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Nixon
(Nixon)
192 min - Biografia - 1995 (Estados Unidos)
A história de Nixon, ex-presidente do Estados Unidos que foi eleito duas vezes e se envolveu em um escândalo, conhecido como Watergate.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Oliver Stone. Com Anthony Hopkins, Joan Allen, Powers Boothe, Paul Sorvino, Ed Harris, Bob Hoskins, James Woods, J.T. Walsh, Madeline Kahn, Larry Hagman.

Nixon é mais uma incursão de Oliver Stone à recente história americana. Depois de focalizar suas lentes na Guerra do Vietnã, nos veteranos de guerra, na cultura pop, nos `heróis` criados pela mídia e no assassinato de JFK, o cineasta premiado por sua direção de Platoon e Nascido em 4 de Julho volta sua atenção para a era Nixon.

Stone é famoso por não se preocupar demasiadamente com a exatidão histórica. Ele está sempre mais preocupado com sua versão dos fatos do que propriamente com o que aconteceu. Algumas vezes ele consegue ser convincente, como em JFK (mas alguém realmente acredita que Lee Oswald agiu sozinho?), outras vezes, não. Os fãs do grupo The Doors, por exemplo, não ficaram nem um pouco satisfeitos com o enfoque por ele dado à vida de Jim Morrison.

Mas uma coisa é certa: os trabalhos anteriores de Stone sempre foram visualmente instigantes, desafiadores. A narrativa era intensa, envolvente. O espectador sabia aonde Stone queria chegar, e ficava ansioso para descobrir como ele lá chegaria. Bom, quanto ao visual, Nixon não decepciona - embora eu tenha a impressão de que quem acompanha o trabalho de Stone irá sentir uma espécie de dejà vu em praticamente todas as cenas (visualmente, uma mistura de JKF e Assassinos por Natureza). Mas pára por aí: a narrativa é confusa, e o filme em geral, cansativo.

Nixon começa com o arrombamento (na verdade, uma tentativa de espionagem) que deu origem ao escândalo Watergate. À partir daí somos levados a uma infinidade de flashbacks que cobrem toda a vida de Nixon, de sua infância (1925) até sua morte, em 1994. São quase 70 anos cobertos pelo roteiro de Oliver Stone, Stephen J. Revele e Christopher Wilkinson: as duas derrotas consecutivas (para Presidente, em 1960; e para Governador, em 1962); sua `aposentadoria`; seu retorno triunfal em 1968; a reeleição em 1972; e, finalmente, a renúncia.

Mas quem realmente foi Nixon? Esta é uma pergunta feita por um repórter quando da `aposentadoria` daquele, e que o filme parece ter a intenção de responder. Se tinha esta intenção, não obteve sucesso. O que vemos é um paradoxo vivo. Nixon, às vezes, parece mais um personagem mal esboçado do que uma pessoa real. Suas características se contradizem quase o tempo todo: ele é seguro, inseguro, egoísta, generoso, vingativo, benevolente; enfim, tudo e nada. Mas talvez fosse justamente essa a intenção - afinal, trata-se de política. O próprio filme se encarrega de mostrar que aqueles homens são capazes de tudo para chegar ao poder e lá ficar. Talvez Nixon comporte-se de acordo com a sua própria conveniência. Talvez seja um personagem mal desenvolvido. Talvez o próprio Nixon fosse assim.

O problema é que Stone nunca chega a ponto algum. A história não segue uma linha própria de desenvolvimento. E é justamente por não ter um `enredo` principal que o roteiro afunda. Em alguns momentos, é a guerra do Vietnã. Em outros, o relacionamento de Nixon com sua esposa (soberbamente interpretada por Joan Allen). Ou a ansiedade de Nixon em parecer à altura do julgamento da mãe morta. Ou sua obsessão pelo passado humilde (que nos remete a Cidadão Kane - aliás, há um enquadramento da Casa Branca, através de uma cerca, que me lembrou bastante a cena inicial do clássico de Orson Welles). Ou sua comparação com JFK (em certo momento, ao olhar para o quadro de Kennedy exposto na Casa Branca, Nixon diz: `Quando eles olham pra você, eles vêm o que querem ser. Quando olham para mim, vêm o que são`). Ou em sua necessidade em ser amado (e aqui, novamente, me lembrando Kane. `Imagine o que este homem poderia ter sido se tivesse sido amado.`, Kissinger diz. É como Leland (Joseph Cotten) analisa a vida de Kane: `Tudo o que ele sempre quis da vida foi amor`).

Já as atuações são irrepreensíveis. Hopkins está irreconhecível como o ex-presidente. Seus trejeitos, a maneira de falar, andar e sorrir e até mesmo sua maneira de olhar são toques de gênio. Bob Hoskins também está ótimo como J. Edgar Hoover. Mas o destaque fica mesmo para Paul Sorvino e sua interpretação simplesmente perfeita de Henry Kissinger.

Para encerrar, devo acrescentar que geralmente gosto de filmes longos. Grande parte das vezes sinto que o tempo `extra` foi bem gasto ao ser usado para desenvolver mais os personagens, o relacionamento entre eles, a história... Mas Nixon, em contrapartida, teria se beneficiado enormemente se pelo menos uns 30 minutos tivessem ficado esquecidos no chão da sala de edição. JFK, que tem quase a mesma duração que este filme, é um ótimo exemplo de tempo exemplarmente aproveitado. Stone sempre foi prolixo, é verdade... mas desta vez ele foi longe demais: é melhor ficar calado quando não se tem nada de interessante para dizer.
``

12 de Janeiro de 1997

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