Os filmes de nossas vidas

by Pablo 11. julho 2008 23:36

Roger Ebert pode até não ser o mesmo que era antes de suas múltiplas cirurgias (hoje ele tem uma tendência frustrante de gostar de quase tudo que vê), mas sua sensibilidade particular e seu olhar aguçado para a Humanidade se mantêm intocados. Há poucos minutos, ele publicou em seu blog (claro que assino o RSS) um post intitulado "Os filmes de nossas vidas" no qual discute, entre outras coisas, a maneira com que enxergou A Doce Vida, de Fellini, ao longo das décadas.

Traduzo:

"Vi A Doce Vida pela primeira vez em Londres, no verão de 1962, em um pequeno cinema no Piccadilly Square. Eu dei uma aula sobre ele, analisando-o quadro a quadro, na Universidade do Colorado, em Boulder, em 1972 e depois em 1982, 1992 e 2002, com um ano para mais ou para menos. Já o vi inúmeras outras vezes, mas aquelas exibições a cada década me ajudaram a medir a inexorável passagem do tempo.

Em 1962, Marcello Mastroianni representava tudo o que eu sonhava conseguir. Ele era um colunista de jornal; flertava com mulheres bonitas; ficava acordado a noite toda bebendo e festejando; percorria a cidade testemunhando incidentes interessantes; era um exausto (mas romântico) herói existencial.

Dez anos depois, ele representava o que eu tinha me tornado; ao menos até o limite em que Chicago oferecia as oportunidades de Roma. Dez anos depois disso, em 1982, ele era o que eu havia escapado de ser depois de ter parado de beber excessivamente e de destruir minha saúde. Em 1992, ele era um jovem impulsivo com uma fraqueza pelo romance. Já em 2002, era o herói de um filme clássico, com mais de 40 anos de existência, e que me obrigava a ensinar para o público as virtudes do preto-e-branco. A esta altura, Mastroianni estava morto.

E, ainda assim, o filme não mudou um quadro sequer em todos estes anos."

Belíssimo. E perfeito.

4.5 ponto(s). Avaliado por 11 pessoas

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cinema | clássicos

Comentários

12/7/2008 13:12:12

Matheus Rufino

Perfeito mesmo, isso é a constatação da vivacidade de alguns filmes, que são sempre iguais, mas sempre diferentes. Por que o que da sentido ao filme é o espectador, e enquanto o tiver, o filme estará sempre vivo, sempre mudando, sem mudar um único quadro, como ele disse.

Matheus Rufino br

13/7/2008 21:50:57

Pedro Leandro

Por que apenas um único post para um tema tão bacana e inúmeros para outros tão menos interessantes e mais banais? Recentemente li aqui um a discusssão sobre a idade dos seus leitores e, por consequência, a possível relação que isso possa ter com a qualidade dos comentários aqui postados ( se é que entendi bem). Sem querer fazer qualquer juízo de valor, ( e já fazendo) qual é a parte daquele post que fala a verdade( não falo da idade de quem deixa recados, e sim do que se aproveita de tudo que se lê) e, acima de tudo,até que ponto você está satisfeito com a qualidade intelectual dos comentários aqui postados? Não tenho nenhuma relação com aquelas pessoas que lhe criticaram recentemente sobre esse tema - acredite você ou não - apenas achei pertinente o assunto. É a primeira vez que escrevo aqui e gosto muito do que você escreve. Um grande abraço.

Pedro Leandro br

14/7/2008 10:19:47

Márcio Matos

Puxa, cheguei a ficar arrepiado...

Márcio Matos br

14/7/2008 12:53:28

Mainardi (não o Diogo)

Uma belíssima analogia.

Mas um ponto que me chamou atenção, foi seu comentário inicial "Roger Ebert pode até não ser o mesmo que era antes de suas múltiplas cirurgias (hoje ele tem uma tendência frustrante de gostar de quase tudo que vê)"
Será que você acabará, mais cedo ou mais tarde, gostando de tudo o que vê? Pois em se tratando de cirurgias....
hehehehehe (não me aguentei)

Enfim, estou tentando me habituar a esse novo visual. Para ser franco, esses bichinhos que aparecem são horríveis!

Uma dica: Atualiza o link do Diário de Bordo na barra esquerda do Cinema em Cena. Ele está direcionando ao antigo blog.

Abraço

Mainardi (não o Diogo) br

15/7/2008 8:25:07

Mainardi (não o Diogo)

Relendo meu comentário aí de cima, que besteira eu escrevi, não?
Foi mal. Desculpa.

Mainardi (não o Diogo) br

21/3/2009 10:23:52

Leandro Moraes

muito bom o filme.

Leandro Moraes

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