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O Lado Bom da Vida
(Silver Linings Playbook)
Comédia Dramática - 2012 (Estados Unidos)
Depois de sofrer um colapso mental, homem é abandonado pela esposa, que se casa novamente. Após quatro anos em um hospital psiquiátrico, ele decide recuperá-la, contando com a ajuda de uma mulher deprimida.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por David O. Russell. Com: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Dash Mihok, Julia Stiles, John Ortiz, Anupam Kher, Shea Whigham, Brea Bree.

Protagonizado por um personagem bipolar, O Lado Bom da Vida pode ser descrito como um filme que sofre da mesma condição, saltando de cenas leves com humor artificial para outras pesadíssimas nas quais um filho agride fisicamente os pais. No entanto, se isto é uma desvantagem clara para um humano, no caso deste longa acaba surgindo como um curioso elemento narrativo, refletindo com eficiência a experiência de dividir o teto com um indivíduo que salta subitamente de um humor a outro. Menos admirável, contudo, é perceber como o roteiro do cineasta David O. Russell também investe em interações muitas vezes artificiais, transformando o que poderia ser um delicado estudo de personagem em uma comédia romântica que mergulha em clichês sem qualquer hesitação.

Baseado em um livro de Matthew Quick, o filme acompanha o professor Patrick Solitano (Cooper), que, depois de um acesso de fúria ao surpreender a esposa com outro homem, espanca o sujeito e é obrigado a passar oito meses em um hospital psiquiátrico. Voltando a morar com os pais (De Niro e Weaver), ele se mostra decidido a reconquistar Nikki (Bree) apesar de uma ordem judicial que o obriga a se manter afastado da amada. É então que ele conhece a igualmente instável Tiffany (Lawrence), que o convence a dançar ao seu lado em uma competição.

Sim, trata-se de uma trama formulaica que, justamente por isso, nem sempre permite que os bons personagens sobrevivam às convenções – e é lamentável, por exemplo, como o filme constantemente se entrega a longos diálogos expositivos para explicar o passado e as motivações daquelas pessoas, já que se sai muito melhor justamente quando se permite alguma sutileza (e a cicatriz que cobre o nariz de Pat, por exemplo, sugere um mundo de problemas sem que jamais tenhamos que descobrir o que a provocou). Na realidade, Um Lado Bom da Vida, ainda que simpático, é tão inofensivo como Arte que sua trajetória nas categorias Filme, Direção e Roteiro em várias premiações só pode atribuída a uma causa com nome e sobrenome: Harvey Weinstein.

Já os aplausos direcionados ao elenco são inquestionavelmente merecidos: encarnando Pat como um sujeito agitado e de fala rápida (já que na maior parte do tempo vemos o personagem em sua fase maníaca), Bradley Cooper permite que vejamos a doçura subjacente do personagem, que muitas vezes age como uma criança – como, por exemplo, ao esquecer sua frustração momentânea ao ser presenteado com um iPod ou ao alterar rapidamente a expressão de raiva para alegria ao ter sua perda de peso reconhecida por outra pessoa. Enquanto isso, Jennifer Lawrence volta a compor um tipo forte (algo que a garota vem se especializando em fazer em longas como Inverno da Alma e Jogos Vorazes), mas com o diferencial de que, desta vez, esta força surge como resposta às críticas constantes sofridas por sua Tiffany, obrigando-a a abraçar as próprias idiossincrasias não só como mecanismo de defesa, mas como forma de sobrevivência. Com isso, alguns dos melhores momentos de O Lado Bom da Vida são aqueles nos quais acompanhamos a dinâmica entre Pat e Tiffany, embora estas pontualmente se tornem terrivelmente artificiais ao tentarem evocar uma natureza de comédia screwball que simplesmente não funciona aqui.

E se Jacki Weaver cria sua performance basicamente através de olhares que se alternam entre o gentil, o esperançoso e o angustiado (criando uma personagem diametralmente oposta à criatura monstruosa que viveu no ótimo Reino Animal), Robert De Niro finalmente volta a fazer algum esforço de interpretação ao viver o pai do protagonista como um homem que, tomado por transtornos obsessivo-compulsivos (que não reconhece ter), sofre pelo filho ao mesmo tempo em que não contém a impaciência quando este não aceita se submeter aos seus rituais de superstição – e a cena na qual o velho Solitano se abre para o filho é brilhante por sua ambiguidade: estaria o sujeito realmente demonstrando arrependimento ou o propósito é apenas convencer o rapaz a fazer o que pretende lhe pedir?

É uma pena, portanto, que estes momentos de ambiguidade sejam tão raros no filme, já que David O. Russell (um diretor cujos trabalhos sempre admirei) exibe uma mão tão pesada na maior parte do tempo. Sim, a câmera agitada que segue o protagonista pela casa em meio a cortes frequentes é hábil ao evocar seu estado mental, mas por que diabos o cineasta sente a necessidade de subitamente enfocar as mãos do rapaz quando este se encontra na terapia, num esforço tolo e (de novo) artificial para ilustrar seu desconforto? Para piorar, a longa cena que reúne praticamente todos os personagens na casa dos Solitano, ao fim do segundo ato, é de uma tolice tremenda, soando muito mais como algo saído de uma sitcom do que como um ponto de virada importante de um longa indicado ao Oscar – e Russell parece acreditar que a montagem frenética irá conferir autenticidade a uma situação absurda, o que não acontece. (Aliás, o próprio conceito da aposta dupla é apresentado como algo... bom, saído de um filme, não como um incidente realista em uma narrativa que busca lidar com uma condição psíquica real e dolorosa.)

Falso também na abordagem da psicanálise, já que o terapeuta de Pat se revela um sujeito manipulador (como ao obrigá-lo a se envolver com Tiffany) e incapaz de manter uma distância apropriada do paciente (ele é um dos presentes na cena da aposta, que se passa na casa do rapaz), O Lado Bom da Vida também revela um machismo preocupante ao constantemente se referir à “promiscuidade” de Tiffany como uma prova de sua fragilidade psicológica – e é triste que o protagonista do filme, que devemos considerar como nosso “herói” na narrativa, frequentemente se refira a ela como “vadia” e “puta” apenas porque se entregou ao sexo como mecanismo de escape. (Um homem na mesma situação jamais seria julgado por isso; não desta maneira agressiva.)

Tolo também ao considerar que a condição psíquica dos personagens principais de alguma forma os transforma em figuras mais “autênticas” ou “admiráveis” em um mundo dominado pelo cinismo e pela falsidade, o roteiro irrita ao constantemente explicar piadas e situações (“Por que eles estão tão excitados?”) – e é inacreditável que a melhora de Pat seja ilustrada pela posição de seu retrato na parede da casa dos pais, como se pudéssemos aceitar que alguém tiraria a foto do filho do lugar e a retornaria apenas ao aprovar sua condição psicológica.

No entanto, o momento no qual O Lado Bom da Vida realmente parece desistir de qualquer traço de originalidade é seu clímax, quando se entrega a praticamente todos os clichês do gênero: mal-entendidos, mocinhos que são obrigados a correr atrás da mocinha pela rua e, claro, o insuportável travelling circular do beijo romântico.

O que não quer dizer, claro, que não me importei com os personagens e torci por sua felicidade. Seria melhor apenas se eu pudesse encará-los como pessoas em vez de construções artificiais de Hollywood.

03 de Fevereiro de 2013

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