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A Pele Que Habito
(La Piel Que Habito)
120 min - Drama - 2011 (Espanha)
Após perder a esposa, um cirurgião plástico fica obcecado em criar um tipo de pele resistente a qualquer tipo de agressão. Para isso, ele terá que contar com uma cobaia humana.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Pedro Almodóvar. Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, Eduard Fernández, José Luis Gómez, Blanca Suárez, Susi Sánchez, Bárbara Lennie.

Recentemente, ao discutir a carreira de Oliver Stone em uma entrevista, comentei que sempre espero grandes coisas de grandes diretores – mesmo quando estes se encontram em baixa. Pois esta fé em cineastas talentosos se renovou ao assistir a A Pele que Habito, comandado por Almodóvar depois do pavoroso tropeço Abraços Partidos, que listei como um dos dez piores filmes de 2009. Mistura estranhamente eficaz de Frankenstein, Um Corpo que Cai e A Centopeia Humana, o novo trabalho do espanhol é estranho, incômodo e novelesco em certos momentos, conseguindo ao final provocar reflexões instigantes sobre sexualidade e sobre aquilo que nos define como indivíduos.

Vivido por Antonio Banderas, que volta a trabalhar com Almodóvar depois de inacreditáveis 20 anos, o cirurgião plástico Robert Ledgard é um homem bem sucedido profissionalmente que, tendo participado de “três dos nove transplantes faciais realizados no mundo”, vem desenvolvendo uma pele artificial que não só poderá corrigir deformidades como ainda se mostra resistente ao fogo e a picadas de insetos. No entanto, se a vida pública do sujeito é impecável, a particular é repleta de tragédias pessoais – e mesmo suas pesquisas acabam sendo possíveis apenas porque ele mantém uma belíssima mulher, Vera (Anaya), em cativeiro, aparentemente usando-a como cobaia de seus experimentos. Mas qual é a relação exata entre Robert e Vera? E como isto se liga ao passado de ambos?

Escrito por Almodóvar e seu irmão Agustín a partir do livro “Tarântula”, de Thierry Jonquet, A Pele que Habito constrói sua história a partir desta incerteza acerca das motivações e dos relacionamentos entre os personagens – algo que o diretor apimenta com pequenas revelações que, a rigor, nada têm a ver com a trama principal e que poderiam soar até mesmo descartáveis (como, por exemplo, aquela relacionada ao “Tigre” e a Robert), mas que acabam enriquecendo a experiência justamente em função da contraposição entre seu caráter tolo de novela e os aspectos mais densos da narrativa, que remetem ao noir e ao thriller psicológico. Com uma cronologia fluida que vem se tornando marca registrada do cineasta, o longa é inteligente ao nos apresentar aos personagens sem permitir que saibamos inicialmente qualquer coisa sobre eles, estabelecendo uma ligação com o espectador que se torna fundamental à medida que vamos descobrindo mais sobre Robert, por exemplo – quando, então, já estamos tão presos a ele quanto Vera, sendo incapazes de renegá-lo mesmo conhecendo seu caráter assustador.

Abordando com seriedade um material que outros diretores tenderiam a levar para o camp, Almodóvar mantém até mesmo sua tendência ao kitsch sob controle – e ainda que as cores fortes (especialmente o vermelho) que caracterizam sua obra possam ser observadas aqui, nem se comparam à intensidade e à frequência costumeiras. Em vez disso, o cineasta investe num design de produção que ressalta a tecnologia onipresente na mansão de Ledgard e a maneira com que esta molda as relações do médico – seja através das cirurgias e da pesquisa ou de sua intimidade virtual com Vera através da imensa tela de LCD que exibe a imagem da moça em seu quarto.

Rico em rimas temáticas que evidenciam a inteligência da construção narrativa de Almodóvar, A Pele que Habita intriga, por exemplo, ao trazer Vera cobrindo pequenas esculturas humanas com tecidos tirados de seus vestidos, o que, claro, remete aos procedimentos aos quais ela mesma foi submetida – e da mesma forma, é fascinante perceber como Robert muda radicalmente sua postura em relação à garota depois que esta passa por certa experiência envolvendo o Tigre, o que aponta para um curioso senso de justiça do médico, como se de repente ele considerasse que o placar se equilibrou em relação ao passado. Além disso, como ignorar a beleza narrativa da fusão que, trazendo os rostos de Vera no presente e de Vicente (Cornet) no passado, faz uma transição certeira para o flashback que revelará mais sobre os personagens?

Mas é mesmo na discussão sobre identidade que o longa tem seu ponto forte: afinal, quem somos para nós mesmos? O que consideramos como sendo nosso “centro” enquanto indivíduos? Em certo instante, Robert descreve seus antigos pacientes de transplantes faciais como pessoas que se julgavam “monstros” pela deformidade que exibiam, como se a distorção de suas feições refletisse, de maneira inexplicável, uma mudança em quem eram. Pois o fato é que embora apenas ocupemos nossos corpos, frequentemente somos levados a nos definir a partir destes, permitindo que nossas personalidades, valores, paixões e ações sejam definidas por características externas como peso, calvície, espinhas e outros elementos que, a rigor, jamais deveriam moldar nossa percepção de nós mesmos - mas que o fazem por sabermos que assim julgamos o próximo. Assim, ao assistirmos a A Pele que Habito, nos perguntamos “quem é Vera, afinal?” e percebemos sua luta para ajustar quem ela sente ser com aquilo que vê no espelho – uma batalha que vai além da vaidade e com a qual todos podemos nos identificar em maior ou menor grau.

E assim, quando vemos os créditos finais do filme mudando de cor enquanto percorrem a tela, percebemos que Almodóvar mantém sua discussão até o último centímetro da película – já que, vermelhos, azuis ou verdes, os nomes da equipe do cineasta permanecem sempre os mesmos.

Como Vera, talvez.

07 de Dezembro de 2011

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