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Grande Ditador, O
(Great Dictator, The)
124 min - Comédia - 2002 (Estados Unidos)
Um barbeiro judeu é acidentalmente confundido com um ditador. Primeiro filme falado de Chaplin.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Charles Chaplin. Com: Chaplin, Paulette Goddard, Jack Oakie, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Billy Gilbert e Maurice Moscovich.

The Jazz Singer foi realizado em 1927. Era o primeiro filme falado da história do cinema (embora grande parte do filme seja mudo, tendo apenas seqüências sonoras). Chaplin só permitiu que seu Vagabundo falasse 13 anos depois, pois acreditava que o som viera destruir o que o cinema tinha de mais bonito: a pantomima. (A única vez em que Chaplin havia "falado" em um filme, antes disso, foi em Tempos Modernos, na cena em que ele canta em um restaurante).

Mas a espera valeu. Quando o Vagabundo (ou `Carlitos`, como ficou conhecido por aqui) finalmente abriu sua boca, descobriu-se que ele tinha realmente algo a dizer. E que mensagem! O ano era 1940, e o filme, O Grande Ditador. Chaplin fazia um duplo papel: o do ditador Adenoid Hynkel (numa referência mais do que óbvia a Hitler) e o do barbeiro judeu (que é, obviamente, `Carlitos`).

O filme é recheado, de ponta a ponta, de cenas que entraram para a história do cinema. O discurso inicial do ditador Hynkel, numa linguagem totalmente fictícia (mas que é claramente um `derivado` de alemão), é simplesmente hilária. O ditador se contorce, esbraveja, engasga, se acalma, volta a se enfurecer - e tudo isso sem que uma só palavra seja compreendida. É um momento de gênio. Quando, mais tarde, o ditador tem seus delírios de grandeza, outro marco do cinema surge: extasiado, Hynkel sobe pelas cortinas e, em seguida, dança e brinca com um imenso globo terrestre, naquela que é a melhor seqüência do filme.

`Quer dizer que as melhores cenas do primeiro filme falado de Chaplin são, justamente, as mudas?`, poderia indagar alguém. Não nego. Além desta cena que acabo de citar, há várias outras seqüências que são absolutamente perfeitas - e mudas - em O Grande Ditador: há aquela em que ele se vê obrigado a engolir várias moedas para que ninguém descubra que as encontrou em seu pudim (o que o obrigaria a sacrificar a própria vida); há a maravilhosa seqüência em que ele faz a barba de um homem no ritmo de uma composição de Brahms; entre outras. Mas quando ele fala, o filme não deixa nada a desejar: a inteligência do roteiro (do próprio Chaplin, claro) se reflete no brilhantismo dos diálogos. E não me refiro só ao discurso final proferido pelo barbeiro (que no decorrer do filme é confundido com o ditador): há outras pérolas dignas de Groucho Marx no filme, como os próprios nomes dos personagens - Garbitsch (`lixo`) é um nome deliciosamente crítico dado para o alter-ego de Goebbels, `braço-direito` de Hitler - e de acordo com alguns historiadores, a verdadeira cabeça por trás do nazismo.

Outro detalhe curioso é observar como Chaplin diferencia o barbeiro e Hynkel: enquanto este último tem, em seus discursos, sua arma mais perigosa, o barbeiro (cuja profissão depende da perfeita coordenação dos movimentos) não fala muito, expressando tudo o que pensa através do corpo. Isso talvez seja uma referência à sua própria resistência ao som. No entanto, já ao final do filme, quando o barbeiro deve se dirigir ao povo do país que acaba de `conquistar`, Chaplin faz as pazes com o cinema falado e profere um discurso emocionante, maravilhoso, profundo. `Os ditadores libertam-se a si próprios mas escravizam o povo.`, ele diz, em certo momento.

As demais interpretações também são perfeitas - em especial a de Jack Oakie, como o líder de `Bactéria`. Aliás, a cena em que os dois ditadores conversam em uma barbearia no palácio de Hynkel é fabulosa: eles ficam elevando, cada hora um, a cadeira em que estão sentados a fim de evitar que o outro o olhe por cima.

Obviamente, os diálogos quebram um pouco o ritmo `chapliniano` de fazer comédia. As gags visuais acabam cedendo um pouco de espaço para os diálogos. Eu, particularmente, não ri tanto de O Grande Ditador quanto de Luzes da Cidade (meu `Chaplin` preferido). Mas com certeza o riso não foi a única meta (talvez sequer a principal) de Chaplin neste filme. Sua despedida de Carlitos foi perfeita: o Vagabundo nos deixou não apenas com um riso estampado nos lábios. Deixou, também, uma reflexão em nossas mentes.
``

15 de Janeiro de 1998

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