualizá-la são apresentadas rapidamente através de diálogos expositivos – e não é à toa que Tintim fala o tempo todo em voz alta, num recurso mais adequado aos quadrinhos do que ao Cinema. Além disso, se o cineasta investe no realismo sombrio em diversos instantes (como ao retratar a morte de um personagem baleado diante de uma porta), em outros aposta numa ação cartunesca, como na sequência do avião, jamais alcançando um equilíbrio entre estes dois extremos (mesmo que, analisadas individualmente, as abordagens funcionem bem).

Empregando o 3D de maneira orgânica, sem apelar para trucagens baratas que busquem salientar a tecnologia para o público, Spielberg se mostra bem mais relaxado como realizador aqui do que em seus últimos projetos, encontrando espaço até mesmo para brincar com seu próprio Tubarão – e, no processo, nos faz lembrar de que, quando se encontra em seus melhores momentos, poucos cineastas contemporâneos dominam melhor do que ele o conceito de puro entretenimento.

Observação: Spielberg se deu ao luxo de contar aqui com ninguém menos do que Peter Jackson como diretor de segunda unidade. Uau.

17 de Janeiro de 2012

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