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A Viagem
(Cloud Atlas)
172 min. - 2012 (Alemanha, Estados Unidos)
Data de Estreia no Brasil: 11/01/2013
Distribuidora: Imagem Filmes
Seis histórias diferentes se conectam e vão desde o Pacífico Sul do séc. XIX até o futuro, depois do apocalipse nuclear.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Tom Tykwer, Andy e Lana Wachowski. Com: Tom Hanks (6 vezes), Halle Berry (6 vezes), Jim Broadbent (6 vezes), Hugo Weaving (6 vezes), Jim Sturgess (7 vezes), Doona Bae (6 vezes), Ben Whishaw (5 vezes), Keith David (4 vezes), James D’Arcy (3 vezes), Xun Zhou (4 vezes), David Gyasi (3 vezes), Brody Nicholas Lee (3 vezes), Susan Sarandon (4 vezes) e Hugh Grant (6 vezes).

Ele abriu a porta do quarto e a viu pela primeira vez. Um segundo depois, se beijavam sem que antes trocassem qualquer palavra e ele estava certo de que aquela era a mulher da sua vida. Três meses depois, ela havia voltado para os braços do ex. Um ano antes, outra mulher olhava pela janela de um quarto de hotel quando sentiu a mão do rapaz em seu ombro. Virou-se e beijaram-se, iniciando um romance intenso que resultaria em um momento piegas (mas não menos belo por isso) no qual ele pediria sua mão em casamento em um banco do zoológico municipal. Dez meses depois, eram estranhos. Vinte e um anos antes disso, um homem de quarenta anos morria em um acidente de carro, deixando esposa e dois filhos.

As breves histórias acima, incompletas, frágeis e comuns, representam incidentes desimportantes para a história da humanidade, mas essenciais na trajetória dos indivíduos envolvidos – e, acima de tudo, momentos recorrentes ao longo dos milênios. “Estou apenas tentando entender por que insistimos em cometer os mesmos erros de novo e de novo”, diz uma personagem de A Viagem em certo ponto da projeção – e a resposta, de certo modo, é simples: porque mantemos a tola esperança de que os resultados serão diferentes. E como vez por outra são, isto reacende a expectativa de que talvez o sejam também conosco.

Inspirado por um livro de David Mitchell (que não li), A Viagem extrai sua força deste tipo de observação ao contar seis histórias diferentes ambientadas em períodos que vão do século 19 ao 24 – e que não resumirei aqui por serem desimportantes isoladamente, ganhando força apenas ao analisadas em conjunto. Trazendo seu forte elenco desdobrando-se em vários papéis que ocasionalmente são comprometidos pela maquiagem artificial (Hugo Weaving, supostamente um coreano, parece mais representar uma raça alienígena de Star Trek), o filme cria ligações entre as várias tramas ao repetir temas, objetos específicos (uma pedra colorida) ou preocupações universais, estabelecendo uma mensagem óbvia, mas não menos tocante, sobre a condição humana e nossas pobres aspirações mortais, o que o torna mais ambicioso do que 99% das produções hollywoodianas contemporâneas e desculpa, em parte, seus óbvios tropeços.

Brincando com a própria estrutura ao trazer a narração (uma de muitas) de um editor que condena o uso constante de flashbacks e flashforwards, o projeto é hábil ao formatar uma estrutura que flui bem de uma trama para outra – algo beneficiado também pela excepcional montagem de Alexander Berner, que cria uma série de cortes elegantes através dos tempos: em um instante, por exemplo, alguém bate à porta da abadessa vivida por Susan Sarandon no século 24 e a atriz abre a porta séculos antes, como outra personagem, ao passo que, em outro momento, dois personagens cruzam uma ponte entre dois prédios na Seul futura enquanto um escravo percorre o mastro de um navio no século 19. Da mesma maneira, a utilização de vários narradores ao longo da projeção raramente soa intrusiva, oferecendo, em vez disso, uma multiplicidade de pontos de vista que complementa bem a temática do projeto.

Claro que, analisadas individualmente, as historinhas contadas pelos três diretores soam muitas vezes tolas e descartáveis, mas a virtude de A Viagem reside justamente em encontrar a relevância necessária ao combiná-las em uma narrativa maior. Assim, se as escapadas de um grupo de velhinhos em 2012 representa uma bobagem, vê-las associadas à conspiração de uma empresa petrolífera na década de 70 e à distopia massacrante do século 22 traz uma nova luz a tudo ao estabelecer um padrão que nos apresenta a indivíduos lutando pela liberdade contra um sistema opressivo e cruel. Aliás, uma análise cuidadosa revelará também ligações mais íntimas entre as várias passagens, o que é admirável: o pastor Zachry (Hanks) segue os ensinamentos deixados pela “escrava” Sonmi (Bae, minha nova paixão), que assiste a um filme baseado nas desventuras do editor Timothy Cavendish (Broadbent), que lê um manuscrito que conta a história da jornalista Luisa Rey (Berry), que lê as cartas enviadas pelo compositor Robert Frobisher (Whishaw), que lê o livro escrito pelo abolicionista Adam Ewing (Sturgess) – uma escada de ligações que a narrativa (admiravelmente) não tenta tornar óbvia, obrigando o espectador a prestar atenção redobrada às tramas.

Dito isso, há elementos em A Viagem que acenam as mãos para o público, buscando atraí-lo para o Grande Tema que tenta desenvolver: há, por exemplo, a mancha na pele que liga os personagens de (em ordem cronológica) Jim Sturgees, Ben Whishaw, Halle Berry, Jim Broadbent, Doona Bae e Tom Hanks – mas o que esta significa? Seriam eles reencarnações da mesma alma? (Algo que a proeminência de Seul, que foneticamente lembra “soul” - ou alma - justificaria.) Ou a ideia por trás da produção seria defender nossa evolução como espécie ao longo do tempo? (Reparem como o personagem de Tom Hanks se torna cronologicamente uma pessoa melhor.) É difícil dizer exatamente o que os irmãos Wachowski e Tom Tykwer tinham em mente ao abraçar este projeto, embora fique claro que em todas as tramas há alguém determinado a deixar algum legado e que, por mais que evoluamos tecnologicamente, nossa natureza é essencialmente destrutiva (o que explica por que no futuro mais distante retornamos aos cavalos e às flechas, ainda que continuemos a lutar).

Não é uma mensagem única ou original, obviamente – e os três cineastas reconhecem seus predecessores ao fazerem referências a No Mundo de 2020 (quando um personagem grita “Soylent Green is people!”, antecipando uma revelação do terceiro ato) e a Fahrenheit 451 (a “profeta” de Doona Bae – suspiros – se chama Sonmi-451). Isto, porém, não diminui a força da obra, que também encontra espaço para estabelecer o Amor como força operante na evolução da humanidade.

Não que o Amor possa competir com o espírito destrutivo que move tantos de nossos irmãos – e não é à toa que dois amantes, separados por décadas, partem deste mundo com tiros na boca -, mas, ao final de A Viagem, sopra um leve otimismo de que talvez nossa dedicação apaixonada possa resultar em alguma diferença. Mesmo que precisemos morrer por isto.

E quem não morreria por um amor único e definitivo?

24 de Janeiro de 2013

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