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CIDADE DE DEUS 10 anos: 10 perguntas para Fernando Meirelles
17/04/12 - 11h37
por Redação Cinema em Cena

 Divulgação

No próximo dia 18 de maio, completam-se dez anos da exibição de Cidade de Deus no Festival de Cannes. Embora tenha integrado a seleção oficial de 2002, o filme dirigido por Fernando Meirelles participou da mostra não-competitiva – o que não foi problema algum para que o longa fosse bastante elogiado. Aquele era apenas o primeiro passo para que a adaptação do livro de Paulo Lins se tornasse um marco do cinema brasileiro e viesse a ser consagrado em território nacional, onde entrou em cartaz em 30 de agosto daquele ano, e internacional, sendo indicado a quatro Oscars em 2004 (Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem).

As comemorações pelo 10º aniversário contarão com o lançamento do documentário Cidade de Deus - Dez Anos Depois, com direção de Cavi Borges e Luciano Vidigal, e também da revista em quadrinhos baseada no filme, com 220 páginas, que chegará às bancas e livrarias em agosto.

Nesta entrevista exclusiva concedida ao Cinema em Cena, Meirelles reflete sobre as influências de Cidade de Deus sobre o cinema nacional e internacional e as críticas recebidas na época do lançamento. O cineasta também revela o que mudaria no filme, se tivesse a oportunidade, e explica por que o longa ainda não foi lançado em Blu-ray no Brasil, apesar de já existir nesse formato em diversos países. Ele ainda fala um pouco dos rumos que a carreira tomou nesses dez anos e antecipa seus próximos projetos.

Alguns autores, como o Luiz Zanin Oricchio, por exemplo, consideram que o chamado Cinema da Retomada teve fim com o Cidade de Deus, que funcionaria como um divisor de águas. Houve realmente essa intenção desde o início, de sacudir a cena e fazer algo diferente dos filmes brasileiros de mais sucesso até então (Carlota Joaquina, O Quatrilho, Central do Brasil etc...)?

Definitivamente não houve esta intenção. Estava mesmo focado em contar aquela história da maneira que eu sabia. Nunca imaginei que o filme seria tão bem aceito, foi algo que saiu do planejado, um acidente, digamos.

E, hoje, o que você percebe que esse cinema nacional pós-Retomada, ou pós-Cidade de Deus, ainda guarda do seu filme?

Há de fato filmes que caminharam na mesma direção, mas não por eu ter aberto um caminho novo, mas por ter tido a sorte de ter rodado meu filme antes dos outros que vieram. Os temas das favelas, tráfico e exclusão urbana estavam quicando na área. Alguém iria dar um primeiro chute mais cedo ou mais tarde. 

Logo após o lançamento de Cidade de Deus, surgiram críticas à estética que você e sua equipe utilizaram, como se aquela história, por ser baseada em uma realidade muito próxima da que vivemos, não pudesse ser contada de uma forma comercialmente estilizada, digamos. Dez anos depois, como você encara essa crítica?

Aquelas críticas, lidas hoje, parecem muito anacrônicas, como ler os defensores da MPB quando Caetano começou a colocar guitarra em sua música. Algumas delas diziam que o filme seria esquecido em dois anos. Não aconteceu. Olha nós falando do filme aqui, dez anos depois.

Mesmo após Tropa de Elite, Cidade de Deus ainda se mantém como o filme brasileiro de maior sucesso no exterior, mesmo tendo uma temática de forte característica nacional. O que levou, e ainda leva, a identificação desse público estrangeiro com o filme?

Creio que além de mostrar um universo até então desconhecido, que me foi apresentado pelo romance do Paulo Lins, a linguagem usada no filme é também muito responsável por isso. A mesma linguagem tão criticada por alguns na época do lançamento. O roteiro do Bráulio Mantovani é inteligente, mas acessível, a fotografia do César (Charlone) é realista, mas muito cúmplice na narração da história, a montagem anda no ritmo do pensamento, a música pulsa e, finalmente, o frescor do elenco é imensamente atrativo. Tudo contribui para uma experiência cinematográfica rica. Meu grande acerto foi a escolha da equipe e elenco. 

Você reconhece Cidade de Deus como influência e referência de outros filmes que foram feitos posteriormente fora do país? A sequência da favela de Quem Quer Ser Um Milionário, do Danny Boyle, por exemplo?

A imprensa internacional fez muito essa ligação, mas o Danny Boyle disse que não há nenhuma relação entre o seu filme e Cidade de Deus. Se ele disse, está dito. 

DivulgaçãoEssa adoração ao filme no exterior já fez com que o Blu-ray de Cidade de Deus fosse lançado em vários países. Mas até hoje, no Brasil, o filme só existe em DVD, e em formato de tela letterbox, que não é exibido da forma correta numa TV widescreen, modelo mais popular atualmente. Qual o motivo de o mercado de homevideo nacional não dar ao filme (e a outros títulos nacionais também) o mesmo tratamento  que se vê no exterior?

O filme não tem dono no Brasil. Os direitos aqui são da Miramax, que praticamente não existe mais. O responsável por um lançamento de Cidade de Deus em Blu-ray aqui seria algum funcionário da Disney que mora em Los Angeles e tem mais coisa com que se preocupar do que relançar um filme brasileiro rodado há 12 anos. Pessoalmente, acho bom que o filme esteja meio sumido das prateleiras. Em 15 anos os direitos voltam para mim e, então, eu relançarei em algum formato que estiver na moda em 2027. 

Você tem o costume de rever seus próprios filmes? Se, sim, revisitou Cidade de Deus quantas vezes nesses últimos dez anos? O que você mais gosta no filme?

Nunca mais assisti a Cidade de Deus, assim como nunca mais revi os outros filmes que fiz. Talvez daqui há uns 25 anos eu resolva dar uma geral na minha vida e reveja tudo. Por enquanto tenho olhado mais para frente do que para trás.

Agora, o inverso: se você pudesse voltar no tempo, você mudaria alguma coisa que você não gosta no filme?

Sim. Talvez por isso eu não reveja. Acho que o filme às vezes é frenético demais. Tem momentos que se tivéssemos deixado respirar um pouco teria ficado melhor. Também sou muito frustrado com toda a sequência onde o Buscapé tenta assaltar um ônibus, depois a padaria e finalmente o carro do paulista. Na minha cabeça, aquela deveria ser uma sequência hilária, para as pessoas desopilarem o fígado e caírem da cadeira de tanto rir, mas passou longe disso. Comédia é muito complicado. Acho que os atores não tinham este tempo de comédia e eu não soube trazer isso. Bem frustrante. A sequência é fofinha, mas não hilária. 

Douglas Silva e Darlan Cunha em CIDADE DOS HOMENS - DivulgaçãoVocê ainda mantém contato com os atores principais, como o Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino, Phellipe Haagensen e mesmo os mais novos, Douglas Silva e Darlan Cunha? Como foi a relação de vocês após o sucesso todo conquistado com o filme?

Mantenho contato com alguns deles. Com a ajuda da Katia Lund foi criada uma ONG no Rio chamada Cinema Nosso, que é dirigida hoje pelo Luís Nascimento, ex-ator do filme. Ainda há outros ex-atores ali que dão aulas e formam garotos em cinema, animação etc. Apoio esta ONG. Mantive contato muito próximo com o Douglas Silva e o Darlan Cunha enquanto rodávamos Cidade dos Homens para TV, a ponto do Douglas ter conta conjunta comigo para eu controlar seus gastos. Fiz reunião com a diretora das escolas por onde o Douglas passou, vi os dois crescendo de perto. Fui padrinho de casamento do Douglas. A Regina Casé os adotou agora.

Cidade de Deus abriu as portas para a sua carreira no exterior e, desde então, você não dirigiu mais nenhum filme em língua portuguesa (à exceção de Som e Fúria, que foi série primeiro e depois foi transformado em filme). Pensa em voltar? O que vem a seguir para o Fernando Meirelles?

Rodo uma adaptação do livro Nemesis em setembro, uma biografia do multimilionário Aristóteles Onassis, e depois disso quero fazer um filme no Brasil,em português. Está na hora.

Entrevista realizada por Renato Silveira, Larissa Padron e Tullio Dias.

Confira fotos, trailers e leia a crítica de Cidade de Deus no Cinema em Cena - clique aqui.

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