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Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge
(The Dark Knight Rises)
165 min - Ação - 2012 (Estados Unidos)
Quando o Comissário Gordon descobre uma conspiração para destruir a cidade de Gotham City, Bruce Wayne precisa voltar a usar o uniforme de Batman. Esperando por ele está a misteriosa Selina Kyle e Bane, um adversário letal numa cruzada para destruir Batman pedaço por pedaço.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Christopher Nolan. Com: Christian Bale, Gary Oldman, Anne Hathaway, Tom Hardy, Marion Cotillard, Mathew Modine, Joseph Gordon-Levitt, Ben Mendelsohn, Nestor Carbonell, Morgan Freeman e Michael Caine.

Depois de ser destruída pela abordagem excessivamente cartunesca de Joel Schumacher, a franquia Batman parecia fadada ao esquecimento até que, em 2005, o cineasta Christopher Nolan conseguiu resgatá-la em Batman Begins ao investir numa estratégia narrativa instigante que buscava ancorar o herói num universo realista e cruel – algo sedimentado ainda mais em O Cavaleiro das Trevas, que conseguiu a proeza de transformar até mesmo o inesquecível Coringa de Heath Ledger em um vilão perfeitamente plausível. Pois a trilogia chega agora ao fim de maneira absolutamente satisfatória em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que, mesmo ficando um pouco abaixo de seus antecessores, cria uma experiência tensa e envolvente que testa os limites de seu herói (e do público) de forma intensa e impiedosa.

Iniciando a projeção com uma extensa sequência de ação que se encaixaria perfeitamente em um filme da série 007, o longa escrito por Nolan e seu irmão Jonathan (a partir de argumento concebido ao lado de Davis S. Goyer) já nos apresenta de imediato ao vilão Bane (Hardy), estabelecendo de forma objetiva sua força descomunal, sua inteligência e a fidelidade que é capaz de inspirar em seus capangas. A partir daí, retornamos a Gotham City e descobrimos que oito anos se passaram desde a morte de Harvey Dent – uma tragédia que, atribuída ao Homem-Morcego (Bale), inspirou a criação de uma lei que, associada aos esforços do comissário Gordon (Oldman), acabou com a criminalidade na cidade. É neste contexto que Bruce Wayne acaba sendo levado a reassumir o papel de herói depois que a presença de Bane em Gotham é revelada – numa trama que envolverá ainda a ladra Selina Kyle (Hathaway), o jovem policial Blake (Gordon-Levitt) e a milionária Miranda Tate (Cotillard).

Como é possível constatar apenas observando a sinopse acima, O Cavaleiro das Trevas Ressurge, como tantos capítulos finais de trilogias, traz uma infinidade de personagens mergulhados em diversas subtramas, o que acaba por inflar a narrativa um pouco mais do que o necessário, comprometendo o ritmo em alguns momentos e sacrificando o desenvolvimento de algumas figuras importantes  - e por mais interessante (e sedutora) que seja a Mulher-Gato de Anne Hathaway, por exemplo, seria perfeitamente possível excluí-la da história sem prejudicar o roteiro, já que suas ações poderiam ser omitidas ou executadas por outros indivíduos.

Fotografado por Wally Pfister com uma paleta fria e levemente dessaturada que o afasta de uma abordagem fantasiosa, ambientando-o num mundo triste e verossímil, o filme ainda é beneficiado pela decisão de Christopher Nolan de apostar em efeitos visuais mecânicos na maior parte do tempo, evitando a artificialidade digital que tem prejudicado tantas produções contemporâneas. Além disso, o diretor demonstra o talento habitual ao conceber sequências de ação grandiosas – e ainda que pecando na decupagem e gerando certa confusão espacial e de mise-en­-scène nestes momentos (algo recorrente em suas obras), Nolan impressiona pela escala, o que pode ser comprovado nos planos gerais que revelam explosões múltiplas por Gotham. Da mesma maneira, o cineasta continua a exibir um talento especial para construir um forte clima de tensão através de montagens paralelas que justapõem incidentes envolvendo diversos personagens em situações de risco crescente – e também é admirável (e corajosa) sua decisão de usar apenas o hino nacional dos Estados Unidos cantado por uma criança para embalar uma sequência especialmente eficaz do projeto. Para finalizar, o design de produção de Nathan Crowley e Kevin Kavanaugh é impecável tanto na concepção realista de uma Gotham cinzenta e arruinada quanto na ideia de transformar o tribunal improvisado pelos marginais em uma imagem quase expressionista e digna de Kafka (e o “juiz” não poderia ser mais adequado).

Com um elenco composto por vários nomes recorrentes na trupe de Nolan, O Cavaleiro das Trevas Ressurge tem, como destaque entre os “novatos”, o policial de Joseph Gordon-Levitt, que, corajoso e idealista, funciona como motor para que Bruce Wayne volte à ativa graças a um monólogo simples, mas bastante evocativo. Por outro lado, se Hathaway fica presa a uma personagem que se mostra interessante apenas pela beleza e pelo fato de sabermos que se trata da Mulher-Gato, Marion Cotillard é prejudicada pela indefinição da ricaça Miranda Tate durante a maior parte da projeção – e quando finalmente entendemos seu papel na trama, o filme está praticamente no fim (e não é à toa que outro problema comum na filmografia de Nolan reside na unidimensionalidade das personagens femininas). Já os veteranos Gary Oldman e Michael Caine se estabelecem de vez como as bússolas morais da narrativa: enquanto o primeiro jamais consegue relaxar mesmo sabendo que Gotham encontra-se num período de paz, o segundo mostra-se sempre preocupado com seu querido “master Bruce”, permitindo a Caine protagonizar os dois momentos mais tocantes do longa.

Enquanto isso, Christian Bale volta a exibir sua facilidade para se ajustar fisicamente aos personagens que vive, surgindo magro e fragilizado no início da trama e ganhando força e agilidade ao longo da história – e quando volta a vestir o uniforme do Homem-Morcego, sentimos, graças à sua composição como Bruce Wayne, o sacrifício representado por aquele retorno e o peso do símbolo no qual se tornou. Além disso, sua decisão de manter a voz enrouquecida sempre que veste a máscara – mesmo quando conversando com alguém que conhece sua identidade secreta – é instrumental para que percebamos que, para Wayne, aquele não é um mero disfarce, mas uma personalidade alternativa usada para exorcizar seus demônios pessoais (beirando, neste sentido, certa esquizofrenia). Aliás, a composição vocal é também elemento chave na performance de Tom Hardy como o vilão Bane, já que é através de sua inflexão estudada e que oscila entre o sarcasmo, a maldade, o desprezo e o cálculo que percebemos o caráter do sujeito, já que seu rosto encontra-se encoberto por uma imensa máscara (e, mais uma vez, os espectadores que optarem pela versão dublada perderão elementos importantíssimos da experiência). Como se não bastasse, sua imponência física (que remete aos tempos de Bronson e do recente Guerreiro), associada à decisão de Nolan de filmá-lo constantemente a partir de ângulos baixos, converte Bane numa ameaça constante. (Créditos também devem ser dados à figurinista Lindy Hemming, que cria padrões em sua máscara que remetem a dentes dignos do Alien.)

É uma pena, portanto, que o roteiro peque em alguns pontos importantes (e sugiro que o restante deste texto, incluindo a segunda parte, seja lido apenas por quem já assistiu ao filme) – a começar pelo plano de Bane, que se concentra em dar “esperança” a Gotham para depois destruí-la. Ora, que tipo de esperança os cidadãos da metrópole podem ter em um mundo como aquele criado pelo vilão, que praticamente destrói a cidade e a mantém sob terror constante? E mais: como Bruce Wayne consegue retornar em menos de um mês a Gotham se não tinha um centavo (ou sua identidade) no bolso? E como entrou na cidade, já que esta se encontrava aquartelada? Além disso, os irmãos Nolan exageram no número de vezes em que Batman simplesmente aparece em algum lugar no qual sua presença se faz necessária, já que ele salva Selina, Blake e Gordon em três momentos distintos e no último segundo. Para piorar, alguns dos diálogos criados pelos Nolan chegam a doer nos ouvidos, como aquele dito pelo milionário vivido por Ben Mendelsohn para Bane: “Você é pura maldade!”.

Apesar destes tropeços, porém, O Cavaleiro das Trevas Ressurge encanta por sua construção narrativa, que jamais ignora se tratar do terceiro capítulo de uma longa história – e é admirável que o filme crie rimas não só com o segundo, mas também com o primeiro longa da série: observem, por exemplo, como (e já avisei: spoilers!) a filha de Ra’s Al Ghul tem um fim semelhante ao do pai, já que ambos morrem em meios de transporte que também trazem instrumentos de destruição essenciais aos seus planos. E mais: se ao final de O Cavaleiro das Trevas a destruição de Harvey Dent criava as condições simbólicas para o renascimento de Gotham, aqui é a partida de Batman que ocasiona isso (sendo que ambas são baseadas em mentiras: Dent não morreu como herói e o Homem-Morcego possivelmente não morreu e ponto – mais sobre isso na Parte 2). Aliás, neste sentido há até uma rima interna em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que tem início e fim com uma aeronave carregando algo através de cabos (um avião e uma bomba, respectivamente).

Mantendo a coerência na atmosfera sombria e fatalista dos três filmes, Christopher Nolan encerra sua incursão ao universo de Batman como começou: demonstrando que um longa baseado em super-heróis pode ser adulto, investir no realismo e representar um passatempo escapista sem, com isso, desrespeitar a inteligência de seu público. E como o cineasta ainda consegue deixar a porta aberta para possíveis continuações mesmo sem deixar no espectador a sensação de algo inacabado, é inevitável que a Warner eventualmente dê luz verde a um novo longa. Torçamos apenas para que o próximo a assumir a franquia compreenda que o que a tornou novamente viável foi a abordagem ambiciosa e madura de seu antecessor.

 

Batman: O Pião Continua a Girar?

Christopher Nolan esteve muito, muito perto de criar, em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, um final tão ambíguo quanto aquele de seu longa anterior, A Origem – e caso tivesse encerrado a obra enfocando o sorriso de Alfred no café em Florença e evitado mostrar o que o mordomo vira, o diretor enviaria o público para fora da sala de projeção mergulhado em dúvidas: teria o personagem de Michael Caine visto Bruce Wayne? Seria uma solução orgânica e elegante que permitiria interpretações diferentes de acordo com o temperamento de cada espectador – exatamente como a dúvida que concluíra Inception.

Mas, claro, não é isso que ocorre: após o sorriso de Alfred, vemos Bruce Wayne e Selina Kyle. Os dois homens acenam um para o outro e o mordomo se levanta para abandonar o local com uma alegria inquestionável estampada no rosto. Seu querido patrão (e, mais do que isso, filho) sobrevivera e reconstruíra a própria vida. Exatamente como ele sonhara e descrevera anteriormente na narrativa.

E é justamente por ter enfocado Alfred descrevendo esta fantasia que O Cavaleiro das Trevas Ressurge permite a indagação: seria aquela imagem real? Teria o personagem de Caine realmente visto Bruce em Florença? Ou seria esta apenas uma manifestação de seu desejo?

É possível interpretar a cena como um sonho, não há dúvida: para começar, Selina Kyle está vestindo uma roupa azul – o único instante do filme no qual usa um figurino que não é dominado pelo preto. Da mesma forma, Bruce veste uma camisa de cor alegre, que se contrapõe às cores sóbrias que costuma vestir. Isto para não mencionarmos que a reação de Wayne e Alfred, um leve aceno de cabeça seguido pela partida deste último, é no mínimo implausível considerando o carinho que sentem um pelo outro e o que aquele encontro representa.  Sim, dizer que tudo se resume a uma fantasia do velho empregado da família Wayne não é um absurdo tão grande – e, mais do que isso, representa um desfecho dramaticamente eficaz.

No entanto, é igualmente factível interpretar o contraste nas cores do figurino como sendo uma representação da nova vida criada por Bruce e Selina. E Alfred pode ter se afastado para respeitar a privacidade do antigo patrão, já satisfeito em sabê-lo vivo. E, claro, precisamos considerar que o roteiro se preocupa em incluir uma cena que traz Lucius Fox (Freeman) descobrindo que Wayne consertara o piloto automático do helicóptero, o que explicaria (com muito boa fé por parte do espectador) a escapada do herói – mesmo que possamos perguntar como a nave sobrevivera quase intacta à explosão da bomba e à queda subsequente.

Em outras palavras: se o desfecho de A Origem era de uma ambiguidade calculada, aqui esta depende mais do público do que do cineasta, que, sejamos honestos, claramente enxerga um futuro otimista para seu protagonista.

Mas esta é a beleza da Arte: ela só se completa com a participação do observador. E eu, particularmente, prefiro completá-la com a morte de Bruce Wayne.

Observação: também gravei um videocast sobre o filme que pode ser acessado aqui.

26 de Julho de 2012

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