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Palavras de Amor
(Bee Season)
104 min - Drama - 2005 (Estados Unidos)
Mulher vê sua família a ponto de se desintegrar: seu marido foge do casamento se empenhando em fazer da filha campeã de ortografia, enquanto o filho está quase fugindo para se unir a um culto.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Scott McGehee e David Siegel. Com: Richard Gere, Juliette Binoche, Flora Cross, Max Minghella, Kate Bosworth.

Com 11 anos de idade, Eliza (Cross) é a filha caçula de uma família aparentemente harmoniosa: seu pai, Saul (Gere), é um respeitado professor de teologia judeu que sempre encontra tempo para cozinhar para a esposa e para os filhos; sua mãe, Miriam (Binoche), é uma mulher carinhosa que demonstra estar feliz com a vida que escolheu; e seu irmão mais velho, Aaron (Minghella), está longe de exibir sinais das revoltas tão comuns entre os adolescentes, mantendo um relacionamento particularmente próximo com o pai, com quem ensaia duetos musicais freqüentemente. Eliza, aliás, é a única que parece deslocada neste ambiente, até que encontra uma atividade na qual se sai surpreendentemente bem: competir em concursos de soletração (eventos badalados nos Estados Unidos, acreditem ou não). Bem-sucedida, ela atrai a atenção do pai, que passa a se dedicar de maneira quase obsessiva ao treinamento da garota, o que acaba alterando radicalmente a dinâmica de sua família.

Apesar de usar o concurso como gancho para a história (a cena inicial cria um certo suspense acerca do resultado da competição), Palavras de Amor é um drama familiar que se preocupa em dedicar um tempo considerável a cada membro do clã Naumann, retratando suas batalhas interiores, mas também ilustrando os conflitos entre Saul e os demais. Racional ao extremo, o personagem de Richard Gere parece satisfeito com seu papel de `pai de família`, sem compreender que o ritual do jantar que encena todas as noites nada mais é do que uma interação superficial com a esposa e os filhos – para alguém aparentemente tão apaixonado pela família, ele se mostra curiosamente cego para o fato de que esta se encontra em crise.

Pois a verdade é que há uma tristeza inequívoca naquela lar; ainda que interagindo de forma brincalhona, todos parecem melancólicos quando se encontram sozinhos – e o isolamento emocional de Saul contribui claramente para isso: como reclamar de sua ausência (que é real) se ele se encontra fisicamente presente? Sem encontrar solução para esta introspecção, cada uma daquelas pessoas busca refúgio em uma atividade que a diferencie das demais, num claro pedido de atenção: Aaron se une aos Hare Krishna; Eliza descobre a soletração; Miriam cria um templo para seu próprio desajuste; e Saul, como de hábito, passa a se dedicar à filha caçula com a crença de que está demonstrando seu amor pela família quando, na realidade, está apenas aproveitando o prazer egocêntrico de ser o pai de uma campeã.

Enquanto o roteiro de Naomi Foner (mãe de Jake e Maggie Gyllenhaal) se concentra no desenvolvimento destes personagens tão complexos, Palavras de Amor funciona com bastante eficiência, sendo beneficiado também pelas belas atuações do elenco principal. Infelizmente, depois da primeira hora de projeção, o filme muda de trajetória e revela que havia um motivo claro para que Saul fosse apresentado como professor de teologia: experimentando a religião de forma puramente teórica, ele finalmente encontra, na filha, a possibilidade de reavivar sua fé, já que acredita que as palavras, mais do que códigos criados para traduzir idéias e objetos, são o caminho mais fácil até os `ouvidos de Deus` – e, com isso, passa a praticar com Eliza um verdadeiro ritual com o objetivo de levá-la a vivenciar uma elevação espiritual através da soletração.

Ao descambar para o misticismo, Palavras de Amor exige que o espectador aceite a alteração radical no tom da história sem que, para isso, houvesse qualquer preparação. Depois de 70 minutos de um tocante drama familiar, os diretores Scott McGehee e David Siegel parecem achar natural que vejamos Eliza flutuar em um transe espiritual sem qualquer estranheza, o que é impossível. Todo filme deve trabalhar para que a platéia suspenda sua descrença com relação ao que ocorrerá na tela; já Palavras de Amor parece julgar que isto é dispensável – mas, neste caso, não é.

Como se não bastasse, o longa ainda apela para uma resolução artificial, nada satisfatória, do tipo que traz os personagens acenando com a cabeça em uma concordância muda, como se dissessem que agora `tudo vai ficar bem`, como se um novo equilíbrio tivesse sido atingido. Pena que o espectador não possa compartilhar deste sentimento, já que os dez minutos finais de projeção parecem pertencer a um outro filme. Bem ruim, por sinal.
``

22 de Dezembro de 2005

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