37)
Nuvem 9 (Wolke 9, Alemanha, 2008). Dirigido por Andreas
Dresen. Com: Ursula Werner, Horst Rehberg, Horst Westphal, Steffi Kühnert.
Aos sessenta e
poucos anos, a costureira Inge (Werner) se descobre, para seu próprio espanto,
atraída por um cliente de 76 anos e, sem pesar muito as conseqüências, se
envolve numa relação extraconjugal, passando a se sentir extremamente culpada
com seu marido, com quem divide uma história de mais de 30 anos.
Logo no início
da projeção, Nuvem 9 já surpreende o
espectador com uma cena nada comum nestes dias de supervalorização da estética
e da juventude: entregando-se à urgência do sexo, Inge e Karl (Westphal)
arrancam suas roupas e se tocam com paixão – e ver mãos tomadas por manchas
senis percorrendo corpos flácidos é, acreditem ou não, uma das imagens mais
lindas que vi nesta 32ª. Mostra de São Paulo, já que o sexo é empregado, aqui,
não como tabu ou algo reprovável, mas sim como uma contagiante expressão de
amor e de reafirmação da vida.
Segundo filme
ao qual assisti em dois dias que lida com os anseios da velhice, Nuvem 9 divide com o bom norueguês O’Horten não só seu tema principal, mas,
curiosamente, também alguns detalhes interessantes como o fato de Werner
(Rehberg) ser, como o personagem-título daquele longa, fascinado por sons de
trens e morar à beira de uma ferrovia. Além disso, ambos os homens vivem a
curiosa experiência de, mesmo em idade avançada, se manterem na posição de
filhos, já que aparentemente vêm de famílias longevas. No entanto, se O’Horten investe num humor satírico e
sofisticado, Nuvem 9 mantém preso à
realidade mesmo quando faz rir (como na cena em que Inge lembra de uma
piada contada pelo amante quando este não consegue ter uma ereção).
Interessante,
também, é notar que o diretor Andreas Dresen emprega, assim como Selton Mello em Feliz
Natal, um auto-exame diante do espelho feito pela atriz
para ilustrar a insegurança com relação ao próprio corpo que surge naturalmente
com a idade – e vale dizer, aliás, que o trabalho da atriz Ursula Werner, que
vai do êxtase à culpa dolorosa, mereceria ser indicado aos principais prêmios
da categoria caso houvesse justiça no mundo.
Prejudicado
apenas por um final excessivamente melodramático que trai a sutileza com que
desenvolvera seus temas até então, Nuvem
9 também impressiona pela franqueza com que o amadurecido elenco se deixa
investigar pela câmera de Dresen, que mantém seu olhar sempre próximo dos
atores, privilegiando-os, mas também expondo-os sem restrições.
Aliás, torço
para que Pedro Cardoso, autor de um recente manifesto contra a nudez no Cinema,
jamais veja este filme, pois temo que, caso isto ocorra, ele tenha um derrame
na sala de projeção. (3 estrelas em 5)
38)
Three Monkeys (Üç maymun, Turquia, 2008). Dirigido por Nuri Bilge Ceylan. Com: Yavuz Bingol, Hatice Aslan, Rifat Sungar, Ercan Kesal, Cafer Köse,
Gürkan Aydin.
Ao escrever
sobre Nuvem 9 durante minha cobertura
da 32ª. Mostra de São Paulo, comentei que, num mundo justo, a atriz Ursula
Werner seria indicada aos principais prêmios da categoria por seu desempenho
naquele filme. Infelizmente, o mundo não é
justo – e uma prova disto é o fato do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan ter
vencido o prêmio de Melhor Direção em Cannes por este pavoroso Three Monkeys, que também será o representante de seu país na corrida pelo Oscar de Filme Estrangeiro em 2009.
Com um roteiro
vazio como uma comédia de Rob Schneider (mas com um ar pretensioso que busca
disfarçar sua natureza oca), o longa gira em torno de uma família cujo pai,
motorista de um político importante, aceita assumir a culpa por um acidente
provocado pelo chefe em troca de uma boa remuneração pelos meses que passará na
cadeia. No entanto, enquanto ele se encontra enjaulado, seu filho se envolve
com uma turma de marginais e sua esposa se torna amante do político que ele
aceitou proteger.
Repleto de
planos longos que, em vez de soarem contemplativos ou conferirem
verossimilhança à narrativa, surgem simplesmente como tentativas de
impressionar por parte de seu diretor, Three
Monkeys é um exemplo clássico de auto-indulgência absoluta por parte de um
cineasta que parece acreditar que cada segundo registrado por sua câmera
digital é precioso demais para ficar na lixeira do computador – e como não é
necessário fazer economia de película ao rodar neste suporte, somos obrigados a
acompanhar os personagens enquanto estes percorrem longos caminhos até uma estação
ou hesitam antes de atender o celular.
E se a visão
do espectro de uma criança cuja morte abalou a família pode parecer jogada ao
acaso na narrativa, para Ceylan isto é irrelevante desde que a boa fotografia
comprove a “força” de seu olhar criativo. Pior para o espectador, que acaba se
tornando a vítima da viagem egocêntrica do cineasta. (1 estrela em 5)
39)
Do Outro Lado da Lei (El Bonaerense, Argentina, 2001). Dirigido por Pablo Trapero. Com:
Jorge Román, Mimí Ardú, Darío Levy, Hugo Anganuzzi, Roberto Posse, Aníbal
Barengo.
Com uma
fotografia contrastada e granulada que vem se tornando o padrão nas produções
independentes que abordam a vida crua de personagens decadentes (vide os
recentes Feliz Natal e Perro come Perro, além de obras como 21 Gramas),
este Do Outro Lado da Lei, escrito e
dirigido pelo argentino Pablo Trapero em 2001, é um filme vibrante que, apesar
de ser apenas o segundo longa-metragem do cineasta, já indicava claramente o
surgimento de um importante talento – algo que ele comprovaria definitivamente
em Nascido e Criado, seu trabalho
mais maduro até o momento (e amanhã assistirei ao seu novo projeto, Leonera).
Retrato
pessimista da corporação policial argentina, Do Outro Lado da Lei traz, como protagonista, o medíocre Zapa (Roman,
excelente) – um homem fraco e intelectualmente limitado que, depois de um
problema com a polícia de sua cidadezinha, é enviado para Buenos Aires pelo tio
onde, graças à estrutura corrompida da polícia, consegue ser admitido como cabo
na força da capital. Com um tom de amarga ironia que busca retratar a falência
de toda aquela estrutura ao mesmo tempo em que desenvolve seu personagem
principal, o filme é bastante hábil justamente ao acompanhar as graduais mudanças
experimentadas por Zapa, embora falhe ao investir também numa subtrama romântica
que tira o foco da narrativa e fragiliza seu segundo ato.
Ainda assim, problemas
à parte, já não havia como negar o domínio técnico de Trapero. (3 estrelas em 5)
40)
Ninguém é Perfeito (Nobody’s Perfect, Alemanha, 2008). Dirigido por Niko von Glasow.
Responsável
por milhares de fetos abortados em todo o mundo e outros tantos milhares de bebês
nascidos com graves más formações congênitas, a talidomida foi comercializada
durante muito tempo como princípio ativo de uma série de medicamentos que
visavam combater a ansiedade – e hoje já se sabe que, bem antes de retirá-lo
das prateleiras, o laboratório responsável por sua fabricação já conhecia seus
efeitos teratogênicos, o que caracteriza um crime digno de ser julgado por
tribunais internacionais (a realidade, porém, é que ninguém foi condenado por
isto).
Uma das
vítimas da talidomida é o cineasta alemão Niko von Glasow que, depois de 18
anos de carreira, finalmente decidiu realizar um documentário sobre as conseqüências
de uma vida marcada pela deformidade que o impede, por exemplo, de ter a
coragem de nadar com o filho em público, já que teme o escrutínio impiedoso das
demais pessoas. Assim, von Glasow emprega este Ninguém é Perfeito como uma forma de terapia (ver também Valsa com Bashir) e, para isto, reúne
outras 11 “talidomidas” (como os integrantes desta singular comunidade costumam
se chamar) a fim de fotografá-las nuas para um calendário que tem o objetivo de
demonstrar aquilo que deveria ser óbvio: braços e/ou pernas mal formados ou não,
não há nada que diferencie as vítimas do medicamento das demais pessoas, a não
ser o preconceito e a aversão que sofrem continuamente.
É curioso
observar, por exemplo, como praticamente todos os participantes do projeto
demonstram uma insegurança comum ao posarem nus – mas esta não se deve, como
muitos poderiam imaginar, à exposição dos membros problemáticos e sim aos
problemas tão comuns a todos nós: uma barriga flácida aqui, uma gordurinha fora
de lugar ali, e assim por diante. Fascinante, também, é notar como cada um
daqueles indivíduos processou de maneira particular suas dores e os traumas
causados pela deficiência física, sendo que um deles chega a manifestar alívio
por saber a causa de seus problemas (a talidomida), o que o livra de questionar
os “desígnios divinos”. Da mesma forma, não é apenas porque têm problemas físicos
que estas pessoas se enxergam como merecedoras de compaixão – e, assim, chegam
a ressentir a proposta de que o calendário seja produzido como atividade
beneficente (quando questionado sobre que “causa” o calendário deveria
beneficiar, um dos fotografados responde: “Os doze participantes!”).
Profundamente
tocante ao trazer também imagens de arquivos que revelam algumas daquelas
pessoas ainda na infância, sorrindo com a alegria característica de uma criança
que não enxerga, em si mesma, as limitações que os demais parecem lhe atribuir,
Ninguém é Perfeito ainda conta com
seus momentos Roger & Eu ao
retratar os esforços do diretor em contatar a família que controla o laboratório
responsável pela comercialização da talidomida – mas isto representa,
infelizmente, um dos poucos pontos fracos do projeto.
É sintomático,
portanto, que Ninguém é Perfeito tenha
provocado (ao menos na sessão na qual eu me encontrava) a maior evasão de
espectadores que testemunhei nesta edição da Mostra – e percebam que estive em
sessões dos insuportáveis Varsóvia
Sombria, Julgamento e Soul Carriage, que também tiveram uma
parcela razoável de abandonos. Igualmente curioso é que todas as pessoas que saíram
da sala o fizeram durante a primeira meia hora de projeção, quando, nos demais
filmes citados acima, isto ocorria a partir da primeira hora.
Ora, Ninguém é Perfeito não é entediante em
momento algum e, depois de ultrapassada a meia hora inicial, ninguém mais
deixou a sala. Portanto, o que pode ter acontecido? A resposta, temo, é um reflexo
das constatações do próprio Niko von Glasow ao entrevistar alguns indivíduos
depois que estes viram as fotos do calendário: repulsa à deformidade. Assim,
estes espectadores que saíram da sessão de Ninguém
é Perfeito parecem não ter conseguido se interessar na história daqueles
personagens, detendo-se, em vez disso, em seus corpos defeituosos.
E isto,
infelizmente, impediu que constatassem o mais importante: que não havia nada de
defeituoso nas mentes e corações daquelas pessoas. (4 estrelas em 5)
41)
O Amigo (Der
Freund, Suíça, 2008). Dirigido por Micha Lewinsky. Philippe Graber, Johanna
Bantzer, Andrea Bürgin, Michel Voïta, Emilie Welti.
Emil (Graber) é
um rapaz solitário e tímido que, apaixonado pela cantora Larissa (Welti), tenta
se aproximar da garota desajeitadamente até que, para sua surpresa, é ela quem
o aborda certo dia com o estranho pedido de que ele finja ser seu namorado. Confuso,
mas feliz, ele parece ter realizado seu sonho quando, ao ligar para o celular
da garota, descobre que ela está morta. Sem ter coragem de desfazer o
mal-entendido que se segue, ele acaba assumindo o papel de namorado diante da
família enlutada da moça, estabelecendo uma ligação maior com Nora (Bantzer),
irmã da cantora.
Envolto num
clima de doce melancolia – algo ressaltado ainda mais por sua evocativa trilha
sonora -, O Amigo é um estudo de
personagem incrivelmente simpático que se beneficia da ótima atuação do jovem
Philippe Graber, que compõe Emil como um rapaz de olhar sem vida que, mesmo no auge
de uma crise de frustração, consegue apenas dar um chutinho hilariamente
desanimado num objeto caído ao seu lado. Além disso, a dinâmica de seu
relacionamento com a igualmente eficaz Johanna Bantzer envolve o espectador,
que se diverte com sua confusão ao mesmo tempo em que torce para que aqueles
personagens percebam que a solução para suas inseguranças encontra-se
justamente um no outro.
Enriquecido
também por um desfecho que não se rende ao água-com-açúcar, O Amigo é o candidato suíço ao Oscar de
Filme Estrangeiro em 2009 e, mesmo que talvez não seja exatamente um material
para premiação, é suficientemente admirável para receber uma entusiasmada recomendação. (3 estrelas em 5)
42)
Puisque nous sommes nés (Idem, França/Brasil, 2008). Dirigido por Jean-Pierre Duret, Andrea
Santana.
Já em sua
primeira cena, ao mostrar algumas crianças brincando à beira de uma perigosa
rodovia e se divertindo com a carcaça de um burro morto pela fome, Puisque nous sommes nés já estabelece
seus temas principais: a realidade surreal da miséria em pleno século 21 e do
descaso com que milhões de crianças são abandadas à margem de uma sociedade
que, orgulhando-se de seus avanços tecnológicos, deveria olhar para o próprio
umbigo e perceber que isto de nada vale se não se traduz em condições mínimas
de sobrevivência para esta parcela tão grande de nossa população.
Focando-se
principalmente em dois meninos que passam os dias num posto de gasolina freqüentado
por caminhoneiros, o documentário choca, por exemplo, ao revelar o desespero e
o pessimismo do pequeno Cocada, que, aos 15 anos de idade, é confundido
facilmente com uma criança de 12 em função de sua subnutrição. Sonhando com a
possibilidade de se tornar caminhoneiro ou mesmo de desenvolver uma “carreira”
no posto de gasolina (a descrição que faz desta possível trajetória
profissional é tocante em sua humildade, como ele não se atrevesse nem mesmo a pensar
em vôos maiores), o garoto divide com o amigo suas frustrações e desilusões de
maneira incrivelmente franca – o que revela o bom trabalho dos diretores
Jean-Pierre Duret e Andrea Santana ao deixar as crianças tão à vontade para
expressarem suas emoções e pensamentos.
Ao mesmo
tempo, o filme decepciona por se manter na superfície, preocupando-se apenas
com o cotidiano miserável dos garotos e ignorando todas as demais circunstâncias
de sua miséria (como, por exemplo, ao não se aprofundar numa discussão sobre a
trajetória da mãe de um deles, que já tem 10 filhos e parece desconhecer o
conceito de planejamento familiar). Mas talvez isto se deva ao fato de se
tratar de uma produção predominantemente estrangeira.
Se bem que,
distantes como estamos da realidade de fome e miséria daquelas crianças, não
podemos dizer que somos todos tragicamente “estrangeiros” diante daquele
universo de sofrimento e dor? (3
estrelas em 5)
43)
Os Aventureiros (The Tumbler, Austrália, 2008). Dirigido por Marc Gracie. Com: Gary
Sweet, Suzannah Bayes-Morton, Hazem Shammas, Louise Crawford.
O que posso
dizer sobre este Os Aventureiros, ao
qual assisti num impulso depois de constatar que era o único que poderia se
encaixar numa lacuna em minha programação desta 32ª. Mostra de São Paulo? Sim,
posso apontar a natureza ridícula de sua trama, que gira em torno de um
terrorista árabe que se une a um arrombador de cofres australiano para invadir
uma base norte-americana no deserto da Austrália, tomando uma bela oficial como
refém enquanto buscam um tesouro enterrado ali.
Sim, também
posso manifestar meu espanto diante dos péssimos diálogos ou dos atores sem o
menor talento. Ou posso, ainda, confessar que ri alto ao testemunhar algumas
passagens da montagem que soaram absurdamente amadoras, como as ações paralelas
que enfocavam a fuga de uma funcionária dos correios (interpretada de maneira
irritante pela péssima Louise Crawford) e o delírio
em flashback do herói brutamontes vivido de forma ridícula pelo pavoroso
Gary Sweet.
Poderia,
também, apontar a natureza preconceituosa do roteiro que, embora traga um árabe
como principal vilão, tenta despistar sua escolha ao incluir um diálogo sobre
como ele não comete o seu ato terrorista por ser “muçulmano” – embora, minutos
depois, ao gravar sua mensagem de despedida, ele proclame ser “afegão, árabe e
muçulmano”.
Sim, eu
poderia dizer tudo isso. Em vez disso, porém, agradecerei aos Céus por Os Aventureiros, com seus 76 minutos de
duração, ser piedosamente curto. (1
estrela em 5)