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O Espião que Sabia Demais
(Tinker, Tailor, Soldier, Spy)
Thriller - 2012 (Reino Unido)
A trama se passa durante a Guerra Fria e gira em torno de um detetive-espião pertencente à patente mais alta do Serviço Secreto da Inteligência Britânica.
 

Crítica

por Pablo Villaça

Dirigido por Tomas Alfredson. Com: Gary Oldman, John Hurt, Colin Firth, Toby Jones, Mark Strong, David Dencik, Ciarán Hinds, Benedict Cumberbatch, Stephen Graham, Tom Hardy, Simon McBurney, Stuart Graham, Kathy Burke, Svetlana Khodchenkova.

O mundo de O Espião que Sabia Demais, baseado no livro de John le Carré, é um universo frio, nublado e marrom. Habitado por homens velhos e cansados cujas rugas profundas refletem as marcas de uma vida de tensão e segredos, ele escancara a espionagem internacional não como uma rotina de ação, perseguições e belas mulheres, mas como um jogo enervante de paciência envolvendo senhores de sobretudo em salas tomadas por fumaça e paranoia.

Escrito por Peter Straughan e Bridget O’Connor, o roteiro inicia sua complexa narrativa em Budapeste, quando o agente Jim Prideaux (Strong) segue as ordens do chefe do MI6, Control (Hurt), para tentar extrair informações vitais de um informante. O desastre resultante, no entanto, acaba levando ao afastamento de Control e de seu braço direito, George Smiley (Oldman), que são substituídos pelo grupo dominado por Percy Alleline (Jones), Bill Haydon (Firth), Roy Bland (Hinds) e Toby Esterhase (Dencik). Meses depois, porém, Smiley é convocado pelo governo para investigar secretamente a existência de um traidor no MI6 enquanto seus sucessores buscam convencer o ministro a apoiá-los em uma operação que poderá render informações vitais ao serviço secreto britânico sobre os planos russos.

Dominado por uma atmosfera de opressiva melancolia que converte o silêncio e o tom de voz baixo dos personagens em uma receita de constante tensão, o longa é comandado pelo sueco Tomas Alfredson (Deixa Ela Entrar) com uma disciplina severa – e já na cena inicial, quando entramos no apartamento repleto de sombras, fumaça e caixas de Control, percebemos ter sido convidados para visitar a rotina de indivíduos que há muito esqueceram até mesmo a definição do verbo “relaxar”. Aliás, o design de produção de Maria Djurkovic e os figurinos de Jacqueline Durran adotam uma austeridade absoluta não só em sua paleta entediante, mas também na praticidade de cenários e roupas, que abandonam qualquer estilo ou personalidade em prol da mais completa funcionalidade – e, assim, quando vemos assistentes manipulando papéis em uma bancada, não ficamos surpresos ao perceber que o centro desta é, na realidade, um vão que permite a observação do andar inferior. Da mesma maneira, o centro de comando do MI6 nada mais é do que uma mesa em uma pequena sala com paredes à prova de som, quase como uma cabine de submarino em seu necessário isolamento.

Igualmente importante, contudo, é reparar como estes elementos se associam de forma orgânica à recriação de época: ambientado no início da década de 70, o filme não oferece aos seus espiões uma tecnologia das mais avançadas – o que, associado ao fato de que o MI6 é essencialmente um órgão do governo (com toda a burocracia que isto implica), resulta em detalhes reveladores como a frase “Não tire da tomada!” escrita na parede, à caneta, ao lado de um equipamento. De forma similar, não é à toa que aqueles homens dividem suas tarefas de espionagem com outras meramente políticas, como a requisição de autorizações e verbas, como se tivessem constantemente que buscar recursos que permitam a continuidade de seus jogos particulares.

Pois o fato é que, em essência, toda aquela rede de espionagem e contraespionagem se resume a um jogo criado, desenvolvido e mantido para justificar a existência da própria comunidade, como uma espécie de profecia auto realizável – e se “Karla”, o enigmático chefe da KGB, é visto como um cérebro sem rosto, um vilão das sombras, é porque sua identidade importa menos do que suas estratégias e seus planos. Assim, qualquer um que assista a O Espião que Sabia Demais concentrando-se na revelação de seus “mistérios” terá falhado em perceber o ponto central da narrativa, que se apresenta não só como um estudo de personagens, mas também de um estilo de vida no qual as relações interpessoais só podem ser construídas a partir da desconfiança mútua – o que, associada à clássica fleuma britânica, nos apresenta a seres que enxergam até mesmo a própria sexualidade como um inconveniente ou uma ferramenta profissional, não como algo que possa lhes render alívio ou prazer.

Neste aspecto, a maior das ironias reside, claro, no próprio nome do protagonista, que é tão sorridente quanto um paciente de câncer em estado terminal. Condicionado a ocultar suas reações ao longo de décadas, Smiley é vivido por Gary Oldman como um homem acostumado a seguir as ordens de seu velho superior, Control – e não é à toa que mal parece menear a cabeça ao ser surpreendido pela notícia de que também deixará o MI6 ao lado deste. Isto, porém, não significa que o sujeito não seja extremamente competente – e seus modos secos e contidos mostram-se um disfarce perfeito para sua eficiência (e reparem, por exemplo, a reveladora cena em que Smiley encontra-se no carro com seus subordinados e uma mosca insiste em perturbar os homens: enquanto os demais buscam espantá-la, Smiley simplesmente aguarda o melhor momento para abrir calmamente a janela, levando-a a sair sem esforços ou violência desnecessária, o que resume perfeitamente sua abordagem profissional).

Sem jamais elevar a voz ou demonstrar descontrole, o personagem é vivido por Oldman com uma introspecção atípica em um ator acostumado a explosões e gestos grandiosos, mas que, em sua composição inteligente, estabelece o velho espião como um homem cujas memórias e experiências representam um peso constante sobre seus ombros – e a cena na qual rememora um encontro com “Karla” é perfeita pelo tom exausto e admirado empregado pelo intérprete. Além disso, há, na performance de Oldman, uma angústia subjacente e constante que reflete a solidão que, embora necessária (e inevitável) em sua linha de trabalho, claramente o incomoda – e é fantástico que Tomas Alfredson jamais permita que vejamos bem a esposa do personagem, transformando-a, assim, em um ideal inalcançável de uma vida familiar tranquila e feliz.

Montado com inteligência por Dino Jonsäter, que cria uma estrutura intrigante e fluida capaz de nos oferecer rápidos vislumbres de um romantismo passado na ação daqueles velhos espiões (ou, no mínimo, de uma decadência burguesa divertida – como ilustrada na festa de Natal), O Espião que Sabia Demais talvez seja excessivamente frio e até mesmo contemplativo em sua abordagem narrativa (e as teleobjetivas usadas por Alfredson para observar os personagens à distância são outro toque de mestre do cineasta e de seu diretor de fotografia), mas o fato é que, sem esta frieza e este ritmo pausado e estudado, o filme não seria tão eficiente e admirável.

E o melhor: agora sabemos o que teria acontecido caso Bergman houvesse dirigido um exemplar da franquia Missão: Impossível.

10 de Janeiro de 2012

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