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O Toque do Oboé
(A La Muerte Llegaremos Vivos)
119 min - Drama - 1998 (Brasil)
Músico se envolve com dona de casa e se torna culpado de estranhos fenômenos extraordinários.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Claudio Mac Dowell. Com: Paulo Betti, Letícia Vota, Mario Lozano, Arturo Fleitas, Graciela Cánepa, Fernando Miéles, Mirthita Mazó, Miriam Sienra, Humberto Gulino, Patricia Masera, Milencho Escobar e Wiliam Valverde.

Ao longe vemos um homem que empurra um carrinho-de-mão. À medida em que ele se aproxima, observamos que não se trata de um carrinho-de-mão, mas sim de um caixão: o homem é coveiro e se dirige ao cemitério da pequena cidade em que vive. À medida em que atravessa o lugarejo, o ranger das rodas da carroça na qual transporta o esquife é o único som que ouvimos enquanto os créditos iniciais surgem na tela.

Assim é a melancólica seqüência que abre O Toque do Oboé - uma excelente maneira encontrada pelo diretor Claudio Mac Dowell de apresentar ao espectador a estranha cidadezinha (localizada em algum ponto da América Latina) na qual toda a ação irá situar-se: um lugar onde aparentemente nada acontece. Até mesmo os enterros tornaram-se tão corriqueiros que o único a acompanhar os cortejos fúnebres é o próprio coveiro. No entanto, tudo começa a mudar a partir do momento em que Augusto, um músico brasileiro, desembarca na estação ferroviária da cidade. Um tipo introvertido, ele se dirige ao cemitério para tocar tranqüilamente o seu oboé. O som que sai do instrumento, contudo, atrai magicamente os moradores do povoado - fazendo com que até mesmo o defunto se levante de seu caixão para conferir o que está acontecendo.

Assim é este filme: simultaneamente aos acontecimentos mais triviais, fatos surpreendentes, dignos de uma fábula, despontam na história: um homem levanta de sua cadeira-de-rodas, uma telefonista fala com Deus ao tentar completar uma ligação e assim por diante. Uma das pessoas mais afetadas pela chegada de Augusto, no entanto, é a doce Aurora, que vê no estranho a possibilidade de reabrir o velho cinema que pertencera a seu pai - e que foi fechado por não ter quem acompanhasse, com música, os filmes mudos que ali eram exibidos. A princípio relutante (afinal, ele possui seus próprios segredos), Augusto aceita a incumbência e o cinema reabre suas portas.

A partir daí, as coisas mudam para os habitantes do lugarejo e um novo sopro de vida é instilado em todos pelo oboé do brasileiro. Velhas paixões se reacendem, novos amores são despertados. Aos poucos, as pessoas vão relembrando os velhos hábitos, reaprendendo a viver. Até mesmo a única prostituta da cidade, uma senhora de 70 anos, reabre suas portas (com o perdão do trocadilho). Porém, as mudanças não agradam a todos: alguns, como o Comissário Flores, ressentem as alterações e, assim, a cidade entra em conflito.

O roteiro, escrito por Mac Dowell com a assistência de Joaquim Assis, é repleto de passagens líricas, alternando momentos de maior profundidade com outros mais leves, cômicos. Mas sua maior virtude é, sem dúvida, a galeria de curiosos personagens que dão vida ao filme. Em uma cidade morta pelo tempo, é interessante observarmos o efeito da inércia sobre seus habitantes: a telefonista não sabe como completar uma ligação; a prostituta não sabe como agir com um cliente; e até mesmo o Padre, que passa seus dias a dormir no confessionário, já se esqueceu de alguns pontos da doutrina Católica (em certo momento, ao ser indagado sobre a existência do Diabo, ele chega a ficar confuso). O único inconveniente é que o excesso de personagens faz com que o espectador sinta dificuldade em se identificar com aqueles cujas histórias são mais pertinentes ao filme.

Enquanto isso, a estrutura narrativa de O Toque do Oboé, que à primeira vista poderia parecer rotineira, revela uma sutileza que encanta pela simplicidade: durante o filme, vários trechos de filmes mudos são exibidos no pequeno cinema de Aurora. O interessante é que cada um deles dá uma indicação sobre o clima que se seguirá na história, como se esta se dividisse em `capítulos`. Assim, logo depois que um divertido desenho animado é apresentado, o próprio tom de O Toque do Oboé torna-se mais leve. Em contrapartida, depois que um filme dramático é exibido, a trama que envolve Augusto torna-se mais melancólica, sem esperanças. Uma inteligente sacada do diretor, sem dúvida.

Paulo Betti, como o músico, desempenha mais uma vez com competência seu papel. A entrega de Augusto à música e seu curioso senso de responsabilidade para com a população local são comoventes. Enquanto isso, Arturo Fleitas (que interpreta o Comissário Flores) protagoniza alguns dos momentos mais divertidos do filme. Este ator paraguaio é, aliás, a grande revelação de O Toque do Oboé (pelo menos para nós, brasileiros): as alterações pelas quais seu personagem passa no transcorrer da trama são, todas, vividas com extrema eficácia. Outro que merece destaque é o veterano Mario Lozano, como o `teimoso` (é assim que seu médico o descreve) Sr. Soza.

Apesar de todas as virtudes, o filme falha em um ponto crucial que compromete o resultado final: assim como em diversos outros exemplares do cinema nacional, a edição é arrastada, tornando a narrativa lenta. Somado ao excesso de personagens, este pequeno (mas incômodo) equívoco acaba eventualmente cansando a platéia. No mais, O Toque do Oboé é um representante digno de nossa filmografia. Mais: é poesia em celulóide.
``

21 de Julho de 1999

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