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Gladiador
(Gladiator)
155 min - Ação - 2000 (Estados Unidos | Reino Unido)
Depois de ter sua família assassinada, o general Maximus se torna gladiador para buscar vingança contra o imperador Commodus.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Ridley Scott. Com Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi e Djimon Hounsou.

Se Spartacus fosse produzido nos dias de hoje, o filme provavelmente terminaria mostrando o gladiador interpretado por Kirk Douglas duelando com o Crasso vivido por Laurence Olivier. O fato é que Hollywood tem demonstrado um respeito cada vez menor pelos fatos históricos, optando por alterar radicalmente certos acontecimentos a fim de conferir maior dramaticidade ao que está sendo mostrado na tela.

Não que isso seja algo de novo: o próprio Spartacus errou grosseiramente ao antagonizar os senadores Graco e Crasso, que sequer eram contemporâneos - e percebam que o filme foi dirigido por Stanley Kubrick, conhecido por seu perfeccionismo (por outro lado, devemos considerar que Spartacus foi o único projeto no qual ele não teve poder de decisão). No entanto, estas pequenas `liberdades` não se comparam ao verdadeiro atentado histórico cometido por Gladiador, mais recente trabalho de Ridley Scott.

Neste filme, Russell Crowe interpreta o fictício general Maximus, favorito do (verídico) Imperador Marco Aurélio. Prevendo a proximidade da própria morte, Marco Aurélio resolve nomear Maximus como seu sucessor - sendo, porém, assassinado por seu (também verídico) filho Commodus antes que possa anunciar sua decisão. Vingativo, Commodus manda executar o general, que acaba conseguindo fugir e torna-se escravo de um `agente` de gladiadores depois de descobrir que o novo Imperador mandara assassinar sua esposa e seu filho. Agora, ele fará de tudo para se vingar do jovem ditador.

O primeiro grave erro cometido pelo roteiro (escrito por três pessoas e infinitamente revisado durante as gravações) é estabelecer que Marco Aurélio não pretendia indicar Commodus como seu sucessor: na verdade, apesar de sua grande sabedoria (ele foi um dos `cinco bons imperadores`), Marco Aurélio vinha preparando seu desequilibrado filho para sucedê-lo durante seus três últimos anos de vida, chegando a nomeá-lo Co-Imperador. E o curioso é que a trama de Gladiador não precisava retratar Maximus como o `escolhido do Imperador` para funcionar - bastava estabelecer um ciúme doentio por parte de Commodus. Além disso, não há a menor evidência de que este tenha assassinado o próprio pai. É como se os roteiristas optassem por contradizer a História apenas pelo prazer de fazê-lo.

Em contrapartida, o filme acerta ao mostrar o novo Imperador entrando na arena para lutar como gladiador - Commodus era louco a ponto de considerar-se como um novo Hércules. No entanto (e não leia o restante deste parágrafo caso ainda não tenha assistido ao filme), ele não morreu em combate, e sim estrangulado por um certo Narciso enquanto tomava banho (detalhe: no primeiro tratamento do roteiro, Maximus se chamava Narciso). Outro acerto do filme é retratar Lucilla, irmã de Commodus, como uma conspiradora que articulava com o Senado a morte do Imperador. Como não poderia deixar de ser, Gladiador reequilibra a balança com um erro grosseiro: na vida real, a conspiração da moça falhou e ela foi exilada e executada, não tendo a oportunidade de discursar sobre o corpo do irmão morto. Além disso, o filme perde a oportunidade de ilustrar a incrível insanidade de Commodus ao deixar de lado um dos maiores exemplos de seu narcisismo exacerbado (que torna ainda mais curioso o nome de seu assassino): o terrível Imperador chegou mesmo a mudar o nome de Roma para Commodiana, algo que sequer é citado pelo roteiro.

Mas sejamos honestos: todos estes equívocos históricos poderiam ser perdoados caso o filme de Ridley Scott conseguisse sobreviver ao menos como obra de ficção. Não consegue. Excetuando-se a bela direção de arte e a ótima trilha sonora de Hans Zimmer, Gladiador é uma bagunça do início ao fim. Para começar, Scott dirige as cenas de ação com uma câmera chacoalhante que torna impossível para o espectador entender o que está acontecendo na tela. A batalha inicial, extremamente intensa, é prejudicada justamente pelas péssimas escolhas do diretor, que transforma a seqüência em um amontoado de imagens nauseantemente confusas.

Além disso, as constantes alterações no roteiro tornaram os personagens inconstantes e sem carisma. Basta observar que na primeira versão o gladiador Juba (vivido por Djimon Hounsou, de Amistad) lutava ao lado de Maximus (ou melhor, Narciso) na batalha da Germânia, sendo aprisionado justamente por desafiar as ordens do Imperador Commodus. Eles eram então enviados a Roma para julgamento - na verdade, uma desculpa para executá-los na escola de gladiadores de Proximo. Com as mudanças na história, Juba virou um personagem sem motivações que se torna amigo de Maximus apenas para justificar acontecimentos posteriores da trama (em Spartacus, os gladiadores evitavam a confraternização por saber que, algum dia, acabariam sendo obrigados a se enfrentar na arena). O mesmo pode ser dito com relação ao personagem de Oliver Reed: inicialmente um homem ambicioso, mas de bom coração, ele acabou se tornando, na versão final do roteiro, um sujeito confuso que não sabe direito que postura assumir (a verdade é que o ator morreu antes de concluir sua participação no filme e, assim, seu personagem teve que passar por alterações que justificassem sua exclusão da história).

Joaquin Phoenix, como o cruel Commodus, não aproveita o potencial do personagem, optando por liberar pequenas lágrimas a todo momento, como se isso fosse conferir maior dimensão ao Imperador. Patético e inseguro, Commodus acaba se tornando um vilão fraco e, com isso, diminui o mérito das ações do herói (a título de comparação, confira o excelente trabalho de Christopher Plummer em A Queda do Império Romano, onde este interpreta Commodus com uma vilania assustadora). Por outro lado, Russell Crowe destila virilidade como Maximus - e só. Infelizmente, o gladiador não exige muito do excelente ator, que acaba se limitando a ranger os dentes e a encarar o fraco Commodus com olhares de ódio. Na verdade, o melhor desempenho de Gladiador pertence a Richard Harris, como Marco Aurélio: velho e alquebrado, este é o único personagem que realmente parece dizer o que pensa sem se preocupar com as determinações do péssimo roteiro.

Para piorar, o filme ainda procura estabelecer uma pobre lição de moral ao fazer com que Quintus, braço-direito de Commodus, assuma outra postura no confronto final, onde pede que seus guardas pretorianos não desembainhem suas espadas. A traição é injustificável e incompreensível, já que, minutos antes, Quintus arquitetava suas trapaças ao lado do Imperador. Além disso, o patético discurso de Lucilla não acrescenta nada ao filme - além de, como dito anteriormente, ser um atentado à História.

Preciosismo exagerado? Não creio. O mínimo que um roteirista disposto a adotar personagens reais em sua narrativa deve fazer é manter-se fiel aos fatos na medida do possível. É claro que pequenas concessões são inevitáveis, mas o que Gladiador faz é muito mais grave: reescreve parte da História para acomodar as necessidades mercadológicas de Hollywood. Isso, sim, é barbaridade.

Para saber mais sobre a história do Imperador Marco Aurélio e de seu filho Commodus, clique aqui para visitar um interessante site brasileiro.
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25 de Maio de 2000

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