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Biutiful
(Biutiful)
Drama - 2011 (Espanha)
Homem envolvido com negócios ilícitos é confrontado pelo amigo de infância, agora um policial.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Alejandro González Iñárritu. Com: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanaa Bouchaib, Guillermo Estrella, Eduard Fernández, Diaryatou Daff, Cheng Tai Shen, Luo Jin, Cheikh Ndiaye.

Biutiful ter este título é o mesmo que A Lista de Schindler se chamar Domingo no Parque. Povoado por personagens miseráveis que se sentem culpados por suas ações constantemente cruéis e imorais – o que não os impede de repeti-las com freqüência -, o filme do mexicano Alejandro González Iñárritu é uma experiência deprimente que se esforça ao máximo para manter o espectador angustiado, apelando para todo tipo de infortúnio para garantir que saiamos da sala de projeção impressionados com o peso dramático da narrativa – o que, claro, apenas salienta sua artificialidade em vários momentos.

Protagonizado por um Javier Bardem que, por si só, quase eleva o projeto do melodrama ao estudo de personagem (eu disse “quase”), o filme gira em torno de Uxbal, um sujeito que, pai de dois filhos, se esforça para garantir algum dinheiro ao intermediar as negociações envolvendo mão-de-obra escrava oferecida por um insignificante bandido chinês, Hai (Cheng), que mantém imigrantes empobrecidos em sua fábrica de produtos falsificados durante o dia e no porão claustrofóbico do edifício durante a noite. Obrigado a lidar com a ex-esposa bipolar e viciada em drogas (Álvarez) e com a pressão imposta por um policial que costuma subornar para evitar a prisão de outro grupo de imigrantes ilegais (estes, senegaleses), Uxbal ainda garante alguns trocados ao usar seus dons mediúnicos para facilitar a comunicação entre recém-falecidos e seus parentes enlutados – uma tarefa que se torna ainda mais mórbida quando ele próprio descobre estar em fase terminal de câncer.

Como é fácil perceber, não há nada de “belo” (ou “beautifulou biutiful” ou “bi-íto”, como queiram) no universo concebido por Iñárritu e seus co-roteiristas, os estreantes Armando Bo e Nicolás Giacobone, que aqui substituem o ex-parceiro do cineasta, Guillermo Arriaga, com o qual o diretor havia realizado todos os seus trabalhos anteriores (os excepcionais Amores Brutos e 21 Gramas e o mediano Babel). Ainda assim, mesmo que a ironia excessivamente óbvia do título aponte a feiúra daquelas pessoas, o fato é que os personagens do longa, embora profundamente falhos, não hesitam em reconhecer os próprios defeitos, manifestando até mesmo o desejo ocasional de fazer algum bem aos que os cercam – e não é à toa que Uxbal e seu irmão Tito (Fernández), bem como Hai, tentam justificar seus atos ao dizerem que “todos saem ganhando” com aquilo, incluindo os pobres imigrantes, que seriam mais explorados em seus países de origem. Estas desculpas, no entanto, soam imediatamente falsas até mesmo para aqueles que as proferem – e ao tentar economizar durante um esforço para fazer uma boa ação, Uxbal se encarrega de garantir que tudo se tornará ainda pior para aquelas pessoas.

Encarnando o protagonista como um homem constantemente cansado e fisicamente debilitado, Javier Bardem cria um personagem multidimensional que, mesmo carinhoso e preocupado com o bem-estar dos filhos, mostra-se igualmente explosivo e rigoroso – e o olhar de medo do pequeno Mateo dirigido ao pai durante um jantar é o sinal inequívoco de que a criança já se tornou capaz de reconhecer os menores indícios das mudanças de humor do sujeito. Caminhando sempre com os ombros encurvados e com os passos curtos que denunciam a natureza avançada de seu tipo específico de câncer (um cuidado admirável do ator), Uxbal mantém a expressão trancada durante toda a projeção em um olhar que oscila entre o medo da morte, a dor, a desesperança e a culpa – e assim, quando finalmente o vemos sorrir durante um almoço com os filhos e a esposa, somos surpreendidos pela simples idéia de que aquele homem pode ter sido feliz algum dia.

Infelizmente, se Bardem consegue evocar uma complexidade admirável, Iñárritu parece determinado, por outro lado, a estabelecer o universo de Biutiful como um mundo unidimensionalmente triste. Assim, a designer de produção Brigitte Broch e a diretora de arte Marina Pozanco concebem todos os ambientes do filme como exemplos absolutos de decadência e sujeira, desde o apartamento apertado, sujo e repleto de infiltrações de Uxbal até a fábrica de Hai, a casa de Tito e os barracões dos senegaleses, passando até mesmo pela pequena igreja vista no início da projeção e pelo lar de uma velha amiga do protagonista. Da mesma maneira, a fotografia do ótimo Rodrigo Prieto parece manter o sol sempre coberto por nuvens, criando uma paleta dessaturada, acinzentada e triste que só permite a entrada de uma luz mais quente e agradável em uma ou duas cenas enquanto Uxbal e a família vivem um raríssimo momento de alegria – e mesmo sorrindo para os filhos e a esposa, o sujeito parece demonstrar a certeza velada de que aquela felicidade já nasceu com os dias contados.

Porém, embora exagere no clima opressivo do longa, Iñárritu também tem sua parcela de acertos: é notável, por exemplo, como o diretor ressalta a proximidade de Uxbal com a filha Ana, e seu desespero por uma conexão emocional final com a garota, através do som de batidas de coração quando os dois se abraçam – e, de forma similar, é preciso reconhecer a inteligência da trilha do talentoso Gustavo Santaolalla ao introduzir acordes dissonantes, incômodos, para refletir a falta de rumo e a ambigüidade moral do protagonista. Além disso, o cineasta é brilhante ao retratar o dom mediúnico de Uxbal através de visões fora de foco que surgem em cantos do quadro e também ao adotar os espelhos (vide a segunda parte do texto sobre Cisne Negro) como símbolos do desacerto emocional e psicológico do personagem – e reparem como em vários momentos seus reflexos parecem se mover com atraso em relação a ele próprio ou como figuras diferentes parecem cruzar o campo nestas superfícies brilhantes (a mais importante sendo a do jovem que, visto no início da projeção em um cenário coberto de neve, pode ser vislumbrado rapidamente num reflexo enquanto Uxbal conversa com a amiga, também médium).

Ainda assim, não há como deixar de pensar que o elemento da mediunidade do personagem de Bardem tenha sido introduzido no roteiro como um mero artifício para justificar a estrutura da narrativa, que depende do conceito de espíritos e vida pós-morte na rima que amarra as pontas da projeção. Aliás, o mesmo pode ser dito com relação à subtrama envolvendo Hai e seu amante, que nada acrescenta à história embora ocupe um precioso tempo de tela – e é inegável que o filme só funciona de fato quando Javier Bardem se encontra em cena, chegando a protagonizar, aqui, um dos instantes mais belos de sua carreira ao evocar a emoção de seu personagem ao ver e tocar, pela primeira vez e já adulto e à beira da morte, o rosto do pai (mesmo que agora este seja apenas um corpo embalsamado).

Mas talvez o plano mais significativo do longa – e que o resume perfeitamente – seja aquele no qual Uxbal surge apreciando pela janela de seu apartamento uma das várias e imponentes edificações do arquiteto catalão Gaudí espalhadas por Barcelona e que, destacando-se no horizonte da cidade, surgem como tumores estranhos, mas certamente dotados de uma envolvente e triste beleza. Exatamente como o anti-herói desta irregular produção.

20 de Fevereiro de 2011

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