Tristeza por um ex-aluno

by Pablo Villaça 3. agosto 2010 23:44
De janeiro de 2009 até agora, 450 alunos (sim, número redondo) passaram pelo meu curso de Teoria, Linguagem e Crítica. Não posso afirmar que me lembro de todos, logicamente, mas posso garantir que gravei a maior parte deles na memória. 
 
Acabo de receber a notícia que um deles cometeu suicídio ontem. Um dos integrantes da inesquecível turma de Porto Alegre. Não vou expor seu nome neste espaço por não saber como sua família reagiria a isso (creio que desaprovariam), mas lembro-me dele como um menino (20 anos) quieto, tímido (ao menos na sala de aula) e que veio conversar comigo praticamente ao fim de todas as aulas para tirar algumas dúvidas ou fazer comentários referentes ao que havíamos acabado de discutir. Lembro-me de brincar com ele por achá-lo muito diferente da foto que exibia no twitter e também por julgar que seu nick não condizia com sua idade. E também lembro-me de que, no último dia de aula, ele chegou com os cabelos completamente alterados em relação aos dias anteriores, o que me levou a brincar com a mudança.
 
20 anos não é idade para morrer. Especialmente desta forma. 
 
É claro que, com tantos alunos, eventualmente eu "perderia" algum. Mas ainda assim permaneço chocado. E entristecido. Muito. Mantenho um carinho imenso por muitas das pessoas que conheci nestes últimos dois anos - e ver uma delas partindo assim é algo que me faz sacudir a cabeça em incredulidade e certa desilusão.
 
Há muito para se viver. Há muito a se descobrir. Nada é tão terrível que não possa ser contornado. Não quando se tem saúde, juventude e amigos.
 
Meu amor vai pra ele e sua família. 

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cotidiano | curso

Nostalgia ou perda real?

by Pablo Villaça 23. fevereiro 2010 03:11

Quando adolescente, troquei muitas cartas. Correspondia-me com meu tio, que morava (e mora) em Salvador, com uma amiga do Rio de Janeiro e, quando viajava nas férias, enviava cartas saudosas para a namorada. Todo o exercício era pensado: não era uma simples questão de botar palavras no papel, envelopar, selar e postar. Não. O simples fato de botar a tinta no papel, escrever de próprio punho, sabendo que aquelas palavras seriam lidas por alguém querido do outro lado... isso mudava a dinâmica. Cada palavra era pesada, escolhida a dedo e medida contra suas colegas de cada lado da frase. Era fundamental ser preciso, dizer o queríamos dizer, mas também da melhor maneira - fosse esta a mais elegante, a mais econômica, a mais sentimental ou a mais contundente.

Isso acabou. Agora, basta entrar no MSN, no Orkut, no Twitter ou no Facebook e disparar uma mensagem rápida para seu alvo. Este a lerá, responderá de maneira igualmente rápida e abrirá outra janela para ver um vídeo no YouTube. Demore 10 minutos para responder e acabará recebendo outra mensagem impaciente criticando sua lentidão. As palavras perderam a importância enquanto meio; já são um fim em si mesmas. Não importa a construção da frase, basta que esta cumpra sua função rapidamente.

Não é que eu sinta falta da demora. Como qualquer um, não consigo me imaginar esperando dias ou semanas por uma resposta. Não. Eu simplesmente sinto falta do romantismo de escrever com cuidado não para o público de um blog, mas para aquela pessoa em específico. De polir cada sentença imaginando a reação que ela terá ao ler o que construí no papel. De embolar o papel, frustrado, ao constatar que aquele parágrafo não saiu como deveria. De abrir a carta-resposta antecipando os tesouros que esta traria.

E era certo que esta não me surpreenderia com um "LOL. Rachei aqui com sua carta. xoxoxoxo".

A carta era uma forma de arte. Não é à toa que temos livros que reúnem trocas de correspondências entre escritores, políticos, cientistas, poetas e seus pares. Esta arte deixou de existir. E também a possibilidade de registro deste vai-e-vem de palavras. Vocês conseguem imaginar algo como "Tuitadas entre Rimbaud e Verlaine"? Ou "Conversas de Lispector no MSN"? 

Amo e abraço a tecnologia. Acredito firmemente que novas mídias são capazes de trazer frutos inesperados. Este post, por exemplo, começou com uma série de twittadas.

Mas é no mínimo revelador que eventualmente eu tenha sentido a necessidade de transformá-lo num post de blog. E é triste saber que jamais poderei envelopá-lo e despachá-lo pelo correio. Meus correspondentes agora são vocês e isso traz muitas alegrias. Mas antecipar o recebimento pelo correio de uma resposta cuidadosamente concebida não é uma delas.

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cotidiano | discussões

Como escrever uma reclamação

by Pablo Villaça 28. janeiro 2010 16:20

O texto abaixo foi enviado por minha querida amiga Ludj ao SAC da Livraria Leitura e postado em seu blog.

"Sua Opinião é muito importante para nós"

"Espero que minha opinião seja mesmo importante, pois por mais de uma vez fui mal atendida ou nem isso na Leitura do Pátio Savassi. No início do mês, comprei um cd para presente: pedi para embalar e o vendedor simplesmente se "esqueceu". Reforcei minha solicitação e ele a fez com tanta má vontade, que faltou deixar o preço no produto. Ontem, tentei em vão procurar um livro e dois atendentes extremamente grosseiros simplesmente se negaram a fazer a consulta no terminal. A primeira disse que "não tinha tempo" e o segundo falou que somente após levantar alguns preços para um cliente. Aguardei, mas ele continuou sua pesquisa e saiu como se eu nem estivesse diante dele. Fui então buscar o título pacientemente na prateleira e, como o mesmo podia constar tanto em literatura brasileira quanto numa sessão de comunicação social, esperei por mais algum tempo por um atendente que pudesse checar se o título estava disponível no local. Só para constar: a loja não estava cheia, com filas quilométricas no caixa. Tive o cuidado de evitar o tráfego intenso de pais em busca do material escolar. Ao sair, depois de quase 20 minutos sendo solenemente ignorada, perguntei a uma funcionária do setor de embalagens pelo gerente. Ela me disse que havia "um papelzinho" para reclamar, se fosse o meu caso. Agradeci e nem procurei o tal formulário evidentemente. Se este canal com o consumidor tiver alguma valia, gostaria de um retorno e uma justificativa plausível para tamanho desrespeito. O fato de ser uma megastore não justifica péssimo serviço, pois tenho o cartão fidelidade da Livraria Cultura em São Paulo - que é bem maior que a Leitura - onde sou tão bem atendida, que saio da loja com mais livros do que imaginava adquirir. Se a megastore em Belo Horizonte não tem condições de prestar a mínima atenção ao consumidor, como tenho notado e sentido, não irei mais me submeter ao masoquista ato de comprar na Leitura. Atenciosamente, Ludmila Azevedo"

E-mail enviado agora para o SAC da Leitura. Indignação mode on. Power to the People!

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cotidiano

Meu pai

by Pablo Villaça 25. janeiro 2010 21:26

Depois de gravar o áudio sobre O Segredo dos Seus Olhos, no qual comentei sobre o fato do filme me levar a uma série de reminiscências, passei a pensar em meu pai. De certa forma, ele está sempre em minha mente, já que uma de minhas grandes epifanias durante a terapia foi perceber o óbvio: que sua morte precoce foi responsável por dar origem a uma série de neuroses, medos e inseguranças que carreguei (e carrego) ao longo dos últimos 30 anos. Dito isso, embora ser órfão de pai não seja algo que jamais consigamos esquecer, não é comum que eu passe horas a fio pensando no velho Geraldo.

"Velho Geraldo". Quem dera isso fosse verdade. Morto em 1980 em um acidente de carro, meu pai tinha 40 anos quando deixou minha mãe viúva, aos 27, e com dois filhos pequenos para criar. Ele nunca teve a chance de envelhecer - ora, estou quase atingindo a idade que ele tinha quando morreu. Ainda assim, pensar no meu pai é algo que automaticamente me leva a assumir uma postura infantil, como se ele fosse essa figura paterna intocável, de autoridade eterna, e eu fosse instantaneamente devolvido aos 5 anos que tinha quando o perdi. Isto se contrapõe à minha relação com minha mãe, que aprendi a conhecer profundamente ao longo das décadas e que se tornou mais do que uma guia, mas uma grande e amada amiga.  

Não sei quem era meu pai. Ou melhor: sei aquilo que descobri através de terceiros. Era um homem divertido, mas explosivo (não com a família, mas com estranhos); era um trabalhador incansável, workaholic (o que herdei), mas notório pão-duro (o que não herdei, infelizmente). Era um pai carinhoso, mas que viajava mais do que o ideal. Tinha um imenso coração e se esforçava ao máximo para ajudar desconhecidos em necessidade (advogado, era extremamente comum ter clientes que o pagavam em milhares de prestações ou que acabavam representando serviço pro bono), mas era politicamente conservador - um homem de direita.

E morreu moço.

Tenho algumas poucas lembranças de meu pai: um passeio de bicicleta, um pequeno acidente de carro enquanto me levava para a escola, uma festa de aniversário. Mas a lembrança mais marcante que tenho é da notícia de sua morte: sem saber exatamente o que acontecia, lembro de ver minha mãe chorando e de experimentar uma terrível inquietação com seu sofrimento. Lembro de um tio nos visitar e comentar com meus primos baixinho, sem saber que eu ouvia: "Tadinho dele; o papai dele morreu". Mas não me lembro de realmente compreender o que significava tudo aquilo, que nunca mais veria meu pai.  

É estranho: se ele não tivesse morrido, eu certamente seria uma pessoa completamente diferente. Para começar, as inclinações esquerdistas de minha mãe talvez não tivessem exercido tamanha influência sobre mim. (E eu hoje talvez fosse eleitor do Serra, quem sabe?) Possivelmente não teria largado a faculdade de Medicina para me dedicar à escrita e ao Cinema. E, claro, meu amado irmão caçula, fruto do segundo casamento de minha mãe, não existiria. Ao mesmo tempo, é claro que eu gostaria que ele ainda vivesse. Não sei como tudo se encaixaria, mas não gostaria de ter perdido meu pai tão cedo, já que isso gerou um vazio que ainda hoje luto para preencher.

Por outro lado, de certa forma ele nunca nos abandonou. Quando tinha pouco mais de um ano, Luca me pegou de surpresa ao ver uma foto de meu pai e identificá-lo como "vovô" (algo que narrei nesse post) e, sinceramente, acredito ser um pai melhor justamente por não ter tido a chance de conviver com o meu. Mas tê-lo perdido aos 5 anos não é - e provavelmente nunca será - algo com o qual eu consiga lidar confortavelmente.

Como diria Kurt Vonnegut: "Coisas da vida". 

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cotidiano | Luca & Nina

Final perfeito

by Pablo Villaça 7. novembro 2009 21:58
O caso da estudante que, por ir para a aula com uma minissaia, foi moralmente linchada por seus colegas universitários ganhou um final perfeito: a UNIBAN, instituição que serviu de palco para o absurdo, decidiu punir com a expulsão a pessoa responsável pelo embaraçoso incidente: a aluna.
 
Sim, a aluna. A mesma que teve que ser escoltada pela polícia para fora do prédio da universidade para não ser agredida pelos colegas. 
 
Já escrevi sobre o caso aqui, mas vale investir mais um post no assunto em função da justificativa fornecida pelos diretores da UNIBAN para a expulsão (grifo meu):
 
"(...) a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar". Eles foram além e expandiram o argumento, ponderando que a moça, que usava "trajes inadequados", "provocou os colegas ao fazer um percurso maior que o habitual, desrespeitando princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade".
 
Sensacional. Em outras palavras, a justificativa oficial da UNIBAN para expulsar uma aluna é a seguinte: "a garota passeou com as coxas à mostra pelo prédio".
 
Que sirva de precedente para todos aqueles que virem uma mulher usando roupas mínimas rebolando por aí: agredi-la verbalmente e ameaçá-la de estupro é uma "defesa da ética, da dignidade e da moralidade".
 
Ah, sim: e apedrejá-la provavelmente lhe renderá créditos adicionais na UNIBAN.
 
(Update: Parabéns aos estrategistas da instituição pela inteligente decisão de anunciarem a expulsão no sábado à noite. Este é notoriamente o melhor dia - assim como a sexta à noite - para divulgar informações que não queremos ver repercutindo. Claro que o que chamo de "inteligente" outros poderão classificar como "canalhice" ou "má-fé". Bobinhos.)

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cotidiano

Intervalo para um breve comentário sobre as mulheres

by Pablo Villaça 30. outubro 2009 01:57

Estamos no fim de 2009. Já se foi o tempo em que o mundo aceitava que as mulheres fossem tratadas como escravas dos homens em qualquer esfera imaginável: sexual, profissional, doméstica, etc. Elas conquistaram o direito de voto. Lutaram para que pudessem ser vistas como iguais, não como seres biológica, intelectual e moralmente inferiores aos homens - estes, sim, criaturas notavelmente atrasadas. Dominaram o mercado de trabalho. Batalharam pelo direito de não serem hostilizadas ou consideradas putas apenas porque se liberaram sexualmente. A pílula, antes tabu, hoje é distribuída pelos governos mais esclarecidos. E se antes o lugar da mulher era "na cozinha" e cuidando da casa e dos filhos enquanto esperavam o maridinho chegar em casa para o jantar, hoje elas estão nas faculdades, tornando-se profissionais tão ou mais capacitadas do que aqueles que antes as dominavam e controlavam à base de força e preconceito.

Lindo.

Claro que elas ainda recebem, em média, bem menos do que seus colegas do sexo masculino para desempenharem as mesmas funções. Continuam a ser vítimas de estupro e violência doméstica em todo o mundo. Ainda estão longe de conseguirem representatividade nos governos da maior parte dos países.

Ah, mas estamos evoluindo, certo? As novas gerações concluirão o trabalho, esclarecidas como são, não é mesmo?

Oh, sim, evidente. Desde que uma mulher não se atreva a usar uma minissaia em uma faculdade, pois então será imediatamente seguida por uma turba de universitários aos gritos de "Puta! Puta!" até ser retirada do prédio sob escolta policial, num linchamento moral que remete à Inquisição. Os mesmos estudantes que, numa discussão de bar, certamente diriam que a prática do apedrejamento de mulheres "desonradas" em certos vilarejos muçulmanos é um "absurdo", "coisa de bárbaros", não hesitaram em atirar pedras verbais e morais numa colega que se atreveu a mostrar as coxas. Como ela pôde fazer isso? Conspurcar um ambiente sacrossanto com suas formas femininas, que todos sabem ser pecaminosas por natureza? Destruam-na! Humilhem-na! Impeçam-na de retornar ao convívio dos Bons! Se matá-la é impossível, assassinemos seu espírito! E se alguém questionar esta atitude, afirme que ela também "fez outras coisas", além de usar a minissaia - afinal, isto justificaria tudo, certo?

Não sei o que dizer, sinceramente. A cada vez que sinto-me ingenuamente tentado a acreditar que o mundo está melhorando, mesmo que a passos de tartaruga manca, sou trazido de volta à realidade. Um dublador que se recusa a emprestar sua voz a um ator num filme sobre homossexuais. Um pastor evangélico que prega, para um grupo de crianças, que a homossexualidade é uma doença. Uma jovem verbalmente queimada em praça pública por usar uma saia 10 centímetros menor do que o esperado.

Chega a doer, esta descrença na Humanidade. Mas se os nossos jovens agem assim, que direito tenho de sonhar num mundo mais iluminado para meus filhos?

Para encerrar, sei que este blog tem um número de acessos imenso. Tenho orgulho disso. E sei que conquistei esse "leitorado" não apenas em função do que escrevo, mas por respeitar quem me lê.

Mas há momentos para exceções e há aqueles que não merecem respeito algum.

Estatisticamente falando, é impossível que não haja um único leitor que estude na faculdade de São Bernardo do Campo  (Uniban) na qual o incidente (eufemismo) ocorreu. E provavelmente há muitos que conhecem alguém que lá estude. Pois para aqueles que participaram daquela "mobilização", digo sem reservas: vocês são uns imbecis. Uns Neandertais. Um desperdício de oxigênio. Aliás, mais do que isso: são desperdício de pele. Todos que tomaram parte daquele ato vergonhoso deveriam ser esterilizados para que seus genes defeituosos não fossem transmitidos para as novas gerações como uma doença capaz de arruinar a Humanidade. Vocês desafiam o conceito de Evolução. 

E se você é mulher e se juntou à turba... Deus. Ainda bem que Rosa Luxemburgo, Simone de Beauvoir e Betty Friedan estão mortas e não tiveram que testemunhar seu legado sendo usado para que companheiras de sexo agissem com a mesma mentalidade símia dos machos que por tanto tempo aprisionaram seus corpos e espíritos.

(P.S.: Se no intuito de mostrar que você é esclarecido e evoluído resolveu defender a jovem chamando aqueles que a xingaram de "viados"... má notícia: você também é um imbecil.)

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cotidiano

O que Hitler e o Pica-Pau têm em comum?

by Pablo Villaça 11. outubro 2009 04:13

Aparentemente, são ótimos garotos-propaganda para a venda de DVDs.

(Foto tirada em loja localizada no primeiro piso do Pátio Savassi, em Belo Horizonte.)

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cotidiano | variados

O problema do Brasil

by Pablo Villaça 7. outubro 2009 15:20

O problema do Brasil reside nos brasileiros. Êta, povinho que adora falar mal da própria terra. Este complexo de colônia (que, vale dizer, BH também tem em relação a São Paulo e Rio) é algo não só irritante, mas tremendamente injusto.

Caso em questão: pela segunda vez consecutiva, meu vôo da American Airlines de Miami para o Brasil atrasou bastante. E também pela segunda vez consecutiva a empresa solicitou que os passageiros mudassem de portão de embarque na última hora. Desta vez, do E8 para o D22.

Besteira? Pois uma coisa que você precisa entender sobre o aeroporto de Miami é que ele é gigantesco. Se a mudança fosse do E8 para o E22, a caminhada já seria considerável; como também tivemos que mudar de ala, tornou-se uma maratona. Para que tenham uma idéia, andando em ritmo acelerado gastei 15 minutos para ir de um portão a outro - e imaginem o sofrimento e a lentidão dos passageiros mais velhos ou que enfrentavam algum tipo de problema de locomoção. No trajeto, nada de esteira rolante ou de qualquer auxílio por parte da companhia aérea - a não ser, claro, que você fosse um cliente platinum.

Mas não parou por aí. Quando já nos encontrávamos no avião, recebemos ordens de desembarcar, já que problemas não esclarecidos exigiam a troca de aeronave. Um acaso, um incidente isolado? Pois a mesma coisa aconteceu comigo da última vez. E novamente tivemos que esperar mais de uma hora até que o outro avião chegasse ao portão de embarque.

Mais: uma de minhas malas chegou com o fecho arrebentado e semi-aberta. Pergunto novamente: incidente isolado? Pois minha colega Luisa, que voltou três dias antes de mim, teve suas duas bagagens extraviadas - e quando finalmente as recebeu, uma encontrava-se terrivelmente danificada. Adiantou reclamar com a American Airlines? Claro que não; eles não se responsabilizam por danos à bagagem (em Los Angeles, pedi que colocassem um aviso de "Frágil" nas malas e fui informado de que não faziam mais isso, já que não assumiam qualquer responsabilidade por estragos ocorridos. Sim, os responsáveis pelo transporte de seus pertences não garantem que irão mantê-los íntegros.).

Já no avião, a aeromoça norte-americana revelou-se sempre ríspida e impaciente; a brasileira tratava todos com imensa cortesia.

Você certamente deve imaginar que, a esta altura, todos os passageiros encontravam-se revoltados, enraivecidos, certo? Errado. Nem um sopro de protesto. Bastou chegarmos ao aeroporto de Confins, porém, para que o acúmulo de passageiros do vôo em volta da esteira de bagagens causasse um caos:

- Puta merda, só no Brasil mesmo! - reclamou um.

- É, voltamos ao Brasil! - ironizou outro.

- Nada funciona direito nesse país! - xingou um terceiro.

E por aí afora. Acreditem ou não, até o presidente Lula foi responsabilizado pela lotação da sala de bagagens. (Talvez a mulher que insistia em xingar Lula em voz alta quisesse apenas se fazer ouvir por Hélio Costa, que viera conosco no vôo, mas ainda assim foi patético.)

Minha reação? Eu mal podia conter a felicidade por estar de volta ao Brasil. 

E não, não apenas porque iria rever meus filhos, mas porque estava farto dos Estados Unidos depois de passar três semanas em Los Angeles (somando os 10 dias que lá permaneci no final de julho/início de agosto, vivi mais de um mês naquele país, em 2009).

Não me interpretem incorretamente: tenho imensa admiração por grande parte da cultura norte-americana. No entanto, não há como negar que os estadunidenses são, em grande parte: a) grosseiros; b) impacientes; c) arrogantes; d) conservadores; e e) sim, incultos. A motorista da van (uma bela grega) que me levou para o aeroporto, por exemplo, disse que voltará para seu país na próxima semana depois de permanecer 15 anos nos Estados Unidos: "Não aguento mais esse povo. A impressão é a de que você está sendo controlado o tempo inteiro; não há espaço para a espontaneidade ou para a individualidade. Se você não pensa como a maioria, é um pária. Não quero ter filhos aqui".

Mas é o Brasil que não presta. Aqui é que as coisas não funcionam.

Pois querem ouvir um absurdo? Fui ao Citibank, em Los Angeles, para pagar duas contas do InFilm. Não consegui. Como uma pertencia ao Wells-Fargo e outra ao Bank of New York, eu teria que ir a estes bancos para pagá-las, embora tivesse o invoice em mãos com código de barra e tudo mais. Fora isso, só pagando pela Internet. (Sim, você leu direito: nos Estados Unidos, os bancos só recebem contas que eles mesmos controlem, não de outros bancos.)

Mas é o Brasil que é atrasado.

Andando pelas ruas de Los Angeles - mesmo na riquíssima Rodeo Drive -, é assustador perceber o número de imóveis residenciais e comerciais com anúncio de "aluga-se" e também as várias lojas com avisos de "Going out of Business". Nas ruas, mendigos sem-teto andam conversando sozinhos.

Mas é o Brasil que, mesmo não afetado pela crise mundial, tem uma economia atrasada.

O aeroporto de Miami e a American Airlines pintam e bordam com os passageiros repetidas vezes, mas é a esteira de bagagem do aeroporto de Confins que desperta a revolta dos brasileiros. O Brasil é um país perfeito? Não, longe disso. Mas basta passar um tempo no exterior para perceber como somos bem melhores do que nos consideramos.

Apesar do povinho bunda.

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cotidiano

Toy Stories, Píer Santa Mônica e Saudades

by Pablo Villaça 5. outubro 2009 05:24
Fundado em 1926, o El Capitan é um cinema importante não só na história de Los Angeles, mas também na da Sétima Arte de modo geral: foi lá, por exemplo, que Orson Welles promoveu a première mundial de Cidadão Kane quando nenhum outro exibidor aceitou o risco de provocar a fúria do magnata da mídia William Randolph Hearst, com quem o cineasta vinha travando uma batalha pública desde que o outro se dera conta de que Kane nada mais era do que uma ficcionalização de sua própria vida.
 
Assim, quando entrei no cinema no sábado pela manhã para assistir à sessão dupla de Toy Story e Toy Story 2 em 3D, não estava ali apenas para conferir a nova versão dos belíssimos filmes de John Lasseter, mas também para respirar um pouco da História do Cinema. Onde teria sentado Orson Welles naquela noite específica? Será que ele tinha alguma idéia de que estava lançando um clássico que se tornaria referência absoluta nas décadas seguintes? O que teriam dito os espectadores enquanto se encontravam no hall, após a sessão?
 
 
Logo, porém, tive que abandonar estes exercícios de imaginação pois a cortina vermelha havia sido aberta e You've Got a Friend In Me, de Randy Newman, começara a tocar. A platéia, repleta de adultos e crianças (muitas caracterizadas como seus personagens favoritos, desde Woody e Buzz até a cowygirl Jesse e - para minha surpresa - os pequenos aliens verdes que se submetem ao "Garra"), começou a aplaudir enquanto, no palco, versões de "carne-e-osso" de Woody, Buzz e Jesse dançavam desajeitada e alegremente. A coreografia, claro, logo descambou para aquele clichê musical norte-americano dos braços dados e pernas atiradas para o alto, culminando numa chuva de papel picado sobre a platéia, mas a energia das crianças, que vibravam com tudo, tornou aquele momento particularmente memorável - e senti uma dor quase física por não ter meus pequenos ao meu lado naquele instante. 
 


Encerrada a dança, a tela se iluminou e vimos o trailer de Toy Story 3 - e em 10 segundos, ao ver Andy indo para a faculdade e os brinquedos sendo abandonados, percebi que estava chorando. Sim, talvez eu esteja excessivamente sensível em função da saudade que estou sentindo das crianças, mas é igualmente possível que a Pixar tenha acertado em cheio mais uma vez com a premissa do filme, não?
 
Seja como for, a sessão foi um sucesso: despertando risos e aplausos durante toda a projeção, o El Capitan exibiu jogos de perguntas e respostas na tela durante os 10 minutos de intervalo - e fiquei impressionado ao perceber que Tim Allen e Joan Cusack emprestaram suas vozes para as pequenas vinhetas que serão exibidas apenas durante estas sessões especiais dos longas. Quanto à tridimensionalização dos filmes, só posso dizer que foram muito bem sucedidas, despertando minha curiosidade para as possibilidades deste tipo de renovação. E se isto se tornar uma nova tendência? E se grandes clássicos forem submetidos a este tratamento? Sim, parte de mim se arrepia só de pensar nisso, mas outra parte, confesso, tem certa curiosidade em conferir os resultados de versões 3D de obras como 2001, Fantasia e, por que não, O Poderoso Chefão. (E isto partindo de alguém que sente profundo desprezo por modificações como colorização de filmes em preto-e-branco e a conversão de obras em widescreen para o formato 4:3.)


Após a sessão, claro, a saída levava diretamente à loja da Disney, que também administra o El Capitan há vários anos (quando não está exibindo os novos projetos do estúdio, o cinema programa clássicos; na semana passada, por exemplo, Branca de Neve estava em cartaz). Ali, as crianças enlouquecidas pressionavam seus pais para que comprassem algum dos diversos produtos Toy Story estrategicamente espalhados pelo salão. 
 
E como eu queria ter enfrentado esse tipo de pressão naquele momento. 

Já no domingo, resolvi fazer um passeio de improviso e fui até o píer de Santa Monica para assistir a um outro tipo de espetáculo: o pôr-do-sol. Eu já vira o Sol se por ao lado do letreiro de Hollywood duas vezes ao visitar o Observatório Griffith: uma levado por Ana Maria Bahiana, em agosto, e a mais recente na semana passada, ao assumir o posto de guia turístico diante de minha colega de InFilm Luisa, que se encontrava em Los Angeles pela primeira vez. Porém, aquela visão, maravilhosa como era, empalideceu diante do que vi no domingo.
 
  
 
Em primeiro lugar, é preciso descrever o choque térmico que senti ao chegar ao píer. Los Angeles tem se revelado uma cidade absurdamente quente nestas minhas duas estadas - e, assim, desta vez nem mesmo incluí um agasalho em minha bagagem. Ao chegar ao píer de Santa Monica, porém, o vento cortante e gelado me fez tremer, me obrigando a comprar uma blusa de frio numa lojinha estrategicamente localizada ao lado do parque ali instalado (e a julgar pelo número de pessoas que usavam agasalhos idênticos ao meu, suponho que muitos outros foram surpreendidos pelo vento). 
 
Caminhando sobre as tábuas do píer, imediatamente notei a estranha proximidade das gaivotas: assim como os esquilos do Central Park, em Nova York, que se aproximavam dos humanos sem o menor receio justamente por estarem habituados a serem alimentados por estes, as aves do píer chegavam ao ponto de bicarem alimentos estendidos pelos turistas - e o mais incrível: enquanto aparentemente flutuavam no ar. Sim, flutuavam: como o vento ali é fortíssimo, os pássaros conseguem ficar praticamente parados em um mesmo ponto apenas com um levíssimo bater de asas disparado contra a direção do fluxo do ar, como um beija-flor. Assim, descem lentamente até os visitantes enquanto bicam as guloseimas, o que resulta numa imagem estranha e bela.
 
 
 
Mas por que perder tempo com descrições se as imagens podem falar por si mesmas? Peço perdão apenas pela baixa resolução das fotos, já que o iPhone é conhecido por ter uma camerazinha bem chulé (todas as imagens deste post podem ser ampliadas com um clique).

 

Mas, mais uma vez, embora tenha achado a experiência incrivelmente agradável, não consegui curtir como gostaria aquele passeio: sim, queria Luca e Nina ao meu lado ali, vendo o Sol e pedindo para que eu comprasse ingressos para a montanha-russa e a roda-gigante. E, com isso, cheguei a uma conclusão importante: depois que me tornei pai, deixei de ser um indivíduo. Agora sou composto por três partes - e quando uma ou mais destas partes estão distantes, tudo se torna inevitavelmente incompleto; o que normalmente despertaria alegria e prazer fica abafado pela saudade e pelo sentimento de que pedaços importantes de mim não estão ali para curtir tudo aquilo.

Quando estou longe dos meus filhos, sinto como se parte da minha alma tivesse sido amputada.

E se você já ouviu falar de "dor fantasma", sabe que, mesmo ausentes, aqueles membros amputados continuam a doer terrivelmente.

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cotidiano | Luca & Nina | viagens

Rapidinhas

by Pablo Villaça 29. setembro 2009 16:37

Ontem à noite fui ao Arclight, um dos melhores cinemas de Los Angeles, para assistir a Bastardos Inglórios e ao novo filme de Michael Moore (o primeiro é razoável; o segundo, muito bom). No intervalo entre os filmes, reparo num oriental baixinho, já meio velhinho, passando ao meu lado em direção à saída. 

Sulu.

Fiquei parado por vários segundos tentando decidir se o abordava ou não. Por um lado, ali estava um dos oficiais da Enterprise original; por outro, ele estava ali se divertindo como todo mundo, não a trabalho - era George Takei, o "civil", não o ator. Por fim, resolvi que seria inapropriado incomodá-lo. Já com mais de 70 anos, Takei não só é um ícone da ficção científica, mas também um louvável ativista do movimento gay (é casado há mais de 20 anos com seu parceiro Brad Altman) e, assim, merece meu duplo respeito.

O que inclui deixá-lo ir ao cinema em paz sem ser incomodado por um crítico de cinema fãzóide.

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cinema | cotidiano | personalidades

Cansado em Los Angeles, Desabafando de Madrugada, Esperando Retaliações

by Pablo Villaça 23. setembro 2009 03:18

Estou ausente deste blog? Sem dúvida. Fiquei sem escrever críticas nas duas últimas semanas? Sim.

Mas em 15 anos como crítico de cinema e em quase 12 anos de Cinema em Cena, vocês podem contar nos dedos da mão esquerda do Lula quantas vezes eu tirei férias ou me ausentei do site. Workaholic por natureza, sempre trabalhei como um cavalo - e se nas últimas semanas escrevi menos posts e críticas, não é porque me entreguei à vagabundagem. Ao contrário; o sentimento de exaustão física, mental e emocional que estou experimentando neste momento chega a ser difícil de descrever. 

Como devem imaginar, assumir um cargo novo numa empresa ambiciosa como o InFilm não é brinquedo - e além de atuar na operacionalização de vários aspectos do negócio, ainda passei as duas últimas semanas fechando os detalhes mais cabeludos do programa Como Filmes e Programas de TV São Realmente Feitos. Em seguida, vim para Los Angeles pela segunda vez em um mês e meio, numa viagem absurdamente exaustiva, e já mergulhei no evento não apenas como um de seus "guias" (na falta de termo melhor), mas também como responsável por registrar da maneira mais fiel possível o que ocorre a cada dia

E tudo isso longe de minha família - e se há algo que vocês já devem saber a esta altura é que ficar longe de meus filhos é um sofrimento que, para mim, chega a representar uma dor física. Falar e vê-los pelo Skype até poderia ser um paliativo caso eu não percebesse que ver o "Papai" através da tela do computador é algo que não só não diminui a falta que os pequenos sentem de mim como ainda a intensifica por escancarar a distância - e ver Nina, por exemplo, esticando os bracinhos para vir para meu colo do outro lado da tela é de partir o coração.

É claro que vocês não têm nada a ver com meus "problemas"; o que interessa é que eu entregue críticas e textos de boa qualidade. Por outro lado, é justamente isso que me faz ficar profundamente chateado ao ler comentários do tipo "Arranje outro crítico para o Cinema em Cena!", "Se não pode escrever, deixe para outro", e por aí afora.

Ora, que a modéstia vá para o Inferno; se cheguei onde cheguei é porque tenho textos de ótima qualidade e com análises mais profundas e abrangentes do que normalmente se vê por aí (embora, claro, haja outros grandes críticos que provavelmente me deixam no chinelo. Pelo menos, reza a lenda.) Então não consigo entender este clamor por um substituto: se o que você quer é apenas outro texto sobre cinema, há algo novo chamado Internet que contém talvez algumas dezenas de textos sobre o assunto, possivelmente até uma ou duas centenas. Procure-os. Porém, se o que você deseja é ler mais textos meus, bom... então não entendo como um "substituto" poderia suprir esta demanda.

Ainda assim, fiquei simultaneamente triste e lisonjeado ao ler as reclamações de vocês - triste porque não gostaria que estivessem insatisfeitos; lisonjeado porque estão reclamando justamente por sentirem falta dos meus textos. E não há elogio maior para alguém que vive da escrita do que receber pedidos de "queremos mais".

E eles serão atendidos.

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cotidiano | Luca & Nina | variados

Três-Cinco

by Pablo Villaça 18. setembro 2009 11:47
E a sensação habitual ao acordar nos aniversários pós-30: "Fuck!".

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cotidiano

O Clube do Filme

by Pablo Villaça 2. setembro 2009 13:01
Abandonado este blog não está e nunca será. O que pode acontecer, de quando em quando, é uma ausência temporária que jamais durará mais do que três ou quatro dias - mas esse tipo de "férias", como vocês sabem, é raro e continuará sendo. Nos últimos dias, aliás, não atualizei o blog por pura falta de tempo, já que, além das obrigações administrativas relacionadas ao Cinema em Cena e ao InFilm, ainda tive que me submeter a um exame de controle da retocolite - algo que envolve até mesmo sedação (que adoro, diga-se de passagem; caso tivesse me formado em medicina, jamais poderia ser anestesista, pois creio que engrossaria as estatísticas dos médicos viciados). A boa notícia é que, pela primeira vez desde que descobri a doença, ela está totalmente sob controle - não há uma única úlcera em atividade.
 
Dito isso, aproveitei as poucas horas vagas que tive nesses dias para ler "O Clube do Filme", que muitas pessoas me recomendaram nos últimos tempos - tanto por email quanto pelo twitter.
 
Infelizmente, não gostei nada do trabalho de David Gilmour.
 
Ex-apresentador de um programa sobre cinema, Gilmour relata, no livro, uma fase em que se encontrava em dificuldades financeiras após o fim do programa e que coincidiu com os graves problemas que seu filho Jesse passou a enfrentar na escola. Sem saber como estimular o rapaz a estudar, David toma a decisão de permitir que ele abandone os estudos desde que concorde em assistir a três filmes por semana ao seu lado. A idéia é que o Cinema oferecerá a Jesse a educação e a visão de mundo que a escola não conseguiu levá-lo a absorver.
 
Interessante? Sim. Possível? Em parte - eu realmente acredito que o Cinema pode ser uma fonte importante de aprendizado. Responsável? De forma alguma; há muitas coisas que só podemos aprender na escola - e não me refiro às disciplinas, mas à importância das regras e ao convívio social.
 
E este é um problema grave em O Clube do Filme. Como pai, não pude deixar de sentir que David, mais preocupado em ser um pai "moderno" e "amigo" (algo que, ironicamente, ele reconhece), se esquece de um conceito importante no que diz respeito à paternidade: o tough love - os momentos em que precisamos ser rígidos justamente por amarmos nossos filhos. Assim, no intuito de se mostrar "aberto", ele divide cigarros com seu filho de 16 anos enquanto ensina o garoto a saborear vinho - e não é à toa que logo Jesse se torna um fumante inveterado e mergulha em repetidas bebedeiras. Porém, em vez de se preocupar com o fato de estar incentivando o filho a poluir o corpo com cancerígenos e a encontrar a fuga para os problemas no álcool, David se limita a repetir os velhos clichês do pai preocupado: "Nada de drogas! Se usar drogas, nosso acordo está rompido!".
 
Mas é claro que um adolescente sem limites como Jesse logo passa a usar cocaína - e o que David faz, então? Honra sua palavra de tornar-se mais duro com o filho por este ter quebrado o acordo? Não. Passa a mão na cabeça do moleque e tenta argumentar com o rapaz. Resultado: eventualmente Jesse vai parar no hospital após sofrer uma taquicardia resultante do consumo excessivo de drogas - e nem assim seu pai decide revisar o contrato feito com o filho. Ora, se os adultos não sentem necessidade de honrar o que dizem, por que um adolescente deveria fazê-lo? 
 
Além disso, por mais que David insista em pintar o filho como um gênio incompreendido, um rebelde que, por ser excessivamente sensível e inteligente, acaba sendo desestimulado por um sistema de ensino convencional, o fato é que a própria narrativa de Gilmour revela Jesse como um garoto medíocre e emocionalmente imaturo (até mesmo para um garoto de 16 anos). Em certo momento, por exemplo, ele pergunta para o pai se "a América do Sul é um país ou um continente" - uma informação que, convenhamos, não é preciso freqüentar uma aula de geografia para aprender, o que indica uma imensa preguiça intelectual por parte do rapaz. 
 
Como se não bastasse, a âncora narrativa do livro - o tal clube do filme - não desempenha papel importante algum na história. Sim, aqui e ali David apresenta (de maneira sempre desorganizada e aleatória) algum longa para o filho, introduzindo a projeção com algumas trivialidades sobre a produção, mas jamais sentimos que estas experiências realmente trazem algum propósito educativo maior. A impressão é apenas a de que David quer uma oportunidade de impressionar o filho (e o leitor) com seus conhecimentos cinematográficos - e se no processo ele conseguir transformar Jesse em um cinéfilo, ótimo. Ainda assim, quando ele faz um "teste" com o rapaz no final do livro e o garoto demonstra conhecer Fassbinder, por exemplo, não conseguimos encontrar, no próprio livro, a origem de tal familiaridade com o cineasta alemão (e muito menos entendemos como isso substitui uma educação "formal").
 
Finalmente, o mais decepcionante em O Clube do Filme é perceber como a visão do próprio David Gilmour é limitada no que diz respeito ao Cinema. Sim, ele parece conhecer o bê-a-bá da Arte e seus nomes e correntes principais, mas de maneira puramente burocrática, acadêmica (no sentido pejorativo da palavra), sem jamais oferecer qualquer interpretação mais complexa ou mesmo menos clichê sobre aquilo que está comentando. Aliás, isto explica por que David se impressiona tão facilmente com os "talentos" do filho, já que também se mostra claramente impressionado com a própria mediocridade.
 
Embora tenha sido escrito com a idéia de relatar uma experiência bem sucedida e edificante, O Clube do Filme me levou a finalizar a leitura com um único pensamento: "Que família triste".
 
O Clube do Filme (The Film Club)
Editora Intrínseca, 2009
239 páginas 

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cotidiano | livros

Em Salvador

by Pablo Villaça 24. agosto 2009 19:22
Depois de pousar em Salvador, passei na casa de meu tio (o mesmo que me hospedou em janeiro) para um almoço rápido com a família e, em seguida, fui para a pousada que o pessoal da Caixa Cultural reservou em meu nome. (Para quem não sabe, vim dar uma palestra sobre crítica a convite do Ciclo Salvador de Cinema.) Ao chegar ao Pelourinho, toquei a campainha da pousada e fui recebido por uma baiana simpática que imediatamente se mostrou surpresa com minha presença.
 
- Pois não?
 
Olhei de novo a placa acima da porta e confirmei estar no lugar certo.
 
- Tudo bem? Eu tenho uma reserva em nome de Pablo Villaça.
 
Ela abriu a porta e me deixou entrar, dirigindo-se rapidamente a uma mesa localizada ao lado da janela que tinha um mapinha da ocupação dos quartos.
 
- Qual seu nome?
 
- Pablo. Villaça.
 
Ela olhou o papel intrigada.
 
- Tem certeza que é aqui?
 
- Ah... bom... eu tinha, mas agora que você falou dessa maneira... não sei mais.
 
Ela riu e jogou o papel na mesa.
 
- Na verdade, não sou eu quem faz isso. É a dona da pousada, mas ela foi em casa almoçar. 
 
- Ah.
 
- Você sabe o nome do seu quarto?
 
- Se eu sei o quê?
 
- O nome do quarto. Aqui os quartos não têm números, têm nomes. Senzala, Colonial, etc.
 
- Ah... só sei que o nome dele é Quarto. O sobrenome eu desconheço.
 
- Jaciara!
 
Assustei com o berro repentino. Ela estava chamando uma colega.
 
- Jaciara, você sabe em que quarto o Pablo está?
 
- Sei, não. Ligou para a dona Marlusa?
 
- Vou ligar.
 
Ela discou alguns números.
 
- Ih, caiu na caixa postal!
 
- Liga pra casa dela!
 
- Ah, é.
 
Discou de novo.
 
- Dona Marlusa? O Pablo chegou aqui. Ele tá em que quarto? Ah, tá. 
 
Desligou.
 
- Você tá no Colonial.
 
Ela me entregou uma chave e, olhando para a escada, disse:
 
- Pode subir ali. Fica à direita.
 
- Vocês têm internet no quarto?
 
- Tem, não. Mas aqui em baixo tem. Fica cheio de gente aqui nas poltronas mexendo na internet.
 
- Ah, ok. Obrigado.
 
Subi e, ao abrir a porta, senti o vapor abafado de um quarto que permaneceu algumas horas fechadas no calor de Salvador. Abri o frigobar para pegar um refrigerante. Vazio. Voltei para a escada e comecei a descer.
 
- Ei! - já gritou a moça, ao ver que eu descia. - Tá precisando de alguma coisa?
 
- O frigobar tá vazio...
 
- Ah, eu sabia que tinha esquecido uma coisa! Quando você sair do quarto eu encho pra você, tá? Mas você quer um suco de maracujá com acerola? Eu faço um pra você rapidinho!
 
- Quero, sim, por favor.
 
Voltei para o quarto rindo comigo mesmo. Há coisas que são inexplicáveis: o mesmo tipo de tratamento que me deixaria enfurecido em qualquer outro lugar... em Salvador me deixa apenas alegre graças à informalidade, à alegria e ao carisma de um povo pelo qual me apaixono um pouco mais sempre que passo por aqui.
 
Além disso, como ficar ranzinza se, ao abrir as portas da varanda do quarto, me deparo com esta vista?


Mais tarde, depois de passar algumas horas trabalhando no saguão do hotel, comprovo que a informalidade do baiano não apenas é geral, mas contagiosa: o dono da pousada, um francês radicado no Brasil há anos (e que fala o português - com sotaque baiano - maravilhosamente bem), se aproxima de mim e diz:

- Rapaz, mas você é estudioso, viu? Se alguém perguntar, eu sou testemunha!

Adoro esse povo, nativo ou importado.

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cotidiano | viagens

Los Angeles - Dia 01

by Pablo Villaça 27. julho 2009 04:12

Embarquei em Miami às 8h25 da manhã (9h25 no Brasil) e, como não havia dormido nada durante as mais de sete horas do vôo anterior, logo apaguei.

Abri os olhos ao sentir uma sacudida mais forte do avião. Ao olhar pela janela, surpreendi-me com o céu terrivelmente acizentado e com os constantes relâmpagos que pareciam surgir a poucos metros do aparelho. Nesse instante, a voz do capitão soou na cabine:

- Aqui é o comandante Bradley. Fomos informados pela torre de Los Angeles que as condições meteorlógicas são das piores possíveis neste trecho. Tentaremos evitar qualquer desconforto, mas é bastante provável que a forte turbulência seja difícil de ser contornada. Peço que mantenham os cintos afivelados.

Gelei. Nunca ouvira um piloto falar desta maneira com os passageiros. Infelizmente, logo vi que ele tinha razão: o avião começou a sacudir de maneira pavorosa enquanto o som alto dos trovões  parecia prestes a romper a janela. Segurei o braço da poltrona com força e, neste instante, um passageiro que se encontrava na fila ao lado foi arremessado para fora de seu assento justamente por não seguir as ordens de afivelar o cinto. A agitação ao meu lado era visível; todos pareciam amedrontados. Olhei para fora mais uma vez e, surgindo de repente no meio das nuvens, uma montanha pareceu passar a apenas alguns centímetros da asa do avião. 

Estávamos bem mais baixo do que eu imaginava.

Como o tremor não parecia ceder, comecei a me preparar para o pior - e este não demorou a ocorrer: subitamente, o aparelho virou de lado e pareceu despencar em direção a outra montanha. Senti um frio terrível na barriga e percebi que iria morrer. Fechei os olhos para não testemunhar o impacto.

E acordei assustado e confuso em minha poltrona.

Depois de alguns breves e tensos segundos, percebi que havia tido um pesadelo - mas, a partir daí, o restante da viagem foi tomado por sobressaltos e pensamentos negativos, embora o céu absolutamente azul e a absoluta ausência de turbulência fossem óbvios. Finalmente, o comandante (cujo nome desconheço) anunciou que estávamos prestes a pousar em Los Angeles. Olhei para fora e tive a impressão de que pousaríamos em Brasília, já que a cidade se estendia em uma longa planície à minha esquerda. Imediatamente senti uma certa decepção ao comparar a experiência ao pouso em Nova York, há cerca de dois anos: naquela ocasião, a visão de Manhattan me fizera perder o fôlego, ao passo que Los Angeles parecia decepcionante em contraste. Ao longe, vi o globo da Universal erguendo-se sobre os prédios que se encontravam ao seu lado, mas nada que me levasse a constatar estar na capital mundial do Cinema.

Depois de pegar a mala, saí do aeroporto e me ofereceram um táxi: ciente de que a corrida daria mais de 50 dólares, recusei a oferta e me dirigi ao local em que um sujeito anunciava uma van (ou "shuttle") por 15 dólares: expliquei que queria ir para West Hollywood e logo estava a caminho, dividindo o banco traseiro com apenas mais um passageiro, um jovem asiático. Na "freeway" que liga as várias regiões de Los Angeles (também neste sentido a cidade lembra Brasília; mas em vez de superquadras, há verdadeiros distritos), notei a mesma ausência de qualquer carro pequeno sobre a qual escrevera durante minha viagem a Nova York: para os norte-americanos, apenas os carros grandes, pouco práticos e imensos consumidores de gasolina parecem servir.

Ainda decepcionado pela paisagem comum, tive uma pequena amostra da história de Los Angeles ao ler uma placa que dizia "Howard Hughes Parkway", já que somente uma cidade como esta poderia homenagear uma figura como Hughes. Ao mesmo tempo, comecei a perceber a abundância (já esperada) de gigantescos anúncios de diversos filmes enfeitando fachadas inteiras de prédios enormes: de Funny People a Força G, passando por G.I. Joe e Harry Potter, as propagandas dos grandes lançamentos pareciam dominar a cidade.  

 

Minha sorte começou a mudar graças ao rapaz ao meu lado: ele estava indo para a UCLA e, com isso, ganhei uma visita ao campus da Universidade. Imediatamente, as imagens de belas e alegres jovens usando shorts mínimos (Los Angeles está mergulhada em calor) passaram a surgir na janela. Estranhei toda aquela agitação, já que o período do verão norte-americano é o de férias, mas logo entendi o que estava ocorrendo quando deixamos o garoto ao lado de uma tenda que dizia: "Arts Camp". Aparentemente, tratava-se de alguma atividade extra-curricular que envolvia coisas como "Acting for the Camera", "Advanced Digital Film", entre outras coisas.

Ao nos dirigirmos para fora do campus, passamos por um imenso campo de futebol no qual dezenas de garotas ensaiavam danças de líderes de torcida.

Só então lembrei-me de ligar minha máquina fotográfica, mas já sem tempo para registrar a imagem. Damn.


Até então, minha imagem de Los Angeles era a de uma cidade habitada apenas por milionários; uma imensa Beverly Hills. No entanto, o que eu via pela janela não correspondia exatamente a esta idéia. Lembrei-me das imensas mansões do bairro Mangabeiras, em Belo Horizonte, ou daquelas ficam ao redor da Lagoa da Pampulha e pensei que em nada deviam àquelas casas que eu via no caminho.

E foi então que entramos na Sunset Boulevard e, pouco depois, em Beverly Hills.

A cada duas esquinas, uma pequena placa anunciava a venda de mapas que indicavam a localização das casas das "estrelas" - e não duvidei que cada uma daquelas mega-mansões realmente abrigasse um Tom Cruise ou um Will Smith. De repente, os milionários do Mangabeiras me pareceram pobretões patéticos. (E eu, claro, me tornei um sem-teto.)

À medida que mergulhávamos em Beverly Hills, eu me sentia mais e mais como Eddie Murphy em Um Tira da Pesada, quando a câmera em ângulo baixo revelava sua reação ao cruzar as ruas da cidade pela primeira vez - e a impressão só se tornou mais forte quando passei a reparar nos carros displicentemente parados nas entradas daquelas casas (em uma delas, vi nada menos do que uma Ferrari e duas BMW e a frase "Não estamos mais no Kansas, Totó" me passou pela mente). Mais adiante, três crianças corriam umas atrás das outras em um belo gramado - uma cena que poderia parecer natural caso elas não estivessem correndo em Segways e não a pé

Já os turistas fazendo poses diante de um imponente edifício que exibia uma bela torre em nada me espantou; isto é, até o instante em que li os letreiros que identificavam aquele "ponto turístico" como sendo o Departamento de Polícia da cidade. Tentei imaginar alguém tirando fotos diante de uma delegacia brasileira, mas logo desisti: era absurdo demais.

Finalmente cheguei ao hotel e, por coincidência, meu colega Jeffrey Wells, do site Hollywood-Elsewhere, acabava de entrar. Informado de que os quartos estavam sendo arrumados e só seriam liberados em duas horas, senti um certo desânimo, mas foi então que Jeffrey, que morou em Los Angeles por mais de 20 anos (atualmente está em Nova York), me convidou para conhecer a cidade, já que alugara um carro. Primeiro, fomos à loja de DVDs e Blu-Rays Laser Blazer, que me impressionou pela diversidade do catálogo. Em seguida, Jeffrey fez uma verdadeira tour que passou pelos principais bairros e distritos que compõem Los Angeles - e de pontos turísticos óbvios a detalhes como a casa em que Marilyn Monroe morreu, vi em poucas horas muito mais do que imaginei que veria durante toda a viagem. Além disso, apaixonei-me pelo cinema de rua que exibia, em sua fachada antiga, o anúncio de que exibiria, em 70mm, Tempo de Diversão e Baraka, além de diversas outras atrações em panfletos despretensiosos afixados na bilheteria. 

  
 
Depois de passarmos pela aconchegante livraria "Book Soup" (8818 Sunset Blvd - West Hollywood), onde acabei comprando três livros, voltamos ao hotel - e foi aí que descobri que a tomada do carregador do notebook não encaixaria nas entradas do quarto. Assim, decidi caminhar até o shopping Beverly Center para comprar um adaptador, divertindo-me, no trajeto, com a nada envergonhada loja de lingerie que anuncia, com orgulho, vender peças "trashy". Reparei, também, que a aparência de prosperidade da cidade não parece ter resistido à crise econômica, já que, por todos os lados, lojas anunciavam seus fechamentos e imóveis traziam anúncios de "aluga-se".
 
 

Mais uma vez de volta ao hotel, fiz um videocast ao vivo e, depois de um longo banho, fui comer algo com meu amigo Josh Ralske.
 
E assim encerrei o primeiro dia em Los Angeles.
  

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