Abandonado este blog não está e nunca será. O que pode acontecer, de quando em quando, é uma ausência temporária que jamais durará mais do que três ou quatro dias - mas esse tipo de "férias", como vocês sabem, é raro e continuará sendo. Nos últimos dias, aliás, não atualizei o blog por pura falta de tempo, já que, além das obrigações administrativas relacionadas ao Cinema em Cena e ao InFilm, ainda tive que me submeter a um exame de controle da retocolite - algo que envolve até mesmo sedação (que adoro, diga-se de passagem; caso tivesse me formado em medicina, jamais poderia ser anestesista, pois creio que engrossaria as estatísticas dos médicos viciados). A boa notícia é que, pela primeira vez desde que descobri a doença, ela está totalmente sob controle - não há uma única úlcera em atividade.
Dito isso, aproveitei as poucas horas vagas que tive nesses dias para ler "O Clube do Filme", que muitas pessoas me recomendaram nos últimos tempos - tanto por email quanto pelo twitter.
Infelizmente, não gostei nada do trabalho de David Gilmour.
Ex-apresentador de um programa sobre cinema, Gilmour relata, no livro, uma fase em que se encontrava em dificuldades financeiras após o fim do programa e que coincidiu com os graves problemas que seu filho Jesse passou a enfrentar na escola. Sem saber como estimular o rapaz a estudar, David toma a decisão de permitir que ele abandone os estudos desde que concorde em assistir a três filmes por semana ao seu lado. A idéia é que o Cinema oferecerá a Jesse a educação e a visão de mundo que a escola não conseguiu levá-lo a absorver.
Interessante? Sim. Possível? Em parte - eu realmente acredito que o Cinema pode ser uma fonte importante de aprendizado. Responsável? De forma alguma; há muitas coisas que só podemos aprender na escola - e não me refiro às disciplinas, mas à importância das regras e ao convívio social.
E este é um problema grave em O Clube do Filme. Como pai, não pude deixar de sentir que David, mais preocupado em ser um pai "moderno" e "amigo" (algo que, ironicamente, ele reconhece), se esquece de um conceito importante no que diz respeito à paternidade: o tough love - os momentos em que precisamos ser rígidos justamente por amarmos nossos filhos. Assim, no intuito de se mostrar "aberto", ele divide cigarros com seu filho de 16 anos enquanto ensina o garoto a saborear vinho - e não é à toa que logo Jesse se torna um fumante inveterado e mergulha em repetidas bebedeiras. Porém, em vez de se preocupar com o fato de estar incentivando o filho a poluir o corpo com cancerígenos e a encontrar a fuga para os problemas no álcool, David se limita a repetir os velhos clichês do pai preocupado: "Nada de drogas! Se usar drogas, nosso acordo está rompido!".
Mas é claro que um adolescente sem limites como Jesse logo passa a usar cocaína - e o que David faz, então? Honra sua palavra de tornar-se mais duro com o filho por este ter quebrado o acordo? Não. Passa a mão na cabeça do moleque e tenta argumentar com o rapaz. Resultado: eventualmente Jesse vai parar no hospital após sofrer uma taquicardia resultante do consumo excessivo de drogas - e nem assim seu pai decide revisar o contrato feito com o filho. Ora, se os adultos não sentem necessidade de honrar o que dizem, por que um adolescente deveria fazê-lo?
Além disso, por mais que David insista em pintar o filho como um gênio incompreendido, um rebelde que, por ser excessivamente sensível e inteligente, acaba sendo desestimulado por um sistema de ensino convencional, o fato é que a própria narrativa de Gilmour revela Jesse como um garoto medíocre e emocionalmente imaturo (até mesmo para um garoto de 16 anos). Em certo momento, por exemplo, ele pergunta para o pai se "a América do Sul é um país ou um continente" - uma informação que, convenhamos, não é preciso freqüentar uma aula de geografia para aprender, o que indica uma imensa preguiça intelectual por parte do rapaz.
Como se não bastasse, a âncora narrativa do livro - o tal clube do filme - não desempenha papel importante algum na história. Sim, aqui e ali David apresenta (de maneira sempre desorganizada e aleatória) algum longa para o filho, introduzindo a projeção com algumas trivialidades sobre a produção, mas jamais sentimos que estas experiências realmente trazem algum propósito educativo maior. A impressão é apenas a de que David quer uma oportunidade de impressionar o filho (e o leitor) com seus conhecimentos cinematográficos - e se no processo ele conseguir transformar Jesse em um cinéfilo, ótimo. Ainda assim, quando ele faz um "teste" com o rapaz no final do livro e o garoto demonstra conhecer Fassbinder, por exemplo, não conseguimos encontrar, no próprio livro, a origem de tal familiaridade com o cineasta alemão (e muito menos entendemos como isso substitui uma educação "formal").
Finalmente, o mais decepcionante em O Clube do Filme é perceber como a visão do próprio David Gilmour é limitada no que diz respeito ao Cinema. Sim, ele parece conhecer o bê-a-bá da Arte e seus nomes e correntes principais, mas de maneira puramente burocrática, acadêmica (no sentido pejorativo da palavra), sem jamais oferecer qualquer interpretação mais complexa ou mesmo menos clichê sobre aquilo que está comentando. Aliás, isto explica por que David se impressiona tão facilmente com os "talentos" do filho, já que também se mostra claramente impressionado com a própria mediocridade.
Embora tenha sido escrito com a idéia de relatar uma experiência bem sucedida e edificante, O Clube do Filme me levou a finalizar a leitura com um único pensamento: "Que família triste".
O Clube do Filme (The Film Club)
Editora Intrínseca, 2009
239 páginas