Diário de Los Angeles - Dia #03

by Pablo 11. agosto 2009 02:51

Diário de Los Angeles – Dia #03

Por Pablo Villaça*

Anime na Academia

Depois da visita à Biblioteca Margaret Herrick no primeiro dia do programa de Efeitos Visuais do International Film Institute (InFilm), o segundo dia começou com uma outra visita a um prédio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Desta vez, porém, fomos à sede da instituição, que abrigava a exposição “ANIME! High Art – Pop Culture”, devotada não só à animação japonesa, mas também ao manga (tipo específico de quadrinhos produzidos no Japão que se popularizou principalmente a partir da Segunda Guerra).

Buscando sempre realizar exposições do tipo (uma dedicada a Fellini e que trazia ilustrações de seu Livro dos Sonhos se encerrara em abril), a Academia desenvolve uma série de atividades importantes que transcendem, e muito, sua vitrine mais conhecida: a festa do Oscar. Empregando o dinheiro arrecadado com a cerimônia para manter diversas outras iniciativas, a AMPAS não apenas investe na restauração e preservação de filmes antigos como ainda oferece patrocínios para pesquisas relacionadas à Sétima Arte – e as próprias exposições que produz trazem um claro caráter educativo em suas concepções.

O que nos traz de volta àquela sobre anime: contando com peças pertencentes a colecionadores de todo o mundo, a exposição exibia artes originais de diversas produções emblemáticas como Akira – e não apenas desenhos finais, já com o background incluso, mas também rascunhos iniciais, revelando bastante sobre o processo de criação dos realizadores. Além disso, vários bonecos e miniaturas relacionados aos projetos completavam a galeria, que se estendia até uma sala misteriosamente encerrada por uma cortina rosa.

 

Hentai – a versão erótica dos animes.

Creio não ser preciso dizer que os homens que integravam o grupo do InFilm passaram boa parte do tempo ali – e se há algo que eu jamais havia imaginado é que minha primeira visita à sede da Academia teria menos a ver com a estatueta dourada e mais com esculturas de ninfetas asiáticas.

Mas foi uma troca agradável.

A Anatomorphex

Depois do almoço, nos dirigimos à Anatomorphex, empresa dedicada à criação de miniaturas e bonecos animatrônicos e cujo dono, Robert DeVine, nos recebeu de maneira absolutamente simpática e despretensiosa, usando o mesmo estilo de bermudas e sandálias que, estou certo, veste no trabalho todos os dias.

 

Relaxado e claramente sentindo imenso prazer em apresentar seu trabalho para o grupo, DeVine inicialmente explicou o processo de criação dos impecáveis moldes dos rostos de atores a partir de gesso ou resinas plásticas – algo que você certamente já conferiu em algum making of presente em tantos DVDs. A oficina da Anatomorphex, aliás, é repleta de moldes do tipo, incluindo os rostos de velhos atores como James Cagney e Humphrey Bogart, mas também de intérpretes contemporâneos como Winona Ryder, John Travolta e Robin Williams,  passando por Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn, Marlon Brando e Meryl Streep. DeVine explicou, diga-se de passagem, que estes moldes criados diretamente a partir dos rostos dos atores geralmente não são comercializados, sendo trocados ou negociados diretamente entre profissionais do meio, que colecionam estas peças há décadas – e claro que fiquei particularmente enlouquecido ao descobrir, pendurado displicentemente na parede, o molde do rosto de Marlon Brando feito durante a produção de O Poderoso Chefão (algumas das demais fotos tiradas na empresa podem ser vistas aqui).

  

Responsável por criar o boneco de Brad Pitt que é atropelado na cena inicial de Encontro Marcado (algo que muitos identificam erroneamente como um efeito puramente digital), DeVine já realizou trabalhos para filmes e comerciais em vários lugares do mundo, incluindo o Brasil: são dele, por exemplo, os extraterrestres que, numa velha propaganda da Skoll, bebiam cerveja num bar alienígena.

Chefiando uma equipe pequena, mas dedicada (que pode chegar a 12 funcionários em tempo integral durante trabalhos encomendados por grandes produções), DeVine não permite que seus muitos anos de experiência no campo dos efeitos visuais obscureçam sua visão sobre o papel da tecnologia no cinema: “Embora faça efeitos visuais”, ele disse durante a visita, “eu acredito que muitos diretores usam estes efeitos apenas como papel de parede para cobrir os erros do filme; para evitar que o espectador perceba o que não está lá”.

E tendo sido bombardeado por G.I. Joe e Transformers 2 recentemente, não posso deixar de concordar com o sujeito.

 

De volta à Academia para o encontro de duas lendas

John Lasseter e Hayao Miyazaki. Dois gênios da animação que já atingiram o status de lenda nesta arte. Imagine, portanto, ganhar a oportunidade de ouvir um debate ao vivo envolvendo uma destas figuras e chegará à conclusão de que ter a chance de testemunhar um encontro dos dois diretores representaria um presente ímpar para qualquer cinéfilo.

E foi exatamente isso que o programa Efeitos Visuais do InFilm proporcionou na noite da terça-feira, 28 de julho de 2009, aos participantes do grupo.

Com ingressos esgotados há um bom tempo, o encontro entre Lasseter e Miyazaki no cinema localizado na sede da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi compreensivelmente tratado como um evento único, especialíssimo, por seus organizadores – especialmente em função da resistência do cineasta japonês em deixar seu país, algo que faz raramente. Some-se a isto a brilhante idéia de levá-lo a ceder uma entrevista para o nome mais importante da animação norte-americana atual (e o fato de cada um representar uma “faceta” desta técnica: o 2D e o 3D) e é fácil perceber por que os ingressos foram tão disputados (e a fila de “excedentes” à espera de lugares na porta da Academia, quando chegamos, comprovou isso).

Imponente com suas poltronas confortáveis, sua cortina vermelha e os Oscars gigantescos espalhados por todos os lados (ok, isso é um pouco cafona também), o cinema da AMPAS impõe rígidas regras aos seus ocupantes, como a proibição de que fotos sejam tiradas no interior da sala mesmo quando nada está sendo exibido na tela – uma imposição tola e desnecessária e sobre a qual só fui informado depois de capturar uma única imagem como registro para os leitores do Cinema em Cena (hum-hum).

Após a exibição dos trailers de todos os filmes dirigidos por Hayao Miyazaki desde 1984, quando comandou Nausicaä of the Valley of the Wind, até chegar ao novo Ponyo on the Cliff, John Lasseter subiu ao palco de maneira casual, sem nenhum anúncio prévio, e se apresentou rapidamente antes de dizer que se sentia honradíssimo em presidir esta homenagem ao seu “velho amigo” (expressão que utilizou dezenas de vezes ao longo do encontro, evidenciando sua admiração pelo cineasta japonês). Revelando que se inspirou em várias seqüências de Castle in the Sky ao ajudar a conceber cenas de Vida de Inseto, Lasseter explicou que conheceu Miyazaki ainda na década de 70, quando este viajou aos Estados Unidos para visitar o departamento de animação da Disney no qual o futuro dono da Pixar trabalhava.

E, em seguida, convidou a lenda do anime a subir no palco.

Com seus cabelos e barba brancos tradicionais, Miyazaki subiu acompanhado de uma tradutora, já que não fala inglês muito bem, e a partir daí a conversa teve início num ritmo um pouco lento (algo inevitável sempre que há um tradutor intermediando a entrevista), mas que logo se revelou encantadora por abordar os principais pontos da carreira do cineasta.

Falando com a voz sempre calma e demonstrando certa timidez, Miyazaki constantemente se inclinava para frente enquanto levava as mãos à testa, como se tentasse ocultar o rosto, e soltava risadinhas contidas ao se lembrar de certas passagens de sua vida – e esta maneira humilde de se comunicar (especialmente partindo de um mestre como ele) logo conquistou a platéia, que muitas vezes ria de maneira cúmplice com o diretor antes mesmo que sua fala fosse traduzida.

Explicando que começou sua carreira como intervalador na Toei (ele fazia os desenhos entre as posições-chave de um movimento específico), Miyazaki relembrou de quando trabalhava na produção da série Lupin para a televisão japonesa e foi então que Lasseter perguntou como ele saltara de intervalador desta franquia para a tevê para a posição de diretor de Lupin III: Castle of Cagliostro, que marcou sua estréia no comando de projetos para o cinema. Visivelmente embaraçado (o que provou risos no público), Miyazaki respondeu:

- É difícil explicar. Um colega meu mais experiente veio à minha casa uma noite e disse que teria que fazer um filme para cinema a partir da série Lupin e perguntou se eu poderia ajudá-lo um pouco. Então eu, meio que casualmente, disse que o ajudaria. E acabei dirigindo o filme. Quando penso sobre isso hoje em dia, percebo que deve ter sido uma armadilha. E terminamos o filme em quatro meses e meio.

- Quatro meses e meio?!?!?! – interveio Lasseter neste momento.

- É, eu fiquei muito, muito ocupado.

(Clique aqui para ouvir este trecho da conversa.)

Estabelecendo uma amizade que se solidificou até mesmo em função de suas posições similares de jovens rebeldes diante de corporações estabelecidas (Miyazaki e a Toei; Lasseter e a Disney), os dois diretores voltaram a se encontrar no Japão na segunda metade da década de 80, quando Lasseter visitou o estúdio do amigo, a Ghibli, durante a produção de Meu Vizinho Totoro:

- Não havia ninguém [na Ghibli] que pudesse traduzir o que estava sendo dito. – relembrou o diretor de Toy Story – Mas era como se estivéssemos falando a linguagem da animação. Eu nunca me esquecerei de quando ele me levou para o departamento responsável pelos backgrounds (cenários, a grosso modo; a parte da célula que não será animada, servindo de pano de fundo para a ação) e os cenários de Meu Vizinho Totoro eram tão lindos. Fiquei impressionado com as pinturas. Ele estava andando com essa espécie de “brilho Miyazaki” nos olhos e, sorrindo, me mostrou o desenho do Gato-ônibus. E eu pensei: “É um ônibus que é um gato e um gato que é um ônibus. Eu mal posso esperar para ver esse filme!”.

(Clique aqui para ouvir este trecho da conversa.)

Com esse tom de informalidade mantendo-se constante durante toda a conversa, Hayao Miyazaki explicou, ainda, que costuma se inspirar nas pessoas que conhece para criar vários de seus personagens – e completou, rindo:

- O amigo que deu origem ao pai de A Viagem de Chihiro, que come até virar um porco, está aqui conosco hoje. Mas acho melhor não apresentá-lo. Basta dizer que ele já melhorou muito.

Depois da exibição de mais alguns clipes de seus filmes, o cineasta passou a responder a perguntas enviadas pela platéia, incluindo, claro, indagações sobre seu novo projeto, Ponyo – o que levou John Lasseter a fazer uma interessante intervenção (especialmente ao considerarmos que sua carreira é toda baseada na animação 3D) ao descrever uma seqüência em particular do filme:

- (...) É um tour de force, é inacreditável, especialmente quando você se dá conta de que foi tudo desenhado a mão. É espetacular. Qualquer um que disser que já não tem interesse em assistir a animações feitas a mão tem que ver este filme e verá que está errado.

(Clique aqui para ouvir este trecho da conversa.)

Com a noite já chegando ao fim depois de mais de duas horas de conversa, Lasseter finalmente tocou numa questão recorrente na história de Miyazaki:

- Sempre surgem boatos, depois do lançamento de cada filme, de que você vai se aposentar. O que te faz voltar à direção?

- Se me permitem fazer uma confissão – começou o japonês -, a primeira vez em que disse “vou largar essa profissão” foi depois de fazer Nausicaä (em 1984), mas só falei isso para minha esposa. Mas ninguém acredita mais em mim então desta vez eu não disse que iria me aposentar. Acho que vou ficar calado sobre se vou continuar ou não trabalhando.

Ao que Lasseter respondeu:

- Bom, eu sei que falo por todos aqui hoje quando digo que desejamos que você jamais se aposente.

Amém.

(Clique aqui para ouvir este trecho da conversa.)

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Para maiores informações sobre o InFilm e futuros programas promovidos pela empresa, clique aqui.

* Pablo Villaça viajou a convite dos organizadores do evento.

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Comentários

11/8/2009 6:13:56

Felipe Dias

*-*


babando.


Esse seu relato me fez ter vontade de visitar os EUA de novo...

Felipe Dias br

11/8/2009 10:44:13

Alex Melo

Seu trampo sim é trabalho. Só de pensar em ver uma conversa entre estes caras já dá prá ficar doido.....

Alex Melo br

11/8/2009 11:51:41

Vinícius

Esperei uma reação mais forte sua, Pablo!

Pensei que ao ler seu post sobre o encontro com Miyazaki e Lasseter
seria mais entuasiasmado. Espero que a reação no momento tenha sido
mais forte!

Vinícius br

11/8/2009 13:32:58

Magno

Vi num outro fórum, resolvi postar aqui:

O BRASIL PRECISA DE VOCÊ! MOBILIZAÇÃO NACIONAL!!!! Participe da PASSEATA CONTRA A CORRUPÇÃO E OS SARNEY ! NESTE SÁBADO DIA 15/08 as 14H EM 13 CAPITAIS!! WWW.FORASARNEY.COM!

Uma oportunidade de demonstrar sua indignação

Magno br

11/8/2009 14:14:27

Pedro S. E.

Uau *-*

ah, e é normal achar aquelas miniaturas de animes em eventos por todo país, Pablo =P
Vida longa aos animes!

Pedro S. E. br

11/8/2009 14:55:11

Robson França

Deve ter sido show de bola. Nem ligo muito pro Lasseter e para a Pixar - que considero uma grande empresa, e só. Mas Miyazaki-san é outra história. Ele é simplesmente um dos mais importantes animadores vivos da atualidade.

E sobre se "basear" em trabalhos feitos no Japão, é bom o Lasseter ficar esperto. A Disney foi processada pelos descendentes do Ozamu Tezuka por causa d' "O Rei Leão", que copiou diversas cenas (visualmente falando) de "Kimba, O Leão Branco" (isso sem contar a história do Lion King ser fortemente baseada em Hamlet...). Fora as "semelhanças" visuais entre Atlantis e Nausicaa.

Abraços

Robson França br

11/8/2009 21:00:41

Márcio

Pablo, quero ser como você quando eu crescer.

...Uma pergunta que me veio à cabeça... para quê deve ter sido usado um molde do Marlon Brando no Poderoso Chefão?

Márcio br

11/8/2009 21:01:25

Rick

pablo, é impressão minha ou você está meio abatido nas fotos...aparenta estar um pouco mais velho também.
bem que vc poderia ter levado uma câmera com resolução melhor, alguma mais profissional...essa aparenta ter menos de 7MP.
mas o que vale é esta oportunidade única.

qto ao post sobre GI, não ligue para os " avassaladores", eu te amo sendo hetero, bi, gay, tetra, hiper sexual... conceitos de sociedade civilizada..tisc-tisc.


abraços sem pudor de quem te admira!

Rick

Rick br

11/8/2009 22:21:49

Felipe Dias

Definitivamente, a internet te engorda.

Felipe Dias br

12/8/2009 13:28:06

Mainardi (não o Diogo)

Gostei muito da oficina da Anatomorphex.
Que bagunça! E a "pinta" do Robert deVine!?! Eu creio que deve ser um trabalho muito gratificante.

Agora...com é você que conseguiu focar na entrevista com aquela rumba infernal rolando de fundo musical????

Mainardi (não o Diogo) br

12/8/2009 20:11:45

Lisandro

OFF

Pablo, tem um vídeo com uma mensagem assustadora aqui no youtube, talvez vc diga que isso venha da cabeça de conspiracionistas lunáticos, mas vale a pena pensar e pesquisar mais. Será que o governo Obama é tão bonzinho como se imagina? Será que ele não está preparando um sinistro bem inesperado para a sua população? O cara dá umas mancadas na tradução, mas é corrigido nos comentários. Olha:

www.youtube.com/watch

Lisandro br

13/8/2009 6:15:18

Julio

Dá pra conseguir torrent do Ponyo pela net, e é um puta dum filme. Até hoje não entendo como as pessoas conseguiram simpatizar tanto com o Wall-E * e Ponyo não é louvado no mesmo volume (puta, quando ela anda nas ondas seguindo o carro, caray... é um puta filmão).

*(achei seu aspecto de cãozinho pidão muito apelativo mas que conseguia ser eficiente - como a sequência da infância até a velha idade de UP, você sabe que é muito apelativo e disney 2.0, mas pega)

Julio br

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