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Os Suspeitos
(Prisoners)
153 min - Thriller - 2013 (Estados Unidos)
Um pai de família vai até as últimas consequências para encontrar o responsável pelo desaparecimento de sua filha e de uma amiga da menina. Quando suspeita que o detetive encarregado das buscas já desistiu de procurar pelo culpado, este pai desesperado começa a desconfiar de todas as pessoas ao seu redor. Fazendo sua própria investigação, ele encontra o principal suspeito e decide sequestrá-lo.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Denis Villeneuve. Com: Jake Gyllenhaal, Hugh Jackman, Terrence Howard, Paul Dano, Melissa Leo, Maria Bello, Viola Davis, Dylan Minnette, Wayne Duvall, David Dastmalchian.

A maior parte dos cineastas compreende a importância de se contar uma boa história, mas não são muitos os que percebem como criar uma atmosfera é igualmente importante – e ainda mais raros são aqueles que conseguem executar esta tarefa com sucesso. Assim, assistir a um filme como Os Suspeitos é um raro prazer cinéfilo, já que, além de criar um universo triste e angustiante, este novo trabalho do canadense Denis Villeneuve ainda traz uma trama complexa e construída com precisão de relojoeiro pelo roteirista Aaron Guzikowski.

Remetendo – em história e tom – a obras como Zodíaco, Seven, Memórias de um Assassino, Sobre Meninos e Lobos, A Promessa e O Silêncio do Lago (o original), Os Suspeitos faz jus a estes fabulosos companheiros ao acompanhar personagens atormentados pelo desaparecimento de duas garotinhas durante o feriado de Ação de Graças. Inicialmente certo de ter encontrado o responsável ao prender o jovem Alex Jones (Dano), o detetive Loki (Gyllenhaal) logo demonstra inquietação ao constatar que o rapaz tem o Q.I. de uma criança de dez anos de idade, sendo obrigado a libertá-lo por falta de provas. Esta decisão irrita o pai de uma das meninas, Keller Dover (Jackman), que, certo da culpa do suspeito, decide sequestrá-lo a fim de obrigá-lo a revelar o paradeiro das crianças.

Inexplicavelmente rebatizado como Os Suspeitos no Brasil apesar do perfeito título original (Prisioneiros), que remetia diretamente à situação de praticamente todos os personagens da narrativa, o longa acompanha criaturas constantemente sufocadas que se encontram aprisionadas de maneira literal (as garotas, Alex), psicológica (Keller) e/ou emocional (Loki). Acorrentados em seus infernos pessoais, estes indivíduos parecem perdidos em labirintos insolucionáveis – numa metáfora que eventualmente se apresenta também de forma literal, demonstrando o cuidado do roteirista na construção do simbolismo de sua história.

Privilegiado por contar com a fotografia do mestre Roger Deakins, o filme surge triste e melancólico desde o primeiro plano ao investir numa paleta que, mergulhada em tons de cinza e marrom, envolve os personagens num frio constante – e, em certo momento, Deakins e Villeneuve chegam ao ponto de fazer a transição de uma pancada de chuva para uma tempestade de neve numa mesma cena, marcando não só o deterioramento completo das relações entre os personagens de Jackman e Gyllenhaal (a mudança ocorre no momento em que o primeiro é observado pelo segundo), mas também do estado psicológico dos dois homens. Além disso, Deakins é hábil ao criar uma atmosfera sempre claustrofóbica, iniciando a estratégia no instante em que os pais das crianças percebem que estas desapareceram e são vistos numa sala que, até então aconchegante, subitamente parece espremê-los com seu teto baixo e suas paredes próximas umas das outras.

Contando com um elenco formidável que traz Maria Bello em estado quase catatônico, Viola Davis entregue a um silencioso desespero e Terrence Howard dividido entre o desejo de encontrar a filha e o dilema moral criado pelas ações do amigo, Os Suspeitos ganha força especialmente graças ao contraste entre suas duas performances centrais. Neste sentido, Hugh Jackman tem certa vantagem por poder viver o tipo mais explosivo, já que Keller é um homem atormentado por sua impotência diante do que ocorreu com a filha e que expõe sua estratégia de estar sempre preparado para qualquer incidente como um hábito ineficaz, já que, no momento mais crucial, ele nada pôde fazer. Tocante e assustador na mesma medida, o sujeito mal consegue sufocar suas explosões de raiva, embora imediatamente pareça se arrepender destas – e Jackman é competente ao deixar claro que Keller não extrai qualquer prazer sádico de suas ações, parecendo acreditar realmente ter a tortura como último recurso para salvar a filha.

No entanto, se a performance de Jackman é a que mais chama a atenção, eu não hesitaria em classificar aquela oferecida por Jake Gyllenhall como sendo a mais difícil e, consequentemente, intrigante. Se Keller expõe constantemente o que sente, o detetive Loki é um homem introspectivo que busca manter a postura profissional distanciada que a tarefa exige – e sua insistência em dizer que “está considerando todas as possibilidades” se apresenta como uma frase feita que nada significa (e que ele sabe que nada significa) usada apenas para apaziguar testemunhas e vítimas emocionalmente perturbadas. Tomado por pequenos tiques que, obrigando-o a piscar com frequência, indicam um imenso tumulto interno de forma minimalista, Loki é um homem que busca ser compreensivo e paciente mesmo diante da agressividade de Keller, mas que aos poucos permite que percebamos sua dificuldade crescente em manter sua frustração sob controle – e eu ficaria imensamente feliz caso o ator fosse indicado a prêmios importantes por sua composição disciplinada e reveladora neste filme.

Enquanto isso, Denis Villeneuve volta a demonstrar o controle narrativo exibido nos ótimos Incêndios e Politécnica ao manter o espectador sempre tenso através de seus quadros sempre evocativos – desde aquele que traz a personagem de Maria Bello deitada como se estivesse num caixão até aqueles que, levemente inclinados, indicam a instabilidade daquelas pessoas. Além disso, o cineasta compreende perfeitamente o conceito de suspense, criando expectativas claras e fortes no público apenas para adiar sua conclusão, como na bela sequência que traz uma corrida desesperada no trânsito, à noite e sob a chuva, até aquela que usa as luzes automáticas de uma pequena vizinhança para indicar o movimento de um suspeito. Além disso, a fotografia melancólica é complementada de forma perfeita pelo design de produção e pelos figurinos, que mantêm os tons marrons sempre em cena. Para completar, os montadores Joel Cox e Gary Roach usam os constantes fades não como transições preguiçosas (erro de tantos profissionais), mas como forma de introduzir elipses em momentos nos quais o filme parece prestes a se entregar a ações formulaicas e que o espectador é capaz de imaginar sozinho.

O que nos traz, finalmente, ao belíssimo roteiro de Aaron Guzikowski, que só não ganhará destaque em cerimônias de premiação caso seus colegas enlouqueçam (e sugiro que veja o filme primeiro para só então ler o restante desta análise, já que terei que mencionar alguns spoilers menores). Construindo uma trama complexa que depende de vários incidentes apresentados de forma aparentemente desconexa, mas que eventualmente se encaixam sem deixar um sequer sem explicação, Guzikowski é hábil ao sugerir elementos das personalidades de seus personagens através de detalhes rápidos, como uma breve tortura animal, um recorte de jornal revelando o suicídio do pai de Keller (que, perfeito do ponto de vista temático, era carcereiro) ou a menção do passado de Loki, criado em um orfanato. Além disso, o roteirista demonstra talento ímpar para introduzir pistas que, ao contrário do que ocorre em tantos longas, se estabelecem sem que chamem atenção excessiva sobre si mesmas (o apito vermelho, a menção ao apartamento abandonado dos Dover, o garoto desaparecido há tanto tempo, o desaparecimento do tio de Alex), o que torna as recompensas ainda mais satisfatórias.

Introduzindo também elementos temáticos que deixam clara a importância da devoção religiosa dos personagens desde o primeiro plano – algo fundamental se considerarmos a motivação por trás dos crimes -, Os Suspeitos ainda faz um contraponto entre a fé de Keller e suas ações, merecendo destaque o instante em que ele não consegue concluir o Pai-Nosso por reconhecer a própria hipocrisia ao quase recitar o “assim como perdoamos aqueles que nos têm ofendido” (e é fantástica, a decisão do compositor Jóhann Jóhannsson de incluir acordes de um órgão, remetendo à Igreja, no instante em que o sujeito é atirado em seu purgatório particular). Como se não bastasse, Guzikowski evita o erro de justificar a tortura, convertendo a descoberta de Keller numa ironia dramática final, já que, embora acabe descobrindo o que houve, sua constatação não desempenha papel algum no desfecho, já que cabe ao detetive Loki, com sua investigação meticulosa e o uso da razão, o papel de encontrar o criminoso.

Pecando apenas por não deixar o desfecho tão ambíguo quanto parece desejar, Os Suspeitos é um drama tocante, um suspense sufocante e um filme de detetive magnífico. Um dos melhores longas do ano, sem dúvida alguma.

17 de Outubro de 2013

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