O jornalista Clive Thompson, que conheci durante o seminário de crítica do qual participei em Nova York, publicou um artigo fascinante no New York Times de sexta-feira: determinada a melhorar o algoritmo capaz de indicar filmes para seus clientes a partir das cotações dadas por este para vários longas, a empresa Netflix ofereceu, em 2006, um prêmio de um milhão de dólares para quem conseguisse aumentar o índice de acertos de seu programa Cinematch em 10%. E até hoje ninguém venceu a disputa (o primeiro lugar conseguiu um avanço de 9,44%, empacando aí).
Depois de entrevistar vários dos principais concorrentes, Thompson constatou, por exemplo, que são filmes como Napoleão Dinamite, Encontros e Desencontros, A Vida Aquática com Steve Zissou e I Heart Huckabees que complicam tanto a tarefa - e um dos participantes calcula que encontrar uma forma de prever a reação dos clientes a Napoleão Dinamite, por exemplo, seria o suficiente para levá-lo a ficar 15% mais próximo da meta estabelecida pela Netflix.
Em contrapartida, os algoritmos já desenvolvidos pelos participantes se tornaram tão complexos que conseguiram estabelecer conexões entre filmes que jamais poderíamos prever. Sim, é fácil compreender por que alguém que adorou Sintonia de Amor teria grandes chances de gostar de Uma Linda Mulher e bem menos possibilidadede amar Jornada nas Estrelas. Porém, que relação poderia existir entre a comédia romântica Tinha que Ser Você (com Natasha Henstridge), um vídeo da edição de 2004 do campeonato de luta-livre, o Joana D'Arc de Dreyer e a adaptação para a tevê do livro "Bleak House", de Dickens? Nem mesmo os programadores que desenvolveram o código sabem responder, mas esta combinação surpreendente tornou o algoritmo criado por eles mais eficiente do que o Cinematch em 4%.
É aí que Clive Thompson escreveu aquela que, para mim, é a frase mais interessante de seu ótimo artigo: "A máquina pode ter compreendido algo sobre (os humanos) que nós mesmos não conseguimos compreender".
Mas, ao mesmo tempo, há algum mistério sobre os humanos que as máquinas jamais irão decifrar. Que o diga Napoleão Dinamite.
Vale a leitura.