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A Invenção de Hugo Cabret
(Hugo)
126 minutos - Aventura - 2011 (Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 17/02/2012
Distribuidora: Paramount
A vida de um órfão que vive em uma estação de trem na Paris dos anos 1930 e os mistérios que envolvem sua vida, seu pai e um robô.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Martin Scorsese. Com: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Ray Winstone, Emily Mortimer, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg, Frances de la Tour, Richard Griffiths, Jude Law, Christopher Lee.

Há dois filmes disputando espaço em A Invenção de Hugo Cabret, novo trabalho do incomparável cineasta Martin Scorsese: o primeiro, capaz de envolver e encantar qualquer cinéfilo mais dedicado, é uma homenagem apaixonada à História do Cinema e a um de seus mais admiráveis pioneiros, além de oferecer também um alerta sobre a importância da preservação dos grandes clássicos; já o segundo é uma historinha boba e sem graça que leva longos 126 minutos para chegar a um desfecho previsível que beira o melodrama. O resultado é uma obra com dupla personalidade que inspira sentimentos conflitantes: é fácil admirá-la intelectualmente, mas difícil abraçá-la emocionalmente.

Escrito por John Logan a partir do livro de Brian Selznick (sim, parente de David O.), o roteiro acompanha o órfão do título (Butterfield), que, vivendo nas entranhas de uma grande estação ferroviária em Paris, tenta juntar peças a fim de reconstruir um autômato encontrado por seu pai (Law), um relojoeiro morto em um incêndio. Certo dia, porém, Hugo é surpreendido pelo dono de uma loja de brinquedos ao tentar furtar mais um objeto para seu projeto – e acaba sendo obrigado a trabalhar para o sujeito a fim de evitar ser entregue ao ameaçador inspetor da estação (Cohen). Tornando-se amigo de Isabelle (Moretz), filha adotiva do lojista, o garoto acaba descobrindo que seu patrão é Georges Méliès (Kingsley), esquecido diretor do icônico Viagem à Lua e possível inventor do objeto descoberto por seu pai.

Investindo num universo colorido que reforça a atmosfera fabulesca da narrativa, Hugo traz o veterano designer de produção Dante Ferretti em mais um grande momento, já que desde a imponente estação até a amontoada livraria de Monsieur Labisse (Lee) o filme encanta por seus cenários expressivos e ricos em detalhes – e o plano-sequência que traz o protagonista percorrendo corredores estreitos e descendo escorregadores improvisados, já no início da projeção, representa um belo esforço conjunto de Ferretti e do diretor de fotografia Richard Richardson, servindo como uma apresentação perfeita do universo do menino. Da mesma forma, Scorsese já abre o filme com uma fusão bela e inventiva que converte os mecanismos dos relógios mantidos por Hugo nas ruas de Paris, apresentando-nos simultaneamente ao cenário da história e às obsessões do protagonista.

E por falar em obsessão, Scorsese encontra em Hugo o veículo perfeito para discutir a sua própria: o Cinema. Introduzindo o tema de maneira poética ao trazer a luz oscilante de um projetor originando as lembranças do personagem-título (e, consequentemente, os flashbacks), o cineasta também ilustra o princípio técnico de sua Arte ao retratar Méliès folheando rapidamente um caderninho e conferindo, assim, movimento a uma série de ilustrações – e não demora muito até que o longa, ambientado na década de 30, passe a exibir trechos de obras como A Chegada do Trem na Estação, A Saída dos Operários da Fábrica Lumière, O Beijo, O Grande Roubo do Trem, Intolerância, O Garoto, A Caixa de Pandora, O Homem-Mosca e A General, entre outros, numa espécie de medley que poderia quase servir como uma pequena introdução sobre as três primeiras décadas da Sétima Arte. De maneira similar, Scorsese obviamente se delicia imensamente ao recriar os bastidores de várias produções de Méliès, desde o já citado Viagem à Lua até O Eclipse, passando pelo curioso O Melómano. Como se não bastasse, Hugo acaba atirando seu pequeno herói em várias situações que acabam gerando referências a estas mesmas produções, desde o incidente envolvendo o trem até o momento em que o garoto se vê pendurado no ponteiro de um relógio.

Vale apontar, aliás, que, assim como fizeram em O Aviador ao brincarem com técnicas de fotografia que remetiam aos períodos nos quais certas cenas se passavam, Scorsese e seu diretor de fotografia Robert Richardson aqui se divertem nas sequências que trazem Méliès em seu estúdio (outra bela criação de Dante Ferretti), quando simulam os tons básicos resultantes do esforço daquele mestre em tingir a película à mão. Já nas cenas ambientadas na estação, Richardson busca salientar o sépia próprio do cenário, reforçando a atmosfera nostálgica da narrativa.

Portanto, justamente por admirar tanto os aspectos técnicos de Hugo e seu manifesto amor pelo Cinema que me vi tão frustrado ao ver estes elementos presos a uma trama tão rala – e que, para piorar, é prejudicada pela falta de hábito de Scorsese de construir histórias voltadas para o público infantil. Com isso, o filme acaba se apresentando lento e sem ritmo, o que é intensificado pelo excesso de pausas entre os diálogos e pelo fraco timing cômico do diretor, que pode ser comprovado na cena que traz o Inspetor sendo arrastado por um trem ou naquela envolvendo a bagunça feita por um cão. Além disso, talvez por acreditar que o público infantil exigiria um pouco mais de obviedade, o cineasta permite que antecipemos facilmente vários incidentes, bastando que vejamos o plano-detalhe do banquinho utilizado por um personagem para que percebamos que ele despencará em seguida. E se é decepcionante ver um diretor do calibre de Scorsese investindo em sequências de sonho para comunicar algo sobre o protagonista (algo piorado pela metáfora nada sutil do tórax que traz mecanismos no lugar de um coração), ainda pior é perceber o excesso de personagens secundários que servem apenas para inchar desnecessariamente a duração do filme – como o casal vivido por Richard Griffiths e Frances de la Tour e, claro, o livreiro interpretado pelo gigante Christopher Lee.

Sim, é divertido perceber a presença de figuras como James Joyce e Django Reinhardt sendo vistas rapidamente na estação, mas se estas brincadeiras não comprometem a fluidez da narrativa, o mesmo não pode ser dito sobre toda a subtrama voltada para a preservação de películas – e mesmo que aplauda a iniciativa de Scorsese neste sentido (principalmente seu comprometimento com a causa), não estou certo de que a discussão se encaixe de forma orgânica em Hugo.

O fato é que a ideia de A Invenção de Hugo Cabret me encanta mais que sua execução. E isto não é algo comum na filmografia de Martin Scorsese.

Observação: o cineasta surge em uma ponta como o fotógrafo que tira um retrato de Georges Méliès diante de seu estúdio de vidro.

Observação 2: o 3D do longa é um dos melhores exemplos de utilização da técnica, já que, como profundo conhecedor de linguagem cinematográfica, Scorsese compreende que o 3D exige grande profundidade de campo – que ele e Richardson empregam na maior parte do tempo.

Observação 3: o fato de Hugo ser lançado com mais cópias dubladas do que legendadas no Brasil comprova que a distribuidora simplesmente não compreendeu a mensagem básica do filme sobre a preservação das obras originais. Inacreditável – e ofensivo para qualquer cinéfilo.

17 de Fevereiro de 2012

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