Luca estava decorando um pequeno texto para uma apresentação. Um dos trechos era o seguinte:
- Meu pai trabalha na roça. Ele cuida da terra, planta milho, planta arroz, ordenha as vacas...
O problema é que ele não conseguia gravar a parte sobre "ordenhar" - uma palavra que estava aprendendo naquele instante. Assim, em certo momento durante os "ensaios" com seu pai, o pequeno, ao esquecer mais uma vez o que deveria dizer, resolveu improvisar:
- Meu pai trabalha na roça. Ele cuida da terra, planta milho, planta arroz... é... hum... pasta...
Eu sabia que não deveria ter comido grama na frente do baixinho.
Ontem, Luca e eu brincávamos com alguns bonecos de heróis e vilões. Inventando super-poderes para os personagens, Luca explicou:
- Esses vilões são geneticamente conectados!
- Geneticamente o quê?
- Conectados!
- Ah, tá.
Fomos assistir a Coraline e o Mundo Secreto. Ao final da sessão, enquanto todos se levantavam para sair, permaneci no assento como de costume. Luca, inquieto, perguntou:
- Papai, por que você sempre gosta de ver todas as letrinhas passando?
- Hum... quando você for maior, o papai explica, tá?
(Há vários motivos para isso, mas o principal tem a ver com o "retorno à realidade" - algo que explico com detalhes na segunda aula do curso.)
- É para ver quem trabalhou no filme? - insistiu o pequeno.
- Também.
- É para ver se vai ter alguma cena depois das letrinhas?
- Também.
- Fala o que é, então, papai!
Suspirando, concordei:
- É o seguinte... hum... você sabe como, durante o filme, parece que a gente está dentro da história? Então. A gente até não esquece que está no cinema?
- Eu não esqueço, não.
- Hum... quero dizer... quando você está muito interessado no filme, você nem repara que está dentro do cinema, repara? Você fica só prestando atenção na história, não é?
- É.
- Pois então. No final, quando as letrinhas sobem, a gente sai devagarinho do filme. As letrinhas mostram quem trabalhou no filme, na vida real, mas a música ainda é aquela da história. As luzes acendem aos pouquinhos... tudo isso é bom pra gente voltar bem com calma pra vida real e, assim, o filme fica mais forte com a gente, não é igual na televisão que, assim que ele acaba, já vem outro programa. E o papai acha que isso é importante, faz parte da experiência de ver o filme.
Silêncio.
- Já sei por que você disse que queria esperar até eu crescer pra me explicar isso, papai. Você achou que eu era muito criancinha pra entender. Mas eu entendi tudo, viu? Eu tô me lembrando de tudo o que você falou até agora!
Bom aluno, esse meu filhote.