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Renascimento, O
(Ai no yokan ou The Rebirth)
102 minutos - Drama - (Japão)
Junichi, que perdeu a mulher para o câncer, vive num apartamento de classe média alta em Tóquio com sua única filha. Ele tem um bom emprego num jornal, mas sua vida desmorona quando a filha é morta a facadas por uma colega na escola. Abandonando tudo, Junichi muda-se para o norte do Japão e passa a viver uma rotina dura e silenciosa, trabalhando como metalúrgico. Um dia ele conhece Noriko, servente do albergue em que vive, e os dois acabam se afeiçoando. O que ele não sabe é que Noriko é mãe da menina que matou sua filha.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Masahiro Kobayashi. Com: Masahiro Kobayashi e Makiko Watanabe.

 

Durante a Mostra Internacional de SP em 2005, minha experiência com um filme de Kobayashi não foi das mais favoráveis. Aliás, foi desastrosa: dos 58 longas aos quais assisti durante o evento naquele ano, Desonra ocupou a última colocação em minha classificação final, dividindo a rabeira da lista com The Wild Blue Yonder, dirigido por um cineasta que admiro imensamente, Werner Herzog (curiosamente, outro filme de Herzog, O Homem Urso, encabeçou minha lista de “melhores do ano”).

 

O interessante é que O Renascimento, mais recente trabalho de Kobayashi, divide com Desonra algumas das características que me fizeram detestar tanto aquele filme, como a repetição de planos num aparente e interminável looping – mas se isto soava sem propósito no trabalho de 2005 (que cheguei a apelidar de A Escadaria, já que as escadas do prédio da protagonista pareciam ter mais destaque do que a própria), desta vez é empregado com inteligência para ilustrar o cotidiano sem vida ou novidades dos dois personagens que dividem nossa atenção. Assim, quando Kobayashi recria o mesmíssimo movimento de câmera sempre que a Mulher (Watanabe) recolhe as bandejas deixadas em seu balcão, somos imediatamente transportados para a monótona rotina da moça, cuja existência sem propósitos soa, na prática, como uma espécie de suicídio, já que ela de fato renunciou à própria vida em função de uma tragédia recente.

 

Enquanto isso, o Homem (vivido pelo próprio Kobayashi) mergulha em sua própria fuga através do trabalho manual e de um dia-a-dia que não traz novidades ou alegrias. O mais fascinante, na abordagem do cineasta, é perceber que, justamente por habituar o espectador à repetição de seus planos e composições de quadro, o filme nos surpreende sempre que algum pequeno novo elemento se apresenta, como uma sacola de plástico sobre a mesa ou a decisão do protagonista de não partir um ovo sobre o arroz, como faz habitualmente. Além disso, há algo de Tempo de Diversão (o clássico de Jacques Tati) em O Renascimento, já que Kobayashi permite que o espectador passeie com o olhar por seus quadros estáticos a fim de acompanhar os demais elementos da cena que se encontram em segundo ou terceiro plano – e como os demais hóspedes do hotel/pensão em que o Homem mora também costumam ocupar sempre os mesmos lugares, podemos perceber suas expressões e hábitos que sugerem existências igualmente vazias e tristes, expandindo o universo do filme de maneira fascinante.

 

Adotando uma abordagem corajosa que certamente afastará alguns espectadores de sua narrativa, O Renascimento é desenvolvido praticamente sem a utilização de diálogos. Confiando (melhor: investindo) em sua câmera e nos atores para ilustrar as dores de seus personagens, Kobayashi e Naoki Kaneko (seu montador habitual) constroem uma montagem inteligentíssima que, através de ritmos muito bem estabelecidos, reconhece os momentos em que deve se estender e aqueles que exigem elipses – ou mesmo a necessidade de encurtar progressivamente a duração de cada cena em seqüências específicas, como aquela que abre a projeção: inicialmente, ouvimos um longo depoimento da Mulher, seguido por um igualmente longo testemunho do Homem. A partir daí, voltamos para a Mulher, que fala brevemente e, em seguida, para o outro personagem, que também pouco diz. Este encurtamento progressivo de determinados blocos de ação é responsável por levar o espectador a compreender o ritmo particular do filme e a perceber a aproximação de pequenos clímax que conduzem à “resolução” gradual da história.

 

E esta “resolução”, diga-se de passagem, é o que O Renascimento tem de mais belo e poético. Ressentindo a presença da Mulher, mãe da garota que matou sua filha, o Homem também se torna progressivamente mais dependente da outra, reconhecendo uma espécie de “amor” nascido da identificação, já que percebe, na Mulher, uma tragédia similar à sua. Mas a tragédia é que, junto deste amor, vem um forte ressentimento que condena ambos a uma relação que, mesmo impossível de suportar, jamais poderá ser totalmente rompida.

 

Tocante e corajoso, O Renascimento é uma obra tão surpreendente em sua segurança e sensibilidade que, confesso, me fez questionar se, ao assistir a Desonra em 2005, eu estava em uma espécie de transe mal-humorado que me fez cego para as virtudes de Masahiro Kobayashi.  

04 de Outubro de 2008

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