Gosto de acreditar que sou um sujeito razoável. Quando falo de ética aqui, não se trata de retórica ou de um discurso vazio; acredito fortemente em agir sempre com o objetivo de crescer como indivíduo.
E ouvir/ler críticas, desde que construtivas e ponderadas, fazem parte disso.
Já publiquei neste espaço algumas "cartas" e mensagens enviadas por pessoas que manifestaram carinho por mim e por meu trabalho. Pois hoje recebi um email bastante crítico - e achei que seria no mínimo justo publicá-lo com igual destaque. Especialmente considerando que o autor (desnecessariamente anônimo) o escreveu com visível cuidado e tentando evitar o veneno e a ofensa gratuita. Crescemos não só com o afago, mas também com a bordoada.
E por falar em bordoada...
"Pablo, há alguns anos acompanho
seu trabalho como crítico, de longe é meu favorito quando o assunto é cinema.
Você fundamenta sua opinião e ainda revela, costumeiramente, muito de sua vida
enquanto escreve. Como você mesmo já disse, é profundamente satisfatório quando
um artista revela a si mesmo em suas obras.
Foi com muito prazer que num dia
qualquer, já há alguns anos, deparei-me com seu blog. Saber um pouco do seu
cotidiano, poder ler seu texto e ainda desfrutar de sua sabedoria revelou-se uma
atividade deliciosa, e era uma atividade, porque todo santo dia lá estava eu
buscando atualizações no Diário de Bordo.
Sempre achei pouco produtivo, no
entanto, seu trabalho como crítico de cinema. Não sei se procuro filmes atípicos
demais, ou é realmente parco a quantidade de críticas. Mas as que existem...
Enfim, havia um encanto fazer
parte do seu grupo de leitura, porque mesmo não sendo um leitor a postar
comentários com freqüência, sempre lia o da maioria. Sempre fiquei na dúvida
ainda se compartilhamos opiniões semelhantes ou é sua retórica eficiente, diante
de minha fácil adesão a discussões, quase sempre com a cabeça aberta a novas
opiniões.
Como escreveu um leitor outro
dia, o paraguaio, você é um amigo atípico, um amigo virtual. Sei se tratar de
algo verdadeiro simplesmente por conhecer muito de sua vida e muito de seu
pensamento. Outro dia mesmo, vi no twitter algo referente “as horas” que sempre
chegam. Compreendi a mensagem por ter lido a crítica do filme e a entendi por
passar momentos assim também.
O problema é que o encanto vem se
quebrado nos últimos dias. Dificilmente tenho lido seu blog e frequentemente me
pego pensando “que babaca”. Acredito ter começado tudo quando inventei de abrir
conta no twitter também, há poucos meses. Até mesmo quando você posta o link de
algo do Diário de Bordo, bato o olho e deixo pra ler depois, algo que raramente
ocorre.
Penso ser pelo fato de eu saber o
conteúdo nas poucas palavras usadas no twitter. Penso ser por estar vendo-o com
olhos diferentes. Não, não acho que seja pelo fato de você ser um
“encrenquinha”, haja vista no blog haver as mesmas provocações e a mesma forma
direta de opinar. Não o imagino discutindo algo e, no fim, acabar concordando
com uma opinião diferente da sua, somente o “concordamos em discordar”.
Nem por isso seja esse o motivo
de algo haver mudado na maneira como pareço o ver, agora. Sempre me diverti com
tudo. Ocorre que, no twitter, acredito, passei a notá-lo menos como um amigo
sábio e mais como um moleque. O twitter ocupou o espaço do blog, isso é fato. Só
que me aborrece profundamente essa troca amarga. Menos texto, menos encanto,
menos sabedoria, por mais realismo.
Hoje sei quais sites você entra,
o tipo de bobagem preferida na net, esse tipo de coisa permitida pelo “blog de
140 caracteres”. Preferia não saber e ter meu amigo de antes, mesmo sabendo não
ser ele tão tridimensional quanto o de agora.
Não escrevo requisitando uma
mudança, mas então por que escrevo? Pra azedar alguns de seus minutos? Não.
Faço-o apenas como alguma forma de desabafo. O desabafo de um leitor a um amigo.
Pois é isso que sou. Se por um lado é evidente a importância de sua figura em
minha vida, por outro não represento muita diferença na sua. Não falo isso com
tristeza, apenas com a finalidade de mostrar não estar escrevendo algo chato num
momento de raiva.
Não há raiva, só esse gosto ocre
mesmo. Sei como funciona esse nosso mundo, com novas mídias, e percebo como
nossos ídolos têm sido despidos daquela aura transcendental. Vejo todo dia
artistas discutindo com seus fãs via internet, algo inimaginável tempos atrás.
Isso deveria ser bom, né? Sei lá, muito se perdeu e a realidade é
sempre dura. Virar adulto tem sido duro.
Opto pelo anonimato porque, ainda
que raramente escrevo algo no blog, prefiro evitar um olhar diferente caso nos
encontre pessoalmente, pois imagino que farei seu curso de cinema...
Um grande abraço de quem
não gosta apenas de bons filmes."