Mostra de São Paulo 2009 - Dia 06

by Pablo 31. outubro 2009 12:48

(Abraço ao velho leitor Renato Gaiarsa, que finalmente conheci pessoalmente depois de tantos anos lendo seu nome entre os comentaristas mais freqüentes do Cinema em Cena e deste blog.)

E...

16)      Zero (Idem, Polônia, 2009). Dirigido por Pawel Borowski. Com: Robert Wieckiewicz, Marian Dziedziel, Agnieszka Podsiadlik, Andrzej Mastalerz.

Mais um filme que usa a estrutura de múltiplas narrativas paralelas para apresentar o espectador a uma imensa galeria de personagens cujas vidas se tocam direta ou indiretamente em vários momentos. A mensagem é sempre a mesma: somos criaturas solitárias, tristes, egoístas e cegos para o próximo. Vivemos num planeta gigantesco, mas afetamos uns aos outros constantemente, mesmo que não percebamos. Blábláblá, chororô, epifanias, final em aberto.

Isto não quer dizer, é claro, que todos os longas que adotam esse tipo de narrativa ou que buscam desenvolver temas similares estão fadados ao fracasso: obras como Nove Vidas, 21 Gramas, Magnólia, Nashville, Grande Hotel, entre outras, conseguiram fazer isso com competência e de maneira interessante, mas, aqui, o diretor polonês Pawel Borowski carrega a mão em sua insistência de estabelecer as ligações, tênues ou não, entre todas aquelas pessoas – ao mesmo tempo em que nos tortura com uma trilha que contém apenas dois temas repetitivos: um melancólico (que dura quase todo o filme) e outro mais pesado (para cenas tensas e/ou dramáticas).

Mas, esforços à parte, o longa acaba soando tão vazio quanto seus personagens. (2 estrelas em 5)

  

17)      O Apedrejamento de Soraya M. (The Stoning of Soraya M, EUA, 2008). Dirigido por Cyrus Nowrasteh. Com: Shoreh Aghdashloo, Mozhan Marnò, Jim Caviezel, Navid Negahban, Ali Pourtash, David Diaan, Parviz Sayyad, Vachik Mangassarian.

Com um título como este e o crédito de “efeitos de maquiagem” surgindo já no início da projeção, é fácil imaginar que O Apedrejamento de Soraya M. não poupará munições ao enfocar o evento que originou o livro de Freidoune Sahebjam e que aqui foi adaptado pelo casal Betsy Giffen Nowrasteh e Cyrus Nowrasteh, com este último assumindo também a direção – e, de fato, não seria absurdo reintitular esta produção como A Paixão de Soraya M.

Trazendo Jim Caviezel com um pronunciado sotaque e um ainda mais pronunciado nariz, o filme recria os eventos que levaram ao julgamento e à execução pública da personagem-título, injustamente acusada de adultério pelo marido. Empregando com eficácia as locações, que refletem a aridez daquele mundo através da miserável vila que parece escavada nas pedras, o longa é hábil ao retratar como interpretações maldosas do Corão são utilizadas por mulás e outros indivíduos (invariavelmente homens) em benefício próprio para cimentar seu poder ou mesmo ganhos financeiros. Relegando as mulheres a um papel de subserviência absoluta, esta leitura do livro sagrado dos muçulmanos estimula o machismo desde a infância – e não é à toa que Soraya demonstra verdadeiro medo até diante dos próprios filhos do sexo masculino (infelizmente, com razão).

Adotando um estilo melodramático que freqüentemente dilui o impacto que vários momentos poderiam ter justamente ao carregar nas tintas, o filme peca também pela deselegância de sua montagem -  o que se torna claro especialmente nas cenas que envolvem simples planos e contraplanos e durante as quais os dois montadores praticamente esperam o início de cada fala para realizarem seus cortes. Da mesma forma, o diretor Cyrus Nowrasteh freqüentemente se entrega ao lugar-comum, como no terrível plano em que a câmera sobe num plongé enquanto a personagem de Aghdashloo olha para o céu com os braços abertos e na cena em que vemos a protagonista percorrendo campos verdes e iluminados com suas duas filhas, numa tentativa patética de amenizar um pouco o impacto de seu martírio e evitar que o público saia do cinema excessivamente deprimido (o mesmo, aliás, vale para a gag pavorosa – e ofensiva – que envolve saltimbancos chegando à vila no momento do julgamento de Soraya). Ainda assim, confesso ter apreciado o plano-detalhe que se concentra no olhar agonizante da moça em seus instantes finais.

Mas o grande equívoco de O Apedrejamento de Soraya M. reside, de fato, no maniqueísmo da trama: ao apresentar o marido da protagonista e o mulá da vila como dois grandes vilões, o filme praticamente anula a própria denúncia sobre os crimes cometidos em nome de interpretações equivocadas do Corão ao sugerir que a morte de Soraya M. tenha sido fruto das ações específicas daqueles dois indivíduos – que, para piorar, são encarnados por Navid Negahban e Ali Pourtash como caricaturas de vilania, levando o espectador a odiá-los, e não às circunstâncias que permitiram que aquilo ocorresse. De maneira similar, a partir do momento em que recebe a sentença de morte, Soraya passa a ser vivida por Mozhan Marnò como uma autêntica santa, enfraquecendo a tragédia humana ali contida.

E chegamos, enfim, à presença de Jim Caviezel no filme – uma das escalações de elenco mais mal-intencionadas que já vi: notório por encarnar ninguém menos do que o símbolo máximo do Cristianismo no sádico longa de Mel Gibson, ele aqui se torna o porta-voz da crítica ao Islamismo, ganhando a oportunidade até mesmo de encarar os algozes de Soraya e dizer: “Como puderam fazer isso?”, numa cena que prova que o cineasta Cyrus Nowrasteh é um tremendo preconceituoso ou um tapado colossal por não ter percebido a bagagem que Caviezel traria consigo para a narrativa.

Em qualquer um dos casos, o diretor merece um colossal puxão de orelha. (2 estrelas em 5)

 

18)      Morrer como um Homem (Idem, Portugal, 2009). Dirigido por João Pedro Rodrigues. Com: Fernando Santos, Alexander David, Gonçalo Ferreira de Almeida, Jenni La Rue, Chandra Malatitch.

Tônia é um travesti que, sucesso absoluto em uma boate de Lisboa, sofre pela instabilidade do jovem parceiro, o costureiro Rosário (David), que rouba seus pertences para comprar drogas. Pressionada pela competição oferecida por uma nova artista, Jenny (La Rue), Tônia (Santos) também deve lidar com a rejeição do filho Zé Maria (Malatitch), cuja própria insegurança sexual o leva a culpar o pai por sua infelicidade.

Embora soe como uma trama previsível e batida (e é, de fato), a narrativa de Morrer como um Homem ganha força graças ao tratamento visual oferecido pelo diretor João Pedro Rodrigues: já na cena inicial, por exemplo, o cineasta compara a força destrutiva do sexo e da morte num encontro clandestino que culmina em ambos – e, da mesma forma, é fascinante perceber como Tônia (que adotou este nome, acreditem ou não, por admirar nossa Tônia Carrero) é constantemente traída pelo próprio corpo não só por já ter nascido com o sexo errado, mas também por ter seus implantes de silicone rejeitados pelo organismo.

Por outro lado, Rodrigues revela uma auto-indulgência pavorosa em inúmeros planos que, intermináveis, parecem não exercer outra função a não ser a de provar como o diretor não teme alienar seu público – e por mais que tenha admirado o plano que, capturado sob filtro vermelho, traz vários personagens, absolutamente imóveis, escutando “Calvary”, de Baby Dee (“Take up your cross and follow / Wake up from your sleep / Wake up, wake up in sorrow / Wake up, wake up and weep”), o fato é que Morrer como um Homem traz vários outros interlúdios musicais que nem sempre conseguem provocar o impacto desejado pelo cineasta.

Ainda assim, é impossível não admirar a lógica de várias decisões narrativas da obra, como a de jamais mostrar a platéia de fãs de Tônia, guardando sua única apresentação pública para o belíssimo plano final, onde esta performance soa apropriada e comovente. É uma pena, portanto, que a sutileza não seja uma virtude presente na maior parte deste filme que, mesmo com seus momentos de brilhantismo, resulta tristemente irregular. (3 estrelas em 5)

 

19)      Esburacando (Man Tänker Sitt, Suécia, 2009). Dirigido por Henrik Hellström, Fredrik Wenzel. Com: Sebastian Eklund, Jörgen Svensson, Hannes Sandahl.

Outro exemplo de projeto que busca retratar a melancolia da condição humana ao seguir vários personagens, o sueco Esburacando se diferencia um pouco de seus primos ao adotar o ponto de vista de uma criança como guia da narrativa: passeando sem supervisão pelo imenso condomínio fechado no qual reside com sua mãe, o pequeno Sebastian (Eklund) raramente abre a boca em público e logo concluímos, ao observá-lo com um pouco mais de cuidado, que ele provavelmente sofre de algum grau de autismo. Ainda assim, é em sua vozinha frágil e infantil que surge a narração em off que abre, comenta e encerra o longa, o que, de certa forma, confere grande força ao que é dito.

Um dos poucos filmes que vi nesta edição da Mostra que sabem a diferença entre uma abordagem contemplativa e outra meramente entediante, Esburacando surge comovente sempre que se permite observar seus personagens sem julgá-los – e se inicialmente somos levados a atribuir mau-caratismo ao pai solteiro que troca a fralda do filho no chão sujo de um estacionamento ou uma personalidade deprimida a um faxineiro que aos poucos vem construindo sua casa, eventualmente notamos que todas aquelas pessoas parecem sofrer de alguma forma de autismo (e que este, na realidade, é um mero símbolo do isolamento auto-imposto no qual vivemos hoje em dia).

Usando os conflitos entre pais e filhos como algo recorrente em sua abordagem temática, o longa traz um elenco sólido em papéis que exigem um grau de concentração colossal. O destaque, aliás, fica por conta do pequeno Sebastian Eklund, que protagoniza um momento verdadeiramente mágico: ao mentir para a mãe, ele não consegue deixar de sorrir levemente – o que imediatamente o leva a comentar baixinho “Eu não gosto deste sorriso”. Improvisado ou não (para dizer ao certo, seria importante saber se o pequeno ator é realmente autista, mas, embora julgue que sim, não posso afirmar), a cena é soberba ao capturar um pequeno e verdadeiro instante de intimidade entre mãe e filho.

Com uma trilha profundamente evocativa que combina uma melodia lúdica com um coro gregoriano que confere um caráter religioso à sua investigação sobre o Homem, Esburacando, como tantos outros desta Mostra, eventualmente acaba pecando pela repetição, já que, sem confiar em seu público, parece acreditar que a única maneira de estabelecer seu tema é martelando-o incansavelmente na cabeça do espectador. (3 estrelas em 5)

 

20)      Backyard (Idem, México, 2009). Dirigido por Carlos Carrera. Com: Ana de La Reguera, Asur Zagada, Iván Cortes, Marco Pérez, Joaquín Cosio, Alejandro Calva, Amorita Rasgado, Enoc Leaño.

Embora representem um subgênero extremamente prolífico, os filmes que giram em torno de serial killers costumam adotar uma de poucas abordagens – em ordem de preferência: a) a metodologia particular do assassino; b) a personalidade do(s) herói(s); c) o processo investigativo em si. Raramente, portanto, estas obras se concentram naquela que é a figura que mais tem a perder na história: a vítima. E ainda mais raro é um longa que procura estudar a natureza do crime – normalmente cometido contra mulheres.

Pois Backyard é notável justamente por encarar seus cadáveres não como atrações mórbidas, mas como verdadeiros testemunhos de nosso fracasso como espécie: se muitos filmes tratariam as dezenas de corpos putrefatos como maneira de provocar um choque visual e de atestar a competência do supercriminoso, esta obra mexicana se esforça para estabelecer que cada uma daquelas mortes não apenas representa uma tragédia coletiva, mas individual. E o mais assustador: inspirado em fatos reais, o roteiro de Sabina Berman estabelece o crime de natureza sexual como uma verdadeira epidemia (ou pior: pandemia), usando como microcosmos a cidade Juárez, na fronteira com os Estados Unidos.

Começando com uma narração feita pelo radialista Peralta (Cosio), que funcionará como arauto e consciência da narrativa, BAckyard já traz um plano brilhante em seus minutos iniciais, quando, através de uma simples panorâmica, justifica o título ao apresentar Juárez como o quintal da rica El Paso, nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que estabelece as condições miseráveis da cidade mexicana. A escolha das locações, aliás, é um dos grandes méritos da produção, já que ajuda a estabelecer aquele universo sem que quase nada precise ser dito – e que diálogo poderia substituir a imagem da escadaria feita de pneus velhos num barranco de um bairro miserável ou as verdadeiras montanhas de borracha formadas por estepes descartados?

Focando os esforços da detetive Blanca (de la Reguera, excepcional) ao assumir a impossível missão de esclarecer as mortes e os desaparecimentos de dezenas (provavelmente centenas) de mulheres na cidade, o impecável roteiro de Berman divide sua narrativa em várias linhas paralelas: há o governador de Chihuahua, ansioso para evitar que os crimes sujem sua reputação como administrador e que se vê pressionado pelos empresários que investem no Estados; a imigrante Juana, que se muda para a casa da prima em Juárez a fim de trabalhar em uma fábrica local; a assistente social que, revoltada com os desparecimentos, tenta chamar a atenção da imprensa e das autoridades para o caso; e, finalmente, o já mencionado radialista da cidade – além, claro, de personagens secundários como o rapaz apaixonado por Juana, o incompetente parceiro da policial Blanca (e que é recompensado por sua estupidez apenas por ser homem), e, finalmente, o empresário vivido pelo sempre ótimo Jimmy Smits. A partir destas figuras, o diretor Carlos Carrera cria um painel ambicioso e admirável sobre o que significa ser mulher em certas partes do planeta mesmo nos dias de hoje: temer constantemente pela própria integridade física, moral e psicológica.

E não nos iludamos: por mais que tenhamos caminhado como Sociedade, ainda vivemos num mundo primordialmente machista: as mulheres recebem menos pra realizarem o mesmo trabalho que seus colegas do sexo masculino; são assediadas agressivamente nas ruas, no trabalho e na faculdade; e caso se atrevam a assumir a própria sexualidade, são tachadas de “puta” – como testemunhamos recentemente no caso dos universitários (repito: universitários) que lincharam moralmente uma colega que se atreveu a mostrar as coxas na faculdade. Além disso, a violência doméstica e sexual contra as mulheres mantém-se em índices alarmantes – e quando lemos algumas rápidas estatísticas ao final de Backyard, percebemos que ainda há muito a caminhar para que possamos ser realmente tão evoluídos quanto nos julgamos.

Mas talvez lugar algum seja pior, neste aspecto, que a Juárez que inspirou o filme – e na qual o assassinato de mulheres se tornou comum a ponto de parar de ganhar as manchetes dos jornais. Seguindo a teoria da “Janela Quebrada” de James Wilson e George Kelling, aliás, a situação se torna cada vez pior justamente por não ser atacada em suas raízes: a criação machista dos países latinos, a estrutura paternalista da família, a falta de punição para agressões domésticas e assim por diante.

Indicado oficial do México ao Oscar 2010, Backyard consegue provocar uma bela reflexão sobre o tema sem, com isso, soar excessivamente didático ou condescendente – e também sem se esquecer de funcionar, sim, como um thriller policial envolvente e bem construído. (5 estrelas em 5)

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Intervalo para um breve comentário sobre as mulheres

by Pablo 30. outubro 2009 01:57

Estamos no fim de 2009. Já se foi o tempo em que o mundo aceitava que as mulheres fossem tratadas como escravas dos homens em qualquer esfera imaginável: sexual, profissional, doméstica, etc. Elas conquistaram o direito de voto. Lutaram para que pudessem ser vistas como iguais, não como seres biológica, intelectual e moralmente inferiores aos homens - estes, sim, criaturas notavelmente atrasadas. Dominaram o mercado de trabalho. Batalharam pelo direito de não serem hostilizadas ou consideradas putas apenas porque se liberaram sexualmente. A pílula, antes tabu, hoje é distribuída pelos governos mais esclarecidos. E se antes o lugar da mulher era "na cozinha" e cuidando da casa e dos filhos enquanto esperavam o maridinho chegar em casa para o jantar, hoje elas estão nas faculdades, tornando-se profissionais tão ou mais capacitadas do que aqueles que antes as dominavam e controlavam à base de força e preconceito.

Lindo.

Claro que elas ainda recebem, em média, bem menos do que seus colegas do sexo masculino para desempenharem as mesmas funções. Continuam a ser vítimas de estupro e violência doméstica em todo o mundo. Ainda estão longe de conseguirem representatividade nos governos da maior parte dos países.

Ah, mas estamos evoluindo, certo? As novas gerações concluirão o trabalho, esclarecidas como são, não é mesmo?

Oh, sim, evidente. Desde que uma mulher não se atreva a usar uma minissaia em uma faculdade, pois então será imediatamente seguida por uma turba de universitários aos gritos de "Puta! Puta!" até ser retirada do prédio sob escolta policial, num linchamento moral que remete à Inquisição. Os mesmos estudantes que, numa discussão de bar, certamente diriam que a prática do apedrejamento de mulheres "desonradas" em certos vilarejos muçulmanos é um "absurdo", "coisa de bárbaros", não hesitaram em atirar pedras verbais e morais numa colega que se atreveu a mostrar as coxas. Como ela pôde fazer isso? Conspurcar um ambiente sacrossanto com suas formas femininas, que todos sabem ser pecaminosas por natureza? Destruam-na! Humilhem-na! Impeçam-na de retornar ao convívio dos Bons! Se matá-la é impossível, assassinemos seu espírito! E se alguém questionar esta atitude, afirme que ela também "fez outras coisas", além de usar a minissaia - afinal, isto justificaria tudo, certo?

Não sei o que dizer, sinceramente. A cada vez que sinto-me ingenuamente tentado a acreditar que o mundo está melhorando, mesmo que a passos de tartaruga manca, sou trazido de volta à realidade. Um dublador que se recusa a emprestar sua voz a um ator num filme sobre homossexuais. Um pastor evangélico que prega, para um grupo de crianças, que a homossexualidade é uma doença. Uma jovem verbalmente queimada em praça pública por usar uma saia 10 centímetros menor do que o esperado.

Chega a doer, esta descrença na Humanidade. Mas se os nossos jovens agem assim, que direito tenho de sonhar num mundo mais iluminado para meus filhos?

Para encerrar, sei que este blog tem um número de acessos imenso. Tenho orgulho disso. E sei que conquistei esse "leitorado" não apenas em função do que escrevo, mas por respeitar quem me lê.

Mas há momentos para exceções e há aqueles que não merecem respeito algum.

Estatisticamente falando, é impossível que não haja um único leitor que estude na faculdade de São Bernardo do Campo  (Uniban) na qual o incidente (eufemismo) ocorreu. E provavelmente há muitos que conhecem alguém que lá estude. Pois para aqueles que participaram daquela "mobilização", digo sem reservas: vocês são uns imbecis. Uns Neandertais. Um desperdício de oxigênio. Aliás, mais do que isso: são desperdício de pele. Todos que tomaram parte daquele ato vergonhoso deveriam ser esterilizados para que seus genes defeituosos não fossem transmitidos para as novas gerações como uma doença capaz de arruinar a Humanidade. Vocês desafiam o conceito de Evolução. 

E se você é mulher e se juntou à turba... Deus. Ainda bem que Rosa Luxemburgo, Simone de Beauvoir e Betty Friedan estão mortas e não tiveram que testemunhar seu legado sendo usado para que companheiras de sexo agissem com a mesma mentalidade símia dos machos que por tanto tempo aprisionaram seus corpos e espíritos.

(P.S.: Se no intuito de mostrar que você é esclarecido e evoluído resolveu defender a jovem chamando aqueles que a xingaram de "viados"... má notícia: você também é um imbecil.)

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cotidiano

Mostra de São Paulo 2009 - Dia 05

by Pablo 29. outubro 2009 04:55
(Abraços para o leitor Rodrigo, que me cumprimentou no Arteplex, especialmente em função de sua clara timidez - o que tornou o fato de ter se aproximado ainda mais gentil. Abraço também para a estudante de Cinema Tainá, cuja tatuagem de película em torno do braço esquerdo já vinha me encantando na Mostra há alguns anos. Aproveito também para enviar "anti-abraços" para os dois babacas que roubaram meu lugar na sessão de Patrik, Idade 1,5, no Arteplex. Como eu estava na sessão anterior, fiquei na sala - como várias outras pessoas - e deixei minha pasta na poltrona enquanto ia ao banheiro. Ao retornar, os imbecis haviam colocado a pasta no chão e ocupado o assento. Quando questionei a atitude, responderam: "Mochila não vê filme.". Como me conheço e prometi ao Luca que seria um "papai que não briga", respirei fundo ao perceber que estava perdendo o controle, deixei o assunto pra lá e procurei outro lugar. Ao final do filme, um senhor se aproximou de mim e disse: "Eu falei para eles que o lugar estava ocupado, mas eles não ligaram. Você fez bem em ignorar; eles são uns idiotas". Agradeci a manifestação, mas, confesso, ainda não me tornei maduro o bastante para simplesmente ignorar essas coisas. Então, repito: anti-abraço para os dois imbecis, babacas, filhos-de-uma-mãe-promíscua-eleitora-do-Serra que roubaram meu lugar.)
 
Feito o desabafo...
 

12)      O Inferno de Clouzot (L’enfer d’Henri-Georges Clouzot, França, 2009). Dirigido por Serge Bromberg e Ruxandra Mendrea. Com: Catherine Allégret, Romy Schneider, Bérénice Bejo, Jacques Gamblin.

Cineasta incrivelmente metódico que planejava cada um de seus quadros com a precisão de um relojoeiro, Henri-Georges Clouzot era visto quase como um adversário, um “anti-exemplo”, para os realizadores que encabeçavam a nouvelle vague – e embora Godard, Truffaut & Cia. tenham realizado sua parcela de obras-primas, o fato é que Clouzot era um gênio justamente por se dedicar com tamanho cuidado aos seus projetos.  Ainda assim, em 1964, o diretor francês acabou sendo derrubado justamente por sua natureza obsessiva de encarar o trabalho.

Determinado a repetir a proeza de Fellini 8 ½ e “reinventar o Cinema”, Clouzot escreveu um roteiro que girava em torno de um casal (vivido por Serge Reggiani e Romy Schneider) que entrava em profunda crise graças aos ciúmes doentios do marido por sua maravilhosa esposa. A idéia de Clouzot era fazer com que L’enfer (O Inferno) se destacasse justamente ao dar vida aos delírios enciumados de Reggiani: enquanto as cenas “normais” seriam rodadas em preto-e-branco, as fantasias do sujeito surgiriam em Technicolor. Mas não só: o diretor pretendia criar efeitos ópticos inovadores através de jogos de sombras, luzes, maquiagem, sobreposição de imagens e todo um arsenal que montaria ao longo de meses e meses de intermináveis testes. E foi aí que o sonho da maioria dos cineastas se transformou na maldição do cineasta: ao ganhar dos estúdios norte-americanos que co-produziram o longa a possibilidade de trabalhar com um orçamento colossal, Clouzot praticamente enlouqueceu, entregando-se a todo e qualquer desvario que lhe surgisse à mente, já que agora havia alguém disposto a pagar por suas viagens autorais.

O resultado foi um inferno que conferia nova dimensão ao título do projeto: os atores eram torturados por uma infinidade de testes de luzes e maquiagens (Schneider, em certo momento, surge esfregando os olhos doloridos depois de ser submetida a uma destas sessões); o cronograma de filmagens sofria a pressão da drenagem do lago que deveria servir como um dos cenários principais da história; o ator principal abandonou a empreitada por não suportar o temperamento de seu diretor; e, claro, o próprio Clouzot finalmente se tornou vítima de um ataque cardíaco. 185 latas e 13 horas de imagens capturadas depois, L’enfer foi abandonado.

Todos estes incidentes descritos acima vêm à tona ao longo de O Inferno de Clouzot, documentário que, como principal destaque, recuperou o material rodado em 1964 graças a uma doação da viúva do cineasta – e é impressionante constatar a qualidade das imagens (um dos diretores do filme, Serge Bromberg, trabalha justamente com a preservação de películas). Mas não só a clareza das cenas impressiona; o conteúdo das latas, também: não há como sabermos se L’enfer prestaria como longa-metragem, mas parece correto afirmar que as experimentações de Clouzot certamente se destacariam (é fascinante, por exemplo, notar as mudanças na expressão de Schneider em planos sem cortes que eram criadas apenas a partir do jogo de sombras sobre o rosto da atriz). Igualmente interessante é perceber o próprio processo de criação do diretor e reparar, por exemplo, como seus storyboards indicavam uma pré-visualização precisa daquilo que ele gostaria de rodar, já que, nos planos filmados, a similaridade é patente (inclusive na posição de figurantes).

Aliás, fica óbvio, também, que L’enfer seria uma obra imensamente sensual: absurdamente linda, Romy Schneider parece ter aceitado sem reservas a visão de Clouzot – e vê-la girando os quadris ao esquiar na água ou brincando com uma mola na cama é algo que tiraria o sono de qualquer espectador. Por outro lado, as falas reencenadas por atores modernos indicam que os diálogos precisariam de mais trabalho para que pudessem funcionar bem.

Infelizmente, com exceção das imagens recuperadas, o documentário não tem muito a oferecer: as entrevistas com ex-colaboradores de Clouzot são burocráticas e pouco reveladoras (com exceção do assistente de câmera que explica que os insistentes zooms in e out exigidos pelo cineasta foram batizados como “coito óptico” pela equipe); as reencenações surgem desnecessárias; a duração é maior do que o que seria necessário; e informações importantes são ignoradas pela dupla de diretores – como, por exemplo, o fato de Claude Chabrol ter rodado o roteiro de Clouzot em 1994, com Emmanuelle Béart no lugar de Schneider (falo, claro, de O Ciúme).

Chabrol, que, vale lembrar, foi um dos cabeças da mesma nouvelle vague que desprezava Henri-Georges Clouzot. O mundo dá voltas. (3 estrelas em 5)

 

13)       Caro Francis (Idem, Brasil, 2009). Dirigido por Nelson Hoineff.

Cada época tem o Paulo Francis que merece: se antes tínhamos o original, que, do alto de sua visão conservadora, revelava-se um articulista inteligente, interessante e divertido, agora temos imbecis como Reynaldo Azevedo e Diogo Mainardi, que escrevem com a mesma mediocridade com que pensam - e chega a ser ofensivo que Caro Francis, ode ao velho comentarista, traga justamente este último como um de seus entrevistados.

Ex-esquerdista que se converteu sem reservas à mais extrema das direitas, Paulo Francis era um homem reacionário, racista, sexista, homófobo e profundamente arrogante. Baseado em Nova York por anos e anos, era um republicano confesso e politicamente incorreto até o último fio de cabelo. Por outro lado, era também um escritor competente que, em função de seu gosto por hipérboles e do senso de humor apuradíssimo, representava sempre um ponto de vista interessante. Era perfeitamente possível desprezar tudo o que Francis dizia e, ao mesmo tempo, admirar a forma com que ele se expressava.

Dirigido por Nelson Heinoff, o documentário é hábil justamente ao apontar este fato – e contando com várias imagens de arquivo, o cineasta permite que Francis prove isto por si mesmo: a cada vez que surge na tela, o jornalista invariavelmente leva o espectador ao riso com sua presunção, com a firmeza com que defende sua visão conservadora do mundo e, vale dizer, com suas piadas. Se há um problema com Caro Francis, aliás, é a visão unilateral que oferece sobre seu protagonista: as críticas feitas ao sujeito são poucas e, quando surgem, ganham poucos segundos, sendo imediatamente substituídas por longos minutos com extensas defesas (em certo instante, por exemplo, uma velha acusação de plágio contra Francis é levantada enquanto o autor de um texto sobre o assunto afirma ter inúmeras provas de que o comentarista realmente copiava trechos escritos por outras pessoas, mas Heinoff não só ignora qualquer evidência como ainda traz Mainardi (vejam quem!) afirmando que o outro está agindo de “má-fé” – uma ironia só igualada no instante em que o mesmo estúpido colunista de VEJA acusa um velho ombudsman da FOLHA de ser “medíocre”). E o que dizer do instante em que alguém argumenta que Francis tinha “uma boa voz para cantar” – uma besteira (sem importância, verdade) que o filme parece aceitar completamente?

Igualmente lamentável é perceber a seleção ofensivamente parcial que Heinoff fez ao escolher passagens do Manhattan Connection e nas quais Francis surge sempre massacrando seu colega de mesa Caio Blinder. Ora, eu assistia ao programa (que abandonei quando escalaram o porta-voz da Direita Emburrecida, Mainardi, para completar a equipe) e me lembro de diversas ocasiões em que Blinder deixou Francis sem palavras ou relegado a defesas raivosas e sem o menor nexo – pois esta era justamente uma das maravilhas do programa: ver quem sairia vencedor naquele dia; se Francis fosse o articulista imbatível apresentado pelo filme, a graça deixaria de existir. Como se não bastasse, Heinoff comete alguns erros grosseiros como cineasta, como, por exemplo, ao incluir a leitura de uma interminável carta escrita sobre a gata favorita do personagem-título ou – ainda mais grave – ao rodar uma entrevista em que o cãozinho do entrevistado pode ser visto deitado de pernas para cima no outro extremo do sofá, numa imagem absurda que leva o espectador ao riso e tira completamente o foco do que está sendo dito naquele instante.

Porém, Caro Francis abandona a esfera do “erro bobo” e cruza a fronteira do “ofensivo” ao defender a tese de que Paulo Francis teria praticamente sido assassinado pela Petrobrás – ou, a rigor, por seus diretores da época. Afirmando num programa veiculado para todo o país que “todos os diretores da empresa tinham contas no exterior”, o jornalista simplesmente não tinha prova alguma que embasasse a grave acusação e, portanto, era mais do que natural (mais: inevitável) que fosse processado pelos acusados. Depois de ter usado seus contatos com José Serra e FHC (então Presidente da República) para tentar inutilmente acabar com o processo (Cardoso assume nem saber se o processo foi pra frente ou não), Francis, em vez de realizar um pedido público de desculpas (algo que os autores da ação afirmam que seria o bastante para que a encerrassem), apenas repetiu outras ofensas no Manhattan Connection, agravando ainda mais a própria situação.

A conclusão bombástica (e terrivelmente tola) do documentário, explicitada por Mainardi et al.? “Eles mataram o Francis!”. Felizmente, a própria viúva do jornalista exibe imensa sensatez ao evitar atribuir qualquer responsabilidade a quem quer que seja pela morte do marido (embora haja a sugestão de um erro médico), o que alivia um pouco o impacto que aquela besteira poderia ter no filme.

De todo modo, Caro Francis, mesmo parcial e falho, é um retrato digno de um homem de cujas opiniões, confesso, eu discordava (e discordo) passionalmente – algo que não será uma surpresa para quem lê meus textos há algum tempo. Porém, dito isso, poucas pessoas mereciam ter ganhado mais alguns anos de vida, para que pudessem chegar inteiras à época dos blogs, como Paulo Francis.

E se assumi que não concordava com suas posições, assumo também que devoraria cada um de seus posts. (4 estrelas em 5)

 

14)      Tyson (Idem, EUA, 2008). Dirigido por James Toback. Com: Mike Tyson.

Em certo momento deste documentário, o ex-campeão dos pesos-pesados, Mike Tyson, relembra uma passagem de sua juventude e, subitamente, começa a emitir estranhos sons guturais, num misto de tosse e pigarreio. Obviamente atordoado consigo mesmo, ele explica:

- Eu vou chorar.

Choro. Aqueles sons eram um sinal de emoção.

Este talvez seja o instante mais revelador do filme: depois de passar toda a vida construindo a pose de durão, ameaçador, Tyson parece ter desaprendido a emocionar-se – e o choro surge, então, quase como um acidente fisiológico, não muito diferente de uma febre ou uma dor de dente. E como em qualquer documentário eficiente, parte dos méritos por estes segundos de surpreendente vulnerabilidade se deve ao diretor, que de conseguiu criar um ambiente propício para que o protagonista baixasse o escudo.

O Tyson visto aqui, aliás, em nada lembra o palhaço arrogante que fazia a alegria dos jornalistas esportivos nas décadas de 80 e 90: em determinado momento, por exemplo, o cineasta James Toback exibe o trecho de uma entrevista concedida pelo sujeito no passado e a contrapõe a um depoimento atual sobre o mesmo assunto – e é notável, o contraste entre o orgulho que ele exibia ao discutir suas confusões e a serenidade e o embaraço que deixa transparecer hoje ao lembrar-se delas.

Mas até que ponto isso não passa de uma performance, de uma tentativa de reinventar-se para a mídia? Obviamente, para o espectador é difícil dizer: as narrações em off e os depoimentos feitos enquanto ele olha diretamente para a câmera parecem ensaiados e certamente foram roteirizados (por Toback? Pelo próprio Tyson?). Por outro lado, é impossível negar a honestidade do instante em que ele confessa que, ao ser insistentemente elogiado por seu velho treinador durante a adolescência, considerava a possibilidade do sujeito ser gay e estar interessado apenas em assediá-lo, já que não tinha idéia, na época, que o outro estivesse fortalecendo sua confiança em si mesmo. Além disso, a raiva que ele manifesta ao falar do empresário Don King e da modelo que o acusou de estupro é ventilada sem reservas, o que talvez indique a intenção do lutador de realmente se abrir para a câmera.

Mesmo distante da realidade em vários sentidos (ele chega a dizer, sem qualquer traço de ironia, que 20 milhões de dólares é “pouco dinheiro”), Mike Tyson chega ao final da projeção com uma imagem vulnerável (entre outras coisas, sua fraca respiração contribui para isso) e convencendo o espectador de que talvez tenha realmente amadurecido. E também de que é um personagem obviamente intrigante. (3 estrelas em 5)

 

15)      Independência (Independencia, Filipinas, 2009). Dirigido por Raya Martin. Com: Sid Lucero, Tetchie Agbayani, Alessandra de Rossi, Mika Aguilos.

Rodado por seu jovem (24 anos!) diretor filipino Raya Martin como o segundo capítulo de uma trilogia sobre a ocupação de seu país por espanhóis, norte-americanos e japoneses ao longo do tempo, Independência é um magnífico exercício estilístico que, remetendo ao Cinema mudo e aos primeiros filmes sonoros, investe apropriadamente numa artificialidade que fica clara através da floresta criada em estúdio, dos fundos pintados em imensos painéis, das atuações exageradas, da razão de aspecto (4:3), do soft focus empregado nos closes, da grande profundidade de campo que achata as imagens, da câmera sempre estática e, claro, da montagem esquemática (plano médio – primeiro plano – primeiríssimo plano; enxaguar e repetir).

Infelizmente, estilo não é tudo – e Independência, como narrativa, falha terrivelmente. Para começo de conversa, sua tentativa de transformar a história da ocupação norte-americana (e o espírito de independência dos nativos) em uma alegoria movida pela homenagem ao Cinema é algo que, por mais que funcione no papel, acaba resultando num jogo infantil e simplista no qual a ironia é imediatamente perdida e substituída apenas pela presunção do diretor. Um exemplo óbvio disso é a interrupção da narrativa, no meio da projeção, para que acompanhemos um (falso) cinejornal daqueles tão comuns nos primórdios da Sétima Arte – e que traz uma notícia que, embora supostamente baseada em incidente verídico, é tão maniqueísta em sua apresentação que se torna apenas absurda e artificial. E o que dizer do desfecho, quando Martin finalmente usa uma pincelada de cor num dos recursos mais bobos e clichês de narrativas do tipo?

Alardeado como um dos grandes filmes do ano, Independência é o tipo de experimento que, numa visão superficial, realmente pode soar como um achado – mas que, com um pouco mais de análise, se revela apenas como um exercício inconseqüente e nada inovador. (2 estrelas em 5)

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Mostra de São Paulo 2009 - Dia 04

by Pablo 27. outubro 2009 10:05

(Abraços para os estudantes de Cinema Antônio Carlos e Thiago, que me abordaram na saída do Reserva Cultural - especialmente para o primeiro, que, minutos depois, gentilmente evitou que eu fosse atropelado ao me puxar pelo braço enquanto atravessava uma rua distraidamente sem perceber um carro que se aproximava. Beijos também para as leitoras Simone, Cláudia e Monique, que me cumprimentaram em sessões diversas.)

9)      Sussurros ao Vento (Sirta la gal ba, Iraque, 2009). Dirigido por Shahram Alidi. Com: Omer Chawshin, Maryam Boubani, Bistoun Ali Ghader.

Na década de 80, Mam Bandar (Chawshin) viaja pelo Curdistão destruído pela guerra a fim de levar mensagens gravadas para membros de famílias divididas e para veiculação numa rádio clandestina operada a partir das montanhas. Freqüentemente descobrindo que seus destinatários já há muito deixaram de existir, levados pela miséria ou pelo repressão dos sunitas, o velho “carteiro” ainda assim segue com sua eterna e desesperançada missão, correndo riscos constantes de ser punido pelos homens de Saddam Hussein.

Há imagens belíssimas ao longo de Sussurros ao Vento, é verdade: a mulher que escreve uma longa e tocante mensagem na lona coberta de lama do carro do protagonista; uma árvore que exibe dezenas de rádios apreendidos por estarem sintonizados na emissora dos guerrilheiros; um cemitério no deserto que, com pilhas de pedras em cada sepultura, assume um caráter documental ao ser visto ao lado da narração de famílias em luto; e assim por diante. Porém, o diretor Shahram Alidi constrói sua narrativa de maneira excessivamente lenta, sem compreender que há uma diferença brutal entre o “contemplativo” e o “entediante” – algo que nem este Sussurros ao Vento nem o romeno Polícia, Adjetivo parecem compreender.

Como se não bastasse, o cineasta ainda apela para um simbolismo tão óbvio ao tratar o choro de um bebê como um marco de esperança em meio à devastação que fica difícil levar esta obra (exibida na Semana da Crítica em Cannes, claro) a sério. (1 estrela em 5)

 

10)      Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, EUA, 2009). Dirigido por Werner Herzog. Com: Nicolas Cage, Val Kilmer, Eva Mendes, Xzibit, Brad Dourif, Michael Shannon, Jennifer Coolidge, Fairuza Balk, Tom Bower

Embora se apresente como uma refilmagem do ótimo longa comandado por Abel Ferrara em 1992 (até hoje, o melhor trabalho do diretor e que trazia Harvey Keitel numa atuação corajosa e de total entrega), este Vício Frenético revela-se mais como uma reimaginação daquela obra do que qualquer outra coisa: diferente do original em tom e estrutura, este novo filme do mestre Werner Herzog carrega propositalmente na bizarrice de seu protagonista, suavizando sua deprimente decadência a ponto de torná-la grotescamente divertida.

Abordando as ações reprováveis (um eufemismo) de um instável (outro) tenente de polícia, o roteiro desta produção tem, como principal diferença com relação ao anterior, sua própria lógica narrativa: se no filme de 92 éramos apresentados ao protagonista quando este já se encontrava praticamente no fundo do poço, surgindo como uma figura destrutiva e repugnante, desta vez conhecemos o tenente Terence McDonagh (Cage) no auge de sua carreira, quando promovido por atos de heroísmo. Dominado por fortes dores nas costas, porém, o policial se torna dependente de analgésicos e, posteriormente, de todo tipo de droga imaginável. Com isso, não apenas nos apiedamos do sujeito (afinal, sabemos por que se tornou um viciado) como também nos convencemos de que é um homem fundamentalmente bom – ao passo que o tenente de Keitel jamais deixava de parecer, para o espectador, uma criatura fascinantemente cruel e corrompida. O resultado é que o longa anterior girava em torno de uma intensa culpa católica e de uma comprometida tentativa de redenção, enquanto, agora, a redenção é quase um post scriptum e os tons religiosos foram substituídos por pinceladas de comentário social (não é à toa que a história tem início em pleno desastre do Katrina).

Mas não é só isso: se Ferrara investia numa atmosfera sufocante de degradação física e moral, Herzog mostra-se mais interessado na comédia de absurdos resultante das ações do protagonista – e é surpreendente como situação similares nos dois filmes acabam provocando reações tão diferentes: se antes experimentávamos aversão ao personagem-título (no original, Bad Lieutenant), desta vez rimos de suas atitudes. Tomemos, como exemplo, a inesquecível cena do original em que Keitel assediava cruelmente duas jovens em um carro, praticamente estuprando-as com o poder de seu distintivo sem tocá-las de fato – e reparem como, em comparação, a cena desta refilmagem em que Cage realmente transa com uma jovem depois de abordá-la como suspeita acaba soando engraçada em vez de revoltante como a do anterior. E o que dizer do momento absolutamente hilário em que Cage tortura duas velhinhas num asilo? 

Claro que parte importante dos méritos pela eficácia desta nova abordagem se deve à performance de Nicolas Cage – sua melhor dos últimos anos. Ator que jamais teme se entregar à excentricidade, Cage encarna o declínio do tenente McDonagh com a intensidade habitual, investindo nos tiques e maneirismos que se tornam cada vez maiores à medida que ele afunda nas drogas: reparem as coçadas de nariz, a insistência em passar a mão no cabelo e o olhar que, embora concentrado, jamais parece ter foco. Mas talvez a grande sacada do ator resida em sua postura em cena, já que ele mantém os ombros sempre inclinados para um lado e as costas encurvadas, retratando não apenas as conseqüências de seus problemas físicos, mas – e aí reside sua genialidade – a própria falta de equilíbrio emocional e psíquico do personagem.

O elenco de Vício Frenético, diga-se de passagem, inclui outros três atores notórios por suas performances bizarras, mesmo que, aqui, surjam em papéis pequenos: Val Kilmer, como um colega de farda do anti-herói, poderia protagonizar uma continuação com seu Stevie Pruit, já que o sujeito parece mais instável (e cruel) do que McDonagh, enquanto Michael Shannon, como Mundt, poderia surgir numa pré-continuação, já que, aqui, seu policial (agora relegado a trabalhos burocráticos) já parece ter atingido a completa decadência há anos. Fechando o trio de excêntricos vem Brad Dourif, que desde Um Estranho no Ninho vem se especializando em criações que primam pela instabilidade (embora neste filme ele surja até contido). E se Eva Mendes pouco faz com a prostituta Frankie, Jennifer Coolidge tem sua parcela de bons momentos como a madrasta do tenente-título.

Realizando um trabalho de direção relativamente convencional, Werner Herzog ainda assim encontra instantes específicos no roteiro de William M. Finkelstein para exibir seu pendor para escolhas atípicas (e se mencionei a excentricidade de boa parte do elenco, esta nem se comparada à do cineasta): é curioso notar, por exemplo, como Herzog seleciona pontos precisos para realizar escaladas no delírio do protagonista – e a maneira com que ele decide fazê-lo, enfocando iguanas em planos fechadíssimos que, rodados com a câmera na mão e em 16mm, cria uma atmosfera de estranhamento que cumpre perfeitamente este propósito. Da mesma forma, é um prazer perceber o timing cômico do diretor na cena em que ele revela uma garrafa de cerveja na mão de uma personagem no momento perfeito ou na já citada cena no asilo. Além disso, sua sensibilidade dramática também vem à tona no instante em que Cage relembra um incidente de sua infância e Herzog aproxima a câmera do ator enquanto este conta a história apenas para afastá-la novamente quando a narrativa chega ao fim, expondo o tenente e Frankie num abraço que revela apenas a carência profunda de ambos.

Investindo num desfecho que consegue ser simultaneamente satisfatório e artificial (algo que Herzog, com seu senso de humor ácido, provavelmente encarou como uma ironia do ideal norte-americano e da própria cultura de Hollywood), Vício Frenético ainda traz sua própria versão de “rosebud” como uma maneira de ilustrar o esforço do protagonista de resgatar sua pureza anterior – o que também não deixa de ser divertido e curioso.

Mas divertido mesmo seria assistir a uma sessão dupla com as versões de Ferrara e Herzog. (4 estrelas em 5) 


XXX) Elevador Armadilha (Akumu no erebêtâ, Japão, 2009). Dirigido por Keisuke Horibe. Com: Masaaki Uchino, Aimi Satsukawa, Shôtarô Ashida, Sei Ashina, Manami Honjou.

Com cinco minutos de projeção (aliás, péssima, em DVCAM), notei que o diretor japonês estreante Keisuke Horibe não tinha a menor idéia do que estava fazendo: tentando fazer uma referência aos filmes de horror orientais, ele enfoca um personagem que, ao olhar para uma superfície brilhante, assusta-se ao ver o reflexo espectral de uma garota – apenas para constatar que ela existia de fato e estava às suas costas (aparentemente, Horibe não compreende como espelhos funcionam, julgando que eles podem refletir alguém que se encontra oculto por outra pessoa). Além disso, ao não conseguir sequer estabelecer as dimensões de seu cenário, permitindo que o elevador no qual a trama se passa mude obviamente e várias vezes de tamanho, o diretor falha na mais básica das funções.

Já aos sete minutos de projeção, percebi que os atores também não compreendiam muito bem o que fazer com seus personagens, apelando para caricaturas grosseiras e sem a menor graça (embora claramente estivessem se achando divertidíssimos) e se comportando de uma maneira inexplicável para qualquer ser humano.

Três minutos depois, constatei que o roteiro não tinha a menor ambição narrativa ou mesmo uma simples noção de para onde conduzir sua história – e a insistência em flashbacks que apenas repetiam o que acabara de ser dito era, para dizer o mínimo, profundamente irritante.

Aos 25 minutos, fiz algo que raramente faço (e nunca fora de festivais): tive dó de mim mesmo e abandonei a sala. (Sem cotação)

 

11)      Quando Eu Crescer (När Jag Blir Stor, Suécia, 2009). Dirigido por Rainer Hartleb.

O diretor inglês Michael Apted vem criando, ao longo das últimas quatro décadas, um documento poderosíssimo sobre a experiência humana em sua série de filmes 7 Up!, que, a cada sete anos, volta a enfocar a vida de um mesmo grupo de britânicos (o último “capítulo”, 49 Up!, foi lançado em 2005).

De certa forma, o alemão Rainer Hartleb tenta fazer algo similar neste Quando Eu Crescer, mas com resultados apenas medianos: começando a entrevistar uma turma de crianças de sete anos em 1999, ele retornou, ao longo dos anos seguintes, para novas entrevistas, finalmente concluindo seu documentário com a formatura dos adolescentes que agora iniciarão suas jornadas universitárias.

Trazendo vários filhos de imigrantes (especialmente da Bósnia) e muitos criados por mães solteiras, Quando Eu Crescer acaba refletindo as buscas pelas raízes de muitos de seus personagens ao mesmo tempo em que retrata as dificuldades financeiras de várias daquelas famílias – o que, de certa forma, acaba se tornando o foco do documentário e subvertendo as intenções originais do cineasta (e se isto pode ser algo positivo em muitos casos, aqui serve apenas como distração, já que Hartleb insiste em sua abordagem inicial, criando um filme sem foco).

Embora seja curioso (e tocante) testemunhar o crescimento daquelas crianças ingênuas e cheias de sonhos e perceber como eventualmente se tornam frustradas, amarguradas e ansiosas, por outro é inevitável perceber que Quando Eu Crescer apenas arranha a superfície daquelas vidas – e embora Apted tenha várias vantagens em seu próprio projeto (a possibilidade de realizar vários filmes; o distanciamento em que se mantém durante os anos entre as produções; a perspectiva das décadas; etc), o fato é que este longa sueco empalidece em comparação. (2 estrelas em 5)

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Mostra de São Paulo 2009 - Dia 03

by Pablo 26. outubro 2009 10:00

(O abraço de hoje vai para a ex-aluna Marina, que encontrei no Arteplex.)

E...

6)      A Fita Branca (Das weiβe Band, Alemanha, 2009). Dirigido por Michael Haneke. Com: Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaussner, Steffi Kuhnert, Rainer Bock, Susanne Lothar, Maria-Victoria Dragus, Leonard Proxauf, Janina Fautz, Eddy Grahl e a voz de Ernst Jacobi.

Ao longo dos últimos 20 anos, o cineasta alemão Michael Haneke construiu uma filmografia admirável a partir de histórias nada palatáveis sobre seres humanos ainda menos. Aliás, se há algo que podemos deduzir a partir de sua obra, é que Haneke encara a Humanidade com pessimismo; se a oportunidade surgir, até mesmo o aparentemente mais nobre dos indivíduos irá torturar e matar seu semelhante caso isto lhe traga algum benefício – e, embora seja um pouquinho mais otimista que o diretor (sou pessimista quanto à Humanidade, mas acredito no Indivíduo), devo confessar que sua visão niilista do mundo (mesmo considerando, por exemplo, o desfecho otimista de Tempos de Lobo) normalmente proporciona material para ricas discussões.

Pois se Haneke já é habitualmente cínico com relação aos seus personagens, imaginem então o que faz neste A Fita Branca, que, não por acaso, é ambientado na Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial: focado numa pequena vila que aparentemente ainda vive num regime plenamente feudalista, o roteiro do próprio diretor aborda uma série de incidentes violentos que tomam o lugarejo de surpresa sem que os habitantes consigam identificar o(s) autor(es) das ações. Enquanto tentam compreender exatamente o que está acontecendo, aqueles indivíduos são obrigados a lidar com suas próprias crises internas, desde confrontos entre pais e filhos a protestos mais chocantes sobre a natureza do trabalho e da remuneração oferecidos pelo Barão que domina o local. Em meio a tudo isso, o pacato professor (Friedel) da única escola da vila tenta trazer algum sentido para o que testemunha enquanto vive uma profunda paixão por uma jovem babá.

Fotografado por Christian Berger num preto-e-branco austero obviamente (e apropriadamente) mais preocupado com a tristeza e a rigidez daquele universo do que com a beleza das imagens em si, A Fita Branca poderia perfeitamente ser apresentado numa sessão dupla com Dogville – outro brilhante longa que usava o microcosmos de um vilarejo como ponto de partida para uma impiedosa alegoria sobre a condição humana: assim como as boas intenções iniciais de ajudar a personagem de Nicole Kidman no trabalho de Lars von Trier logo cedia lugar ao egoísmo e à crueldade, aqui (e na vida real) barbaridades são cometidas em nome da Religião, dos “bons costumes” e do “bem estar” da sociedade.

Não é à toa, aliás, que o confronto de gerações impera ao longo da narrativa, seja entre pais e filhos ou mestres e alunos: o Pastor vivido por Ulrich Tukur, por exemplo, surge como um verdadeiro monstro em seus esforços de “educar” os vários filhos através da repressão de qualquer manifestação de individualidade ou curiosidade – e a “fita branca” que dá título ao projeto e que ele encara como um símbolo de “inocência e pureza” é, na realidade, uma amarra do próprio espírito humano. Da mesma maneira, Haneke – como também é recorrente em sua filmografia – não esconde depositar maiores esperanças na alma feminina em oposição à brutalidade que enxerga no temperamento masculino, já que são vários os momentos em que as mulheres do vilarejo são humilhadas, diminuídas e ignoradas por seus pares do sexo oposto.  Finalmente, A Fita Branca inclui também um forte ressentimento de classe na dinâmica entre os personagens, o que eventualmente parece propício a desencadear uma explosão que se tornará difícil de conter, sacudindo irremediavelmente os alicerces daquela sociedade.

Mas, acima de tudo, é impossível ignorar que os jovens vistos ao longo da projeção são integrantes daquela geração que finalmente levará o Nazismo ao poder, propiciando uma das maiores tragédias sociais, políticas e humanas da História do planeta – e não é difícil perceber que, de acordo com Haneke, esta catástrofe se tornou inevitável a partir do momento em que acompanhamos a juventude sendo corrompida pela amarga, ressentida e apodrecida geração anterior.

Ou, numa análise mais direta e simplista, como esperar algo de positivo partindo de um bando de seres humanos tão miseráveis? (4 estrelas em 5)

 

7)      O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus (The Imaginarium of Dr. Parnassus, Inglaterra/Canadá/França, 2009). Dirigido por Terry Gilliam. Com: Heath Ledger, Christopher Plummer, Verne Troyer, Tom Waits, Lily Cole, Andrew Garfield, Jude Law, Johnny Depp, Colin Farrell.

Notório antes mesmo de ser completado por ter se tornado o último trabalho do talentoso Heath Ledger, morto precocemente aos 28 anos de idade, O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus, ganhou, em razão da tragédia, um caráter irrevogável de grande homenagem à carreira do ator – e não apenas Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law aceitaram filmar pequenas participações completando a performance de Ledger (algo que comentarei adiante), doando seus cachês à filha do rapaz, como o próprio longa termina com a frase: “Um Filme de Heath Ledger e amigos”.  Mais tocante, impossível. Assim, é lamentável que a obra também seja uma tremenda bagunça.

Escrito pelo diretor Terry Gilliam ao lado de Charles McKeown, o roteiro gira em torno de um grupo de aparentes saltimbancos liderado pelo sempre bêbado personagem-título (Plummer). Depois de ter feito com uma aposta com o Diabo (Waits) e ser premiado com a vida eterna, Parnassus foi condenado a ceder sua filha à criatura assim que a garota completar 16 anos – e com o aniversário da moça se aproximando, o sujeito se encontra torturado sobre o que fazer. É quando a trupe salva Tony (Ledger), um homem que havia sido enforcado e que, sofrendo de amnésia, passa a acompanhar os demais em suas viagens pelo mundo – algo que vem a calhar, posto que Parnassus e o Diabo fazem uma nova aposta que tem Valentina (Cole) como prêmio: aquele que conquistar primeiro cinco almas será o vencedor. Com a ajuda de Tony, então, o velho busca atrair clientes que aceitem atravessar o misterioso espelho presente durante seus shows e que, na realidade, funciona como um portal para um universo no qual Parnassus dá vida à imaginação das pessoas.

Diretor conhecido justamente pelo caráter fantasioso e imaginativo da maior parte de seus projetos (de Os Bandidos do Tempo a Os Irmãos Grimm, passando por As Aventuras do Barão Munchaussen e Brazil), Terry Gilliam encontra, aqui, a oportunidade ideal de empregar os efeitos visuais digitais de uma maneira inédita em sua carreira – e, de fato, as seqüências ambientadas no Imaginário são visualmente magníficas, usando as novas tecnologias sem, com isso, abandonarem a sensibilidade particular do cineasta (e não é por acaso que muito do que vemos nestas cenas remete às animações que Gilliam produzia na época do Monty Python). O design de produção de Anastasia Masaro, aliás, certamente merece ser considerado na temporada de premiações que se aproxima, já que, do “pântano” de garrafas às gigantescas escadas que sobem em direção às nuvens, o filme jamais deixa de surpreender o espectador com suas criações.

Da mesma forma, o diretor de fotografia italiano Nicola Pecorini contribui para o tom fabulesco através de paleta que, muitas vezes investindo num evocativo sépia, também ressalta a atmosfera ameaçadora da narrativa através do belo uso de sombras. Mas, mais uma vez, a sensibilidade particular de Terry Gilliam se apresenta e, claro, voltamos a ver marcas registradas de seus trabalhos, como os quadros inclinados que conferem uma aura de desequilíbrio à trama e os planos que, através de lentes específicas, deformam levemente os rostos de seus atores.

E já que mencionei os atores, é preciso apontar que Heath Ledger mais uma vez exibe seu notório carisma e sua presença de cena dominante ao encarnar Tony como uma criatura ambígua e pouco confiável – mas também é necessário dizer que, por culpa do roteiro e/ou das alterações impostas por sua morte durante as filmagens, a composição se torna imperfeita, incompleta, deixando a clara impressão de que parte importante da história do personagem jamais foi estabelecida. Aliás, a própria narrativa surge com graves problemas, muitas vezes saltando abruptamente de um incidente a outro sem que uma progressão lógica dos acontecimentos pareça ocorrer – algo que, mais uma vez, só posso atribuir às tentativas feitas por Gilliam de reestruturar o roteiro depois do falecimento de seu protagonista.

Neste sentido, diga-se de passagem, a decisão de escalar três atores diferentes para interpretarem Tony sempre que este atravessa o espelho de Parnassus representou uma ótima sacada do cineasta, já que, inclusive, não desafia a lógica da trama. E o curioso é que, assim como notoriamente ocorreu com Ángela Molina e Carole Bouquet em Esse Obscuro Objeto do Desejo, de Buñuel, a substituição dos atores ao longo da projeção nem sempre salta aos olhos do espectador, o que representa um efeito interessante. Completam o elenco, ainda, Christopher Plummer (obrigado a encarnar Parnassus num tom monocórdio e aborrecido, já que o sujeito se encontra sempre bêbado e deprimido), Andrew Garfield (tão desinteressante quanto em Leões e Cordeiros), Verne Troyer (que cria o único personagem divertido do longo), Tom Waits (intenso e interessante como o Diabo) e Lily Cole (que mais parece uma boneca de porcelana).

Longo e com uma estrutura frouxa resultante das várias alterações, O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus ainda peca pela resolução artificial que poderia perfeitamente ser descrita como um decepcionante diabo ex machina. Ledger merecia uma despedida melhor. (2 estrelas em 5)

 

8)      35 Doses de Rum (35 rhums, França/Alemanha, 2008). Dirigido por Claire Denis. Com: Alex Descas, Mati Diop, Nicole Dogué, Grégoire Colin, Jean-Christophe Folly, Julieth Mars Toussaint.

Um sensível estudo de personagens focado especialmente no relacionamento entre uma jovem universitária e seu pai, 35 Doses de Rum, da francesa Claire Denis, é um filme tocante que, em vez de depender da ação, de incidentes específicos, para desenvolver sua narrativa, confia na paciência e na inteligência do espectador ao permitir que mergulhemos naquele universo e conheçamos seus protagonistas apenas através da observação do cotidiano destes e do comportamento que exibem diante uns dos outros.

Sujeito de poucas palavras, Lionel (Descas) leva uma existência tranqüila ao lado da filha Joséphine (Diop), uma bela jovem que não parece ter o menor interesse de deixar a companhia do pai. A natureza idílica da dinâmica dos dois, aliás, fica patente logo nos primeiros minutos de projeção, quando Denis enfoca o sorriso da garota ao ouvir a chegada do pai e ao mostrá-los preparando o jantar em sintonia absoluta. Em contrapartida, as tentativas feitas pela vizinha (e ex-namorada de Lionel) Gabrielle (Dogue) de tentar participar do cotidiano dos dois são sempre rechaçadas até mesmo com certa hostilidade – e outro vizinho, Noé (Colin), que se encontra claramente apaixonado por Joséphine, não consegue se sair muito melhor em seus esforços similares.

Operando como um recorte da vida nas grandes cidades (algo que fica claro pelos vários planos que trazem dezenas de janelas iluminadas à distância), a narrativa é pautada pela melancolia: Lionel e Joséphine apreciam a companhia um do outro, mas sentem que há um vácuo em suas vidas; Gabrielle é continuamente rejeitada pelo ex e pela garota que ajudou a criar; Noé vive viajando e ocupa o apartamento deixado pelos pais falecidos com aparente relutância; e René (Toussaint), colega de trabalho de Lionel, não consegue se acostumar à vida de aposentado. “Tenho uma saúde de ferro. Se continuar assim, viverei até os 100 anos”, ele diz, em certo momento – e, ao contrário do que poderíamos imaginar, a frase é pronunciada num inequívoco tom de lamento, como se permanecer vivo fosse um fardo pavoroso para o sujeito.

Contando com uma belíssima e evocativa trilha do grupo Tundersticks, 35 Doses de Rum encanta pela riqueza de sentimentos que transmite sem a necessidade de qualquer verbalização, desde o abandono do apartamento de Noé, com seu carpete imundo, até a decoração aconchegante do lar de Lionel e Joséphine, que reflete justamente o conforto que eles sentem um ao lado do outro. Ainda assim, o grande momento do filme ocorre na virada do segundo para o terceiro atos, quando os quatro personagens principais vão a um restaurante e, numa longa e fantástica cena, acompanhamos todas as trocas de olhares entre eles, percebendo claramente o medo de rejeição de um, o ciúme de outro, o desejo de um terceiro e assim por diante – num casamento impecável de ótimas atuações, de uma decupagem exemplar, de uma trilha envolvente e de uma montagem inteligente e ambiciosa.

Um filme maduro sobre adultos e para adultos. (4 estrelas em 5)

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Mostra de São Paulo 2009 - Dia 02

by Pablo 25. outubro 2009 11:20

(Antes de qualquer coisa, um forte abraço nos leitores Cássio, Leandro e Neto, que me abordaram na saída do Cine Bombril, na sexta-feira, e também em meus ex-alunos Cecília, Divino e Leonardo, que encontrei em algumas sessões.)

Bom... 

2)      A Cozinha de Stella (Cooking with Stella, Canadá, 2009). Dirigido por Dilip Mehta. Com: Seema Biswas, Don McKellar, Lisa Ray, Shriya Saran, Vansh Bhardwaj, Maury Chaykin.

A primeira imagem que vemos quando A Cozinha de Stella tem início é a da personagem-título rezando devotadamente diante de várias imagens religiosas. É então que ouvimos um irreverente ringtone de “Jingle Bells” e percebemos, no momento em que a mulher abandona a oração para atender o celular, que Stella está longe de seguir qualquer conceito convencional que poderíamos ter de uma criada indiana de meia-idade.

E, de fato, ao longo do filme comandado pelo indiano Dilip Mehta, Stella se apresentará como uma figura sempre intrigante: religiosa e com uma aparência inofensiva, ela parece orgulhosa de ter servido como criada de vários diplomatas canadenses em Nova Delhi – mas logo constatamos que não se trata exatamente de orgulho profissional, mas de uma posição conveniente para seu verdadeiro interesse: o de roubar sempre o máximo que puder de seus patrões sem chamar a atenção.

Trambiqueira até o último fio de cabelo, a indiana é capaz de transformar até aparentes atos de generosidade em oportunidades de enganar seus ingênuos patrões – especialmente Michael (McKellar), cozinheiro profissional que aproveita o fato da esposa ter sido designada para ocupar o posto de diplomata na Índia para explorar a culinária local, eventualmente perguntando se a pragmática Stella aceitaria ser sua “guru” (“Por que eu deveria dizer sim?”, ela questiona antes de finalmente encontrar uma forma de usar aquilo em seu favor).

Adotando uma direção normalmente discreta, Mehta infelizmente acaba carregando nas tintas ao tentar estabelecer os problemas conjugais de Michael e Maya (a fraca Lisa Ray) – e é particularmente embaraçoso acompanhar a pavorosa e artificial cena à mesa de jantar em que estes ignoram o que o outro diz, insistindo em discutir apenas seus próprios problemas. Por outro lado, A Cozinha de Stella ganha uma dimensão extra com a entrada da bela babá Tannu (Saran), cuja trajetória moral acabará servindo de base estrutural do roteiro.

Realizando um impecável trabalho de composição, a atriz Seema Biswas consegue alcançar um equilíbrio delicado com uma personagem difícil, já que qualquer desvio mínimo na caracterização tornaria Stella antipática ou inverossímil para o espectador – e Biswas é hábil ao estabelecê-la como uma figura complexa e até digna de dó (embora na maior parte do tempo acabemos nos divertindo com seu cinismo e sua natureza incorrigível). Enquanto isso, Don McKellar, um ator que conta cada vez mais com minha admiração, estabelece Michael como um homem gentil, mas com uma tristeza subjacente que colabora para que compreendamos a importância de sua relação com Stella.

Prejudicado por uma trilha maniqueísta e por um desfecho frágil, porém, A Cozinha de Stella acaba perdendo força em seu ato final, o que é uma pena – mas ainda assim é simpático o bastante para merecer aplausos.  (3 estrelas em 5)


3)      Nova York, Eu Te Amo (New York, I Love You, EUA/França, 2009). Dirigido por Fatih Akin, Yvan Attal, Allen Hughes, Shunji Iwai, Wen Jiang, Shekhar Kapur, Joshua Marston, Mira Nair, Natalie Portman, Brett Ratner. Com: Emilie Ohana, Andy Garcia, Hayden Christensen, Bradley Cooper, Rachel Bilson, Natalie Portman, Orlando Bloom, Christina Ricci, Anton Yelchin, Olivia Thirlby, Drea de Matteo, James Caan, Ethan Hawke, Maggie Q, Robin Wright Penn, Chris Cooper, Justin Bartha, Carlos Acosta, John Hurt, Shia LaBeouf, Julie Christie, Eli Wallach, Cloris Leachman, Burt Young, Irrfan Khan, Ugur Yücel, Qi Shu.

Filmes construídos a partir de uma estrutura de antologia costumam ser irregulares por natureza: há sempre uma porcaria para cada boa história narrada – isto nos melhores casos, já que normalmente a proporção favorece a mediocridade. Assim, é uma grata surpresa que Nova York, Eu Te Amo, segundo capítulo da franquia (porque é uma franquia) iniciada com Paris, Te Amo, seja tão coeso.

Contando com uma montagem levemente mais intrincada que a de seu antecessor (o que torna a narrativa mais orgânica), o filme foi concebido a partir das mesmas regras estabelecidas pelo produtor francês Emmanuel Benbihy para o original: cada cineasta teria um ou dois dias para filmar seu segmento, uma semana para montá-lo e deveria, se possível, concentrar-se numa região diferente da cidade – mas, fora isso, os temas eram livres. No entanto, tratando-se de Nova York, é claro que a maior parte dos curtas resultantes acabou girando em torno das características mais conhecidas da metrópole: sua natureza cosmopolita e a solidão que, paradoxalmente, sentimos em meio à multidão.

Não que a hostilidade tão famosa do nova-iorquino tenha sido ignorada; já de início, uma vinheta e o primeiro segmento de Nova York, Eu Te Amo abordam justamente esta questão através da disputa de dois sujeitos pelo mesmo táxi (eles voltarão em histórias diferentes posteriormente) e do confronto de dois homens interessados na jovem interpretada por Rachel Bilson. E é aí, aliás, que a limitação do formato se apresenta pela primeira vez: na história em questão, o ladrão (bem) interpretado por Hayden Christensen protagoniza um curioso duelo com o professor de Andy Garcia em que ambos demonstram uma absurda habilidade para o furto, levando a um quase balé enquanto tentam provar quem é o “macho-alfa” do território. Infelizmente, este bom conceito jamais tem tempo de ser plenamente desenvolvido e, assim, quando o segmento chega ao fim, experimentamos a frustração de termos testemunhado algo mal resolvido. Isto, aliás, ocorre também com a narrativa envolvendo Chris Cooper e Robin Wright Penn, que se envolvem num flerte bobo cujo desfecho revela um jogo desinteressante e clichê.

O filme se torna melhor, por outro lado, sempre que se concentra no contraste entre seus personagens: um dos melhores episódios, por exemplo, é aquele que, dirigido por Mira Nair, traz os sempre ótimos Irrfan Khan e Natalie Portman numa dura negociação que eventualmente reflete as diferenças religiosas de ambos – mas que culmina num belíssimo momento em que, cruzando a fronteira imposta por diferenças de costumes, eles se permitem uma conexão com o ser humano à sua frente, ignorando a quase sempre intransponível barreira criada pelo próprio conceito de Religião. Aliás, se há um tema recorrente em Nova York, Eu Te Amo (e no projeto anterior, ambientado em Paris), este diz respeito à necessidade que temos de estabelecer ligações mais profundas com o próximo – algo que, não por acaso, também serve de base para o curta estrelado por Drea de Matteo e Bradley Cooper como um casal que, depois de uma noite de sexo, tenta se convencer de que tudo não passou de um flerte passageiro (na realidade, uma racionalização para que possam se proteger da eventual – e inevitável – rejeição).

Já o tom inegavelmente romântico serve de tônica a outros bons episódios: vivendo um compositor que, com sua camiseta rasgada e estúdio desarrumado, surge mais como um clichê de artista plástico em processo de criação, Orlando Bloom finalmente mostra um pingo de carisma ao flertar com a voz de uma agente com quem se comunica apenas pelo telefone – embora, mais uma vez, aqui o desfecho abrupto comprometa o resultado. Em contrapartida, o segmento dirigido por Joshua Marston e que traz os veteranos Eli Wallach e Cloris Leachman acaba se estabelecendo como um dos mais sólidos do longa justamente por conseguir criar um pequeno arco narrativo em poucos minutos, contrabalançando o aparente mau humor crônico do velho casal com um momento de doçura não apenas tocante, mas profundamente natural. Infelizmente, este mesmo equilíbrio não é alcançado por Shekhar Kapur em seu curta: se o desenvolvimento da história é beneficiado por um clima quase fantasioso (e profundamente melancólico), a conclusão do episódio busca uma surpresa que soa inorgânica, artificial – o que se torna ainda mais lamentável se considerarmos as belas atuações de Julie Christie, John Hurt e do jovem talento Shia LaBeouf, cujo olhar neste segmento, aliás, revela um oceano de cansaço e decepções.

Mas a melancolia também cede lugar ao bom humor em alguns poucos episódios: aquele dirigido pelo cronicamente subestimado Brett Ratner, por exemplo, oferece algumas gags visuais bastante inspiradas, como no momento em que vemos a bela jovem vivida por Olivia Thirlby mover-se como se estivesse flutuando (o que poderia ser um clichê) apenas para descobrirmos, em um inesperado e divertido choque, a razão para esta fluidez de movimento. Da mesma forma, é inevitável apreciar o plano no salão de dança em que Ratner cria uma coreografia curiosa com o único propósito de revelar o casal principal no meio do grupo. Como se não bastasse, este segmento conta ainda com a presença de James Caan e ganha pontos também com seu desfecho que, embora longe de perfeito, é suficientemente irreverente para amarrar bem a narrativa.

Aliás, é impossível falar de desfecho sem elogiar aquela que é a melhor conclusão entre todos os curtas de Nova York, Eu Te Amo: escrito e dirigido por Yvan Attal, o episódio traz Ethan Hawke como um escritor que, depois de acender o cigarro de uma estranha na rua, dá início a um longo flerte no qual descreve tudo o que fará com a moça vivida por Maggie Q caso esta ceda à sua cantada – e é então que, apenas com duas ou três falas, a garota finaliza a conversação numa tirada genial e inesperada que deixa Hawke – e o espectador – boquiaberto. De forma similar, é importante dizer, o segmento que marca a estréia de Natalie Portman na direção conta com uma conclusão profundamente poética ao trazer o bailarino Carlos Acosta numa apresentação de tirar o fôlego – especialmente por vir como uma resposta ao racismo sutil manifestado contra o sujeito em uma cena anterior, quando, ao passear com a filha caucasiana num parque (Acosta é latino), é elogiado por uma mulher por parecer um ótimo “babá” (e a reação do sujeito prova que Acosta também tem um potencial imenso como ator).

Descrita por um dos personagens do longa como sendo a “capital do onde-tudo-é-possível”, a Nova York vista aqui é, de fato, um lugar romântico, intenso e culturalmente fascinante. Mas, assim como ocorria em Paris, Te Amo, logo fica claro que, a rigor, uma cidade – por mais charmosa que seja – é apenas um palco de concreto para que seus habitantes-personagens possam protagonizar dramas e comédias profunda e comoventemente humanos. (4 estrelas em 5)

 

4)      Ricky (Idem, França/Itália, 2009). Dirigido por François Ozon. Com: Alexandra Lamy, Sergi López, Mélusine Mayance, Arthur Peyret.

Ricky é um pequeno drama familiar que, focado nas inseguranças e temores de uma garotinha que vive com a mãe solteira, acaba encontrando uma inesperada estratégia narrativa para mover seus personagens rumo a uma nova dinâmica em seus relacionamentos – e revelar esta estratégia seria não apenas uma crueldade com o filme, mas também para com o espectador.

Estabelecendo com elegância e economia o cotidiano da pequena Lisa (Mayance) e de sua mãe Katie (Lamy) já nos primeiros minutos de projeção, quando vemos as duas se preparando silenciosamente (e em total sintonia) para um novo dia, o cineasta francês François Ozon aproveita estes momentos também para ilustrar a fragilidade emocional da adulta, que, justamente por seus despreparo diante do mundo, inspira a filha a adotar uma postura melancolicamente precoce – e quando Lisa observa cuidadosamente a mãe partir antes de entrar em sua escola, temos a clara impressão de que é a garotinha quem se preocupa em proteger a mãe, não o contrário. Da mesma forma, quando Katie atrasa horas ao buscar a filha, a menina mantém uma calma resignada, deixando óbvio para o espectador que aquilo provavelmente já ocorreu dezenas de vezes.

É então que o espanhol Paco (López) entra na vida das duas francesas, despertando a sensualidade da mãe e a desconfiança da filha. Cronicamente carente, Katie evidentemente se sente feliz ao ver-se desejada – mas é justamente esta carência, associada à sua terrível imaturidade, que a leva a apresentar Paco precipitada e desajeitadamente para a filha, despertando nesta um compreensível medo de abandono e rejeição (algo que Ozon ilustra belissimamente em um plano aberto que traz Lisa, pequena e sozinha em uma janela de ônibus, observando o novo casal enquanto este se afasta sorridente em uma moto, ignorando-a completamente).

Mas é quando Katie dá à luz ao irmão de Lisa, batizado por esta de Ricky (Peyret), que Ozon começa a puxar uma série de ases de sua manga – e sem revelar muito, posso dizer que as coisas começar a ficar estranhas quando grandes hematomas surgem nas costas do bebê, levando sua mãe a acusar Paco de espancá-lo. Ou teria sido Lisa, justamente com o propósito de provocar o afastamento do padrasto ao mesmo tempo em que descarrega seu ciúme no irmão?

A resposta oferecida pelo roteiro do próprio Ozon a estes questionamentos é o ponto forte de Ricky, mas também seu calcanhar-de-aquiles: se por um lado a surpresa confere um tom divertidamente surrealista a uma narrativa até então naturalista ao extremo, por outro ela é atípica demais para que consigamos simplesmente ignorá-la depois que desempenha sua função – e o que deveria funcionar apenas como um recurso dramático acaba se tornando o centro do filme.

Ainda assim, Ozon se esforça ao máximo para manter o foco no lugar certo, constantemente voltando sua câmera para as reações de Lisa mesmo quando os espectadores certamente esperariam ver mais de Ricky – e, afinal, é à garota que o filme pertence, não ao seu irmão. E, assim, quando os dois últimos planos do longa finalmente amarram a narrativa com a doçura necessária, compreendemos que o personagem-título, com seu caráter de deus ex machina, jamais deveria ter desviado tanto nossa atenção.

Mas ignorá-lo seria tarefa impossível.  (3 estrelas em 5)

 

5)      Polícia, Adjetivo (Politist, adj., Romênia, 2009). Dirigido por Corneliu Porumboiu. Com: Dragos Bucur, Ion Stoica, Vlad Ivanov, Irina Saulescu.

Nos últimos anos, os soberbos A Morte do Senhor Lazarescu e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias foram responsáveis por apresentar para o mundo o “Novo Cinema” romeno: calcadas no realismo, as obras-primas de Cristi Puiu e Cristian Mungiu adotavam uma estética baseada em longos planos-seqüência, na utilização de sons diegéticos no lugar de uma trilha convencional e da contemplação como forma de observar e compreender seus personagens e o mundo que estes habitam. Pois Polícia, Adjetivo, de Corneliu Porumboiu, não se afasta em nada desta lógica narrativa; a diferença é que, enquanto Puiu e Mungiu demonstravam saber empregar esta lógica em prol da história que queriam contar, Porumboiu parece utilizá-la como um fim em si mesma, como se assemelhar-se aos projetos de seus compatriotas fosse o bastante para colocar seu filme no mesmo nível. E ainda que o longa tenha saído premiado na mostra Un Certain Regard em Cannes, atrevo-me a sugerir que o júri talvez tenha se deixado levar pela lógica do “se anda como um pato e soa como um pato, deve ser um pato” – sem notar que a ave em questão tinha chifres, dentes e tetas.

Girando em torno de um policial que recebeu a tarefa de seguir um adolescente denunciado por vender haxixe para os colegas de escola, Polícia, Adjetivo gasta a maior parte de seus intermináveis 115 minutos acompanhando, em planos longuíssimos, a rotina de trabalho de seu protagonista – que, neste caso, é limitada a caminhar lentamente alguns metros atrás de sua presa durante todo o dia. Sim, o propósito desta estratégia é claro: Porumboiu quer que o espectador realmente sinta a natureza entediante e frustrante do trabalho de Cristi (Bucur), especialmente para que percebamos o absurdo de tamanho esforço ser despendido em um caso sem a menor importância (nem mesmo o detetive acredita estar fazendo a coisa certa ao encurralar o jovem). Porém, mesmo depois que este objetivo é cumprido pelo cineasta, a lógica da montagem e da decupagem é mantida, transformando o longa num torturante exercício de paciência.

Com uma fotografia naturalista que usa com propriedade as luzes fosforescentes do ambiente de trabalho de Cristi como forma de conferir uma atmosfera de decadência e tristeza àquele universo, Polícia, Adjetivo conta traz alguns poucos momentos que indicam o potencial que aquela narrativa encerrava, como o instante em que, ao chegar em casa, o protagonista pede que a esposa abaixe o volume do som, sendo prontamente ignorando e resignando-se a isto exatamente como está habituado a resignar-se a todo o resto. Da mesma forma, a direção de arte é impecável ao retratar a sala ocupada pelo detetive como um lugar deprimente, envelhecido e com móveis e equipamentos desgastados pelo tempo.

Infelizmente, a fascinação de Porumboiu por sua própria estratégia de obrigar o espectador a seguir o policial enquanto este segue o adolescente acaba relegando todos os demais elementos ao segundo plano – e, assim, sempre que o filme dá mostrar de estar chegando a algum lugar, voltamos às entediantes caminhadas sem fim enfocadas pela câmera quase estática do diretor (ele se limita a algumas panorâmicas para acompanhar o protagonista; aparentemente, até mesmo os travellings exigiriam uma energia que o cineasta não estava disposto a gastar).

E o mais frustrante é constatar que, em seus 20 minutos finais, Polícia, Adjetivo finalmente ganha impulso numa longa cena que, situada na sala do chefe de Cristi, envolve um diálogo que não apenas justifica o título, como o filme em si (e não posso deixar de apontar que o delegado em questão é interpretado por Vlad Ivanov, o mesmo brilhante ator que encarnou o ameaçador aborteiro de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias). Focando uma discussão que envolve moralidade, ética profissional e, acima de tudo, semântica, a cena não apenas é impecavelmente desenvolvida como ainda serve de preparação para o curto plano que encerrará o filme de maneira irônica e reveladora.

Assim, é realmente uma pena que, para chegarmos a estes 20 minutos de excepcional Cinema, tenhamos que enfrentar uma longa e cansativa (e, de certa forma, literal) caminhada. (2 estrelas em 5)

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cinema | críticas | premiações e eventos

Mostra de São Paulo 2009 - Dia 01

by Pablo 23. outubro 2009 02:02

(A crítica de Substitutos pode ser lida aqui.)

E vamos ao primeiro filme que vi nesta 33a. Mostra:

1)      Oye Lucky! Lucky Oye! (Idem, Índia, 2008). Dirigido por Dibakar Banerjee. Com: Abhay Deol, Paresh Rawal, Neetu Chandra, Archana Puran Singh, Manu Rishi, Richa Chadda, Manjot Singh.

O cineasta indiano Dibakar Banerjee e seu diretor de fotografia Kartik Vijay certamente sabem como criar um filme visualmente envolvente que usa com propriedade as cores, o grão, as composições e a mise-en-scène para contar uma história – e ao longo de suas mais de duas horas de duração, Oye Lucky! Lucky Oye! jamais deixa de ser interessante em seus aspectos estéticos. O que é fundamental, já que seu roteiro (co-escrito por Banerjee) é pavorosamente fraco.

Iniciando com uma razão de aspecto standard (o “Full Screen”) que simula um programa de televisão (no caso, um noticiário policial popularesco ao pior estilo Ratinho), o longa já inicia com uma brincadeira visual bem mais interessante do que o propósito com o qual é empregada – e a partir da narração do apresentador do tal programa, somos apresentados ao famoso ladrão Lucky (Deol), que, capturado pela polícia de Nova Delhi, está prestes a ser apresentado à imprensa quase como um astro. É então que voltamos num extenso flashback à sua juventude e descobrimos o que o levou a se tornar um criminoso: sua incrível cara-de-pau e o sentimento de que tomar para si a propriedade alheia não representa problema moral algum.

Investindo pesadamente num tom cômico, Banerjee cria um filme que, dos créditos iniciais multicoloridos à gritaria com que todos parecem se comunicar o tempo inteiro, esbanja energia – e é exatamente por isso que a narrativa sofre um choque incômodo nos instantes em que o cineasta parece tentar conferir um tom mais dramático à trama, como, por exemplo, ao mostrar o sofrimento de uma mãe ao lado do cadáver do filho (e os chumaços de algodão que saem das narinas do morto tornam a cena ainda mais destoante). Da mesma forma, o tom grandioso com que o narrador anuncia a passagem do tempo revela-se apenas cafona, transformando a tentativa de estabelecer aquela história como uma fábula num fracasso imediato.

Pouco eficazes, também, são os esforços do diretor e de seus montadores de estabelecerem a passagem do tempo através de seqüências de fotografia amareladas – e as insistentes câmeras lentas usadas para enfocar as mulheres que despertam o encantamento do protagonista acabam soando cada vez mais ridículas com a repetição.

Em contrapartida, Abhay Deol (um sósia de Mark Ruffalo) faz um bom trabalho de composição ao retratar de maneira sutil o complexo de inferioridade de Lucky e seus sonhos de grandeza, indicando que sua vida de crimes possivelmente foi motivada pela necessidade de se sentir respeitado. Da mesma forma, o veterano Paresh Rawal acaba se revelando uma espécie de Alec Guinness/Peter Sellers indiano ao encarnar três personagens diferentes: o pai de Lucky, o “mafioso” Gogi e um veterinário que deseja abrir um restaurante – e a caracterização do ator é tão perfeita que confesso só ter descoberto se tratar da mesma pessoa ao ler os créditos.

Mas ainda que tenha seus pontos fortes, Oye Lucky! falha por não ter estrutura narrativa alguma; a história se desenrola de maneira repetitiva e desinteressante sem que o espectador jamais tenha uma clara idéia do propósito por trás de tudo aquilo – e quando o filme se arrisca a copiar uma das cenas mais célebres de Os Bons Companheiros (aquela em que Joe Pesci pressiona Ray Liotta depois que este ri de seus casos), acabamos entrando no território do patético.

Ainda que seja um fracasso interessante, Oye Lucky! Lucky Oye! não deixa de ser um fracasso.

Observação: Embora tenha 127 minutos, o filme aparentemente tinha um intervalo (desnecessário) durante a projeção em sua versão original; o cartão de “Intermission” continua a ser exibido depois de um freeze frame, mas, claro, a narrativa é retomada sem interrupções na projeção brasileira. (2 estrelas em 5)

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cinema | críticas | premiações e eventos

Candidatos ao Oscar de Filme Estrangeiro na Mostra

by Pablo 20. outubro 2009 23:02

Meu amigo folgado Hélio Flores pediu que eu compilasse uma lista dos pré-candidatos a uma vaga na categoria de Filme Estrangeiro no Oscar 2010 que serão exibidos na Mostra deste ano. Resolvi atendê-lo:

A Fita Branca (Das weisse band), Alemanha
Samson & Delilah (Idem), Austrália
Os Infelizes (De Helaasheid der Dingen), Bélgica
Eu Matei Minha Mãe (J'ai tué ma mére), Canadá
Los Viajes del Vento (Idem), Chile
À Procura de Elly (Darbareye Elly), Irã
Backyard (Idem), México
Polícia, Adjetivo (Politist, Adjevtif), Romênia
Enfermaria No. 6 (Palata No. 6), Rússia
Mau Dia para Pescar (Mal Dia para Pescar), Uruguai

Se deixei passar algum, me avisem, por favor.

Update: Mother (Madeo), Coréia do Sul

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premiações e eventos

Guia da Mostra

by Pablo 20. outubro 2009 22:48

O leitor Rafael Lohn me enviou um email bastante gentil, há alguns dias, com um link para um site que criou, "Guia da Mostra". A idéia é fornecer ao usuário uma ferramenta que facilite a criação de uma grade de programação para eventos como a Mostra de São Paulo - e o potencial da idéia de Rafael me deixou empolgado. Como ele pediu algumas sugestões de como melhorar o site, enviei a ele o seguinte email, que compartilho com vocês em parte para que também possam compreender como normalmente monto minha programação:

"Ei, Rafael. Em primeiro lugar, obrigado pelo email gentil. :)

Quanto à sua iniciativa, acho uma excelente idéia. Há oito anos faço esse tipo de planejamento contando com um software tremendamente deficiente: minha cabeça.
 
Como seu site ainda não traz a programação atual, não vi muito sentido em testá-lo ainda (embora obviamente vá fazê-lo quando estiver atualizado), mas pensei em compartilhar com você algumas idéias já de antemão. Se elas já existem e foram implementadas, peço perdão pela repetição: (Update: desde então, o site já publicou a programação da nova Mostra)
 
Como funcionaria um site ideal desses, na minha visão: todos os anos, faço uma pré-seleção de filmes que não quero perder de jeito nenhum e tento encaixar a maioria deles numa grade. Tenho conseguido ver uma média de 5 filmes por dia (mais os dois diários das cabines para imprensa), mas sei que deixo muito filme para trás e que minha grade poderia ser bem melhor. Assim, o que eu gostaria de poder fazer num site seria:
 
1) Selecionar todos os filmes que eu gostaria de ver.
 
2) Selecionar os cinemas nos quais gostaria de vê-los. Isso é importante porque não adianta montar uma grade em que um filme é no Cine Bombril e o seguinte, na Cinemateca ou no UOL. Não daria tempo de ir de uma sessão para outra. Normalmente, restrinjo meu circuito a Bombril, Frei Caneca, CineSesc, Augusta, Reserva Cultural, HSBC. Só vou a algum dos demais quando algum filme realmente importante só será exibido em um deles.
 
3) O site, então, geraria uma grade que conseguisse encaixar a maior parte dos filmes. É importante salientar que, para isso, você teria que equacionar os horários das sessões e tempo de duração dos filmes, já que o software da Mostra impede (com razão) que peguemos ingressos de filmes que se "encavalem" mesmo que por 10 minutos.
 
4) O site listaria, também, os filmes que não conseguiu encaixar. Desta forma, se algum filme realmente importante ficou de fora, eu poderia priorizá-lo (outra função que você deveria implementar, então: prioridade dos filmes para que o site soubesse quais evitar deixar de fora) e ele substituiria algum outro.
 
5) Se durante a Mostra o usuário desistisse de ver algum filme (por descobrir que ele entrará em cartaz em breve; porque ele não chegou e foi cancelado; porque acabou vendo por acaso ao trocar de horário; porque ouviu falar mal dele; porque viu numa cabine de imprensa), ele poderia voltar ao site, retirá-lo da lista e pedir que o site voltasse a gerar uma lista com os restantes para os demais dias da Mostra.
 
Acho que é isso. Se conseguisse fazer com que o site funcionasse desta maneira... uau. Eu recomendaria sua canonização, pois todos os anos levo HORAS E HORAS com este processo.
 
Forte abraço e boa sorte (e parabéns pela iniciativa!)"
 
Update: Já testei o site (que é ótimo) e entrei em parafuso ao ver quantos filmes havia selecionado (só numa primeira visita!) para cada dia. Tenho a leve impressão que não conseguirei assistir a todos...
 

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links | premiações e eventos

Vaga para jornalista

by Pablo 20. outubro 2009 17:47

Você é jornalista recém-formado(a)? Mora em Belo Horizonte? Gosta de Cinema?

Então mande seu currículo com urgência urgentíssima para o Cinema em Cena!

(A vaga para estagiário também continua aberta.)

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editorial

Dexter - 4x01-04

by Pablo 19. outubro 2009 22:47
Sou fã confesso da série Dexter, como sabem, mas até agora não havia sentido impulso de escrever nada sobre a quarta temporada. Não que ela esteja ruim, pois não está. Os personagens secundários continuam interessantes, o envolvimento entre Angel e Laguerta traz boas promessas dramáticas, o retorno de Frank Lundy foi uma boa sacada e Masuka continua divertidíssimo. Por outro lado, não comprei muito a idéia de Quinn como um policial corrupto nem burro a ponto de fazer confidências a uma jornalista. E embora ache John Lithgow um excelente ator, seu "Trinity Killer" me parece um conceito forçado demais; muito melhor era acompanhar a complexidade do Miguel Prado de Jimmy Smits.
 
Ah, mas Dexter... 
 
... este continua soberbo.
 
Ainda assim, foi somente neste quarto episódio da quarta temporada que finalmente experimentei um daqueles momentos arrepiantes que sentimos quando vemos um grande ator no auge de sua forma - e Michael C. Hall demonstrou estar no auge na cena em que conversa com sua vítima da semana e percebe, quase que por acaso, que ama sua família.
 
Sim, descobrir que ama a família e sentiria sua falta caso a perdesse é algo que vem como um (agradável) choque para o protagonista da série. Hall, diga-se de passagem, vem criando um personagem que tem tudo para se tornar um dos mais memoráveis da História da TV norte-americana: é fascinante perceber como Dexter Morgan, no convívio com as demais pessoas, tenta desesperadamente parecer um sujeito normal e inofensivo sem perceber como seus esforços soam artificiais - e para sua sorte, o máximo que seus pares podem concluir é que ele é um sujeito tímido e sem a menor graça, já que a idéia de que ele possa ser um serial killer é ridícula.
 
Por outro lado, o ator passa por uma brutal transformação quando encarna o Dexter dominado por seu "Passageiro Negro": observem como sua expressão se torna concentrada e ameaçadora; seus modos se tornam agressivos (notem como, ao conversar com a vítima, ele a cutuca na testa com uma raiva mal contida e como range os dentes e arregala os olhos em antecipação ao prazer que sentirá ao matá-la). Conciliar os dois Dexters - o pai de família e o assassino - é algo que seria impossível caso estivéssemos tratando de um ator menos talentoso. 
 
E o intrigante é perceber como a criação de Hall se encaixa perfeitamente naquela descrição clássica feita por vizinhos de alguém que se revelou um demente: "Ele parecia tão tranqüilo, tão retraído. Ninguém poderia imaginar que ele fosse capaz de uma coisa dessas!".
 
Se há uma série capaz de rivalizar com meu amor por Lost, esta série é Dexter.

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séries de tevê

The Weight

by Pablo 19. outubro 2009 20:49
The Last Waltz é um filme maravilhoso; uma celebração do rock'n'roll e do prazer da performance. Depois de trabalhar na montagem de Woodstock, cinco anos antes, Martin Scorsese filmou a última apresentação da The Band no Winterland com um planejamento de fazer inveja a qualquer obsessivo-compulsivo - e o resultado não só é um filme contagiante, mas também seminal (e Scorsese posteriormente viria a dirigir outros documentários musicais igualmente eficazes, como No Direction Home e o recente Shine a Light, além de produzir o maravilhoso Lightning in a Bottle, de 2004).
 
Mas talvez o que mais me fascine em The Last Waltz seja perceber como mesmo registrando um longo show ao vivo com o uso de várias câmeras, Scorsese mantém seu estilo inconfundível com planos em movimento elegantes que ajudam a contar a história sem precisar de palavras. E é claro que ao ter a oportunidade de rodar uma das músicas em estúdio, após o show (ele rodou três, na verdade), seu controle absoluto sobre o ambiente permitiu que ele tornasse a cena ainda mais impactante e envolvente.
 
E é por isso que considero o número The Weight uma das coisas mais lindas que ele já filmou:
 

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cinema | música do dia | personalidades | vídeos

Críticas da semana - 16/10/2009

by Pablo 16. outubro 2009 05:39

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críticas | novos filmes

Wes Anderson, um babaca sem consideração?

by Pablo 16. outubro 2009 00:45

Em Hollywood, as pessoas só abrem a boca para dizer o quanto "amaram trabalhar" com fulano, o tanto que "se divertiram durante as filmagens" e "como beltrano é talentoso e engraçado". Assim, quando lemos uma matéria em que vários importantes membros da equipe não hesitam em atirar no diretor - especialmente quando este diretor já é estabelecido no meio -, é impossível deixar de concluir que o sujeito em questão realmente deve ter pisado muito na bola.

Mau sinal para Wes Anderson, portanto.

(Só para constar: o diretor de fotografia do filme, Tristan Oliver (Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais, A Fuga das Galinhas), também fez um papel horroroso ao ofender Anderson desta maneira. Roupa suja se lava em casa. Ainda assim, é impensável que um diretor deixe de pisar no set de filmagem - mesmo no caso do stop motion, que realmente exige uma paciência infinita -, limitando-se a comandar o projeto via email.)

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personalidades

Projeção Digital no Brasil: Caso de Polícia

by Pablo 15. outubro 2009 20:11

O leitor André enviou o link para uma petição online que protesta contra a péssima qualidade da maior parte das projeções digitais no país. Infelizmente, este é realmente um problema sério para qualquer cinéfilo brasileiro. Em Los Angeles, tive a chance de conferir algumas projeções do tipo em salas públicas e particulares (como a da Digital Domain e da Rhythm & Hues) e a diferença é escandalosa.

Não sou um purista. Quando a projeção é boa, o transfer foi feito com capricho e a captação foi realizada com uma fotografia cuidadosa, o digital já consegue rivalizar com a película (especialmente com a chegada da RED e sua resolução de 4K). Mas o que vemos no Brasil é algo digno de um pequeno cineclube da roça, não algo que deva ser exibido para o público em festivais ou mesmo no circuito comercial convencional. 

A petição encontra-se aqui, tem 223 assinaturas (já contando com a minha) e certamente se beneficiará caso ganhe a sua.

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