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Carros
(Cars)
116 min - Animação - 2006 (Estados Unidos)
Um carro de corridas está a caminho da pista onde vai disputar uma prova, quando se perde. Ele chega a Radiator Springs, uma cidade esquecida, situada próxima à famosa estrada americana Rota 66, onde aprende lições com veículos das décadas 50 e 60.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por John Lasseter, Joe Ranft. Com as vozes de Owen Wilson, Paul Newman, Bonnie Hunt, Larry the Cable Guy, George Carlin, Michael Keaton, Tony Shalhoub, Guido Quaroni, Jenifer Lewis, Paul Dooley, Michael Wallis, Katherine Helmond, Richard Petty, Jeremy Piven, Richard Kind, Jay Leno, John Ratzenberger.

 

Aparentemente, não há limites para o que a Pixar é capaz de fazer. Tecnicamente falando, Carros não representa uma evolução tão grande quanto o salto de Os Incríveis (personagens humanos) ou Procurando Nemo (animação de fluidos), mas, do ponto de vista artístico, não fica atrás: quem imaginaria ver um carro com a cara de Jay Leno ou Arnold Schwarzenegger? Ou piscando e apontando o “dedo” para uma platéia (de carros) delirante?

           

Dirigido pelo mesmo John Lasseter que estabeleceu o longa-metragem de animação tridimensional como algo não apenas tecnologicamente possível, mas comercialmente viável com seu brilhante Toy Story, este novo projeto da Pixar é, como de hábito, uma festa para os olhos. Por outro lado, pela primeira vez, o estúdio de Lasseter e Steve Jobs demonstra um cuidado menor com outro elemento que sempre se mostrou consistente em suas produções anteriores: a história. Escrito por seis pessoas (com colaboração de outras cinco), o roteiro nada mais é do que uma releitura não assumida da agradável comédia romântica Doc Hollywood, estrelada por Michael J. Fox em 1991, e gira em torno do arrogante Relâmpago McQueen, um carro de corridas prestes a vencer a importante Copa Pistão já em sua primeira temporada no campeonato. No entanto, a uma semana da prova definitiva, ele vai parar acidentalmente na cidadezinha de Radiator Springs, destruindo sua rua principal (na verdade, a única do lugar). Condenado a permanecer ali até consertá-la, Relâmpago passa a conhecer os habitantes locais e descobre, aos poucos, que fama, glória e dinheiro não é tudo na vida de um carro de bom caráter.

           

Esquemática e maniqueísta, a história abusa da água-com-açúcar e de mudanças abruptas de atitudes por parte de vários personagens, como o próprio Relâmpago e, mais tarde, de Doc Hudson, o “prefeito/juiz/médico” de Radiator Springs. E se no passado havíamos nos encantado com coadjuvantes engraçadinhos como Rex (Toy Story), Jesse (Toy Story 2), Mike Wazowski (Monstros S.A.), Dory (Procurando Nemo) e Edna Mode (Os Incríveis), desta vez somos apresentados a Mate, um caminhão-reboque enferrujado que, apesar de realmente divertido, é retratado de maneira excessivamente infantil para atrair nossa simpatia: apenas dois dias depois de conhecer Relâmpago, por exemplo, ele diz: “Eu sabia que tinha feito uma boa escolha pra meu ‘mió’ amigo.”. É uma fala forçada que tenta manipular o espectador – e isto conta pontos contra o filme. Sim, no final, torcemos para que o protagonista reconheça seus erros e se entregue ao charme dos novos amigos, mas o roteiro poderia ter alcançado este mesmo efeito com mais sutileza.

           

Seja como for, o fato é que assistir a uma produção da Pixar é sempre um grande prazer. Extremamente preciosista em seus aspectos visuais, o estúdio enriquece seus longas com detalhes que demonstram o cuidado que confere a cada área da produção. Observem, por exemplo, os jogos de luzes e reflexos no plano aéreo que mostra o caminhão Mack partindo em uma viagem durante a noite ou constate o brilhantismo de Lasseter na câmera trêmula que, durante as corridas, testemunha a passagem veloz dos competidores, que chegam a arrancar pedacinhos do asfalto. Aliás, a seqüência de abertura de Carros, com sua montagem intensa e a ótima música complementar (“Real Gone”), surpreende o público em função do realismo da ação, que é imediatamente contraposto à estilização divertida dos personagens.

           

O visual dos carros, vale dizer, é outro ponto forte do longa: antropomorfizando os veículos o bastante para torná-los expressivos e atraentes, mas sem permitir que percam suas características “originais”, o filme se diverte ao descobrir diferentes maneiras de diferenciá-los uns dos outros. Em alguns, por exemplo, a grade dianteira se transforma em um bigodinho canalha (como o do invejoso Chick Hicks) ou um bigodão grisalho de policial veterano (como o do Xerife); já em outros, um teto de couro pode se transformar em topete (como o do italiano Luigi), e assim por diante – e percebam como, a partir daí, Lasseter e sua equipe brincam com o visual de seus personagens, chegando a incluir olhos desproporcionalmente grandes na apresentadora japonesa de um telejornal, numa homenagem simpática ao anime. Da mesma forma, a expressividade dos carros envolve seus gestuais, que passam pelo movimento dos pneus e da própria carroceria (ao falar, Flo parece balançar a cabeça exatamente como algumas mulheres negras norte-americanas – e não é à toa que é dublada justamente pela atriz Jenifer Lewis). E sou capaz de jurar que, ao ser ofendido pela equipe de Chick Hicks, o pequeno Guido faz um gesto claramente obsceno com o “dedo”.

           

Explorando ao máximo o universo que criaram, os realizadores de Carros buscam incluir várias gags envolvendo este conceito, desde o plano que mostra Mate dormindo e babando óleo até os inúmeros trocadilhos, que, por sinal, acabam cansando (meu favorito é aquele que envolve a idade avançada de Doc Hudson: “Você vai de 0 a 60 em quanto tempo? Três anos e meio?”). E, como já se tornou hábito da Pixar, o elenco de vozes é escolhido a dedo para se adequar a cada personagem: a voz rouca e repleta de sabedoria de Paul Newman confere respeito a Doc; o jeitão irreverente de Owen Wilson torna Relâmpago divertidamente presunçoso; e a personalidade questionadora do humorista George Carlin é perfeita para o hippie Filmore. Já na versão brasileira, Daniel Filho faz um belíssimo trabalho ao procurar resgatar justamente a rouquidão de Newman, enquanto Mário Jorge, que já havia conquistado os brasileiros com sua inspirada versão do Burro, em Shrek e Shrek 2, volta a brilhar como o caipira Mate. Em contrapartida, a escolha de Priscila Fantin como dubladora de Sally se revela inadequada, já que a indisfarçável jovialidade da voz da atriz não consegue recriar a experiência e a maturidade evocadas pela veterana Bonnie Hunt na versão original – algo fundamental para um “carro-fêmea” que, depois de alcançar o sucesso como advogada numa cidade grande, refugiou-se numa cidadezinha para encontrar um pouco de paz de espírito.

           

Sem conseguir igualar-se aos grandes sucessos criativos da Pixar (os dois Toy Story, Monstros S.A. e, principalmente, Os Incríveis), Carros tampouco está longe de ser uma decepção. É uma máquina azeitada como seu protagonista, mas poderia ser um pouco menos artificial em seu desenvolvimento.

 

Observação: Não saia do cinema antes do fim dos créditos. Além de uma cena adicional que revela o destino de dois personagens, o filme inclui uma bem-humorada homenagem ao dublador John Ratzenberger, que participa de todas as produções da Pixar, e também ao roteirista e dublador Joe Ranft, que, co-diretor de Carros, faleceu precocemente em um acidente automobilístico, aos 45 anos de idade.
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03 de Julho de 2006

 

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