Ontem à noite, o âncora Keith Olbermann, da MSNBC, fez um comentário emocionante (e emocionado) sobre a aprovação da Proposta 8, que baniu o casamento entre homossexuais na Califórnia. É uma fala tão sensata e humana que não pude deixar de traduzi-la, mesmo que parcial e rapidamente, para postá-la aqui no blog ao lado do vídeo que traz o pequeno discurso de Olbermann. (Se quiser reproduzir a tradução em algum lugar, sinta-se à vontade - mas peço apenas que cite este blog como fonte, ok?)
“Alguns esclarecimentos, como
prefácio: não é uma questão de gritaria ou política ou mesmo sobre a Proposta
8. Eu não tenho nenhum interesse pessoal envolvido, não sou gay e tive que me
esforçar para me lembrar de um membro de minha imensa família que é homossexual.
(...) E, apesar disso, essa
votação para mim é horrível. Horrível. (…) Porque esta é uma questão que
gira em torno do coração humano – e se isto soa cafona, que seja.
Se você votou a favor da
Proposta 8 ou apóia aqueles que votaram ou o sentimento que eles expressaram,
tenho algumas perguntas a fazer, porque, honestamente, não entendo. Por que
isso importa para você? O que tem a ver com você? Numa época de volubilidade e
de relações que duram apenas uma noite, estas pessoas queriam a mesma
oportunidade de estabilidade e felicidade que é uma opção sua. Elas não querem tirar
a sua oportunidade. Não querem tirar nada de você. Elas querem o que você quer:
uma chance de serem um pouco menos sozinhas neste mundo.
Só que agora você está
dizendo para elas: “Não!”. “Vocês não podem viver isto desta forma. Talvez possam ter algo similar – se se
comportarem. Se não causarem muitos problemas.” Você se dispõe até mesmo
a dar a elas os mesmos direitos legais – mesmo que, ao mesmo tempo, esteja
tirando delas o direito legal que já
tinham (o do casamento civil). Um mundo em volta deste conceito, ainda ancorado
no amor e no matrimônio, e você está dizendo para elas: “Não, vocês não podem
se casar!”. E se alguém aprovasse uma Lei dizendo que você não pode se casar?
Eu continuo a ouvir a
expressão “redefinindo o casamento”. Se este país não tivesse redefinido o
casamento, negros não poderiam se casar com brancos. Dezesseis Estados tinham
leis que proibiam o casamento inter-racial em 1967. 1967! Os pais do novo
Presidente dos Estados Unidos não poderiam ter se casado em quase um terço dos
Estados do país que seu filho viria a governar. Ainda pior: se este país não
houvesse “redefinido” o casamento, alguns negros não poderiam ter se casado com
outros negros. (...) Casamentos não eram legalmente reconhecidos se os noivos
fossem escravos. Como escravos eram uma propriedade, não podiam ser marido e
mulher ou mãe e filho. Seus votos matrimoniais eram diferenciados: nada de “Até
que a morte os separe”, mas sim “Até que a morte ou a distância os separe”.
O casamento entre negros não era
legalmente reconhecido assim como os casamentos entre gays (...) hoje não são
legalmente reconhecidos.
E incontáveis são, em nossa História, os
homens e mulheres forçados pela sociedade a se casarem com alguém do sexo
oposto em matrimônios armados ou de conveniência ou de puro desconhecimento;
séculos de homens e mulheres que viveram suas vidas envergonhados e infelizes e
que, através da mentira para os outros ou para si mesmos, arruinaram inúmeras
outras vidas de esposas, maridos e filhos – apenas porque nós dissemos que um
homem não pode se casar com outro homem ou que uma mulher não pode se casar com
outra mulher. A santidade do
matrimônio.
Quantos casamentos como estes
aconteceram e como eles podem aumentar a “santidade” do matrimônio em vez de
torná-lo insignificante?
E em que isso interessa a você?
Ninguém está te pedindo para abraçar a expressão de amor destas pessoas. Mas
será que você, como ser humano, não teria que abraçar aquele amor? O mundo já
é hostil demais. Ele se coloca contra o amor, contra a esperança e contra
aquelas poucas e preciosas emoções que nos fazem seguir adiante. Seu casamento
só tem 50% de chance de durar, não importando como você se sente ou o tanto que você
batalhará por ele. E, ainda assim, aqui estão estas pessoas tomadas pela
alegria diante da possibilidade destes 50%. (...) Com tanto ódio no mundo, com
tantas disputas sem sentido e pessoas atiradas umas contra as outras por
motivos banais, isto é o que sua religião te manda fazer? Com sua experiência
de vida neste mundo cheio de tristeza, isto é o que sua consciência te manda
fazer? Com seu conhecimento de que a vida, com vigor interminável, parece
desequilibrar o campo de batalha em que todos vivemos em prol da infelicidade e
do ódio... é isto que seu coração te manda fazer?
Você quer santificar o
casamento? Quer honrar seu Deus e o Amor universal que você acredita que Ele
representa? Então dissemine a felicidade – este minúsculo e simbólico grão de
felicidade. Divida-o com todos que o buscam. Cite qualquer frase dita por seu líder
religioso ou por seu evangelho de escolha que te comande a ficar contra isso. E
então me diga como você pode aceitar esta frase e também outra que diz apenas: “Trate
os outros como gostaria de ser tratado”.
O seu país – e talvez seu
Criador – pede que você assuma uma posição neste momento. Um pedido para que se
posicione não numa questão política, religiosa ou mesmo de hetero ou
homossexualidade, mas sim numa questão de Amor. (...) Você não tem que ajudar ou aplaudir ou
lutar por ela. Apenas não a destrua. Não a apague. Porque mesmo que, num
primeiro momento, isto pareça interessar apenas a duas pessoas que você não
conhece, não entende e talvez não queira nem conhecer, é, na realidade, uma
demonstração de seu amor por seus semelhantes. Porque este é o único mundo que
temos. E as demais pessoas também contam."