Como muitos de vocês já sabem, tomo anti-depressivo há vários anos. Hoje considero a doença (porque é uma doença) sob controle e venho pensando cada vez mais em abandonar os remédios, mas houve uma época em que a sensação de desespero e angústia praticamente me impediu de funcionar socialmente. Como podem imaginar, naquele período, a idéia de suicídio cruzava minha mente de quando em quando, mas jamais a considerei com muita seriedade. Aliás, creio que, em um momento ou outro, a maior parte das pessoas já pensou algo como "E se eu...", mesmo que isto fosse apenas uma espécie de exercício mental e/ou emocional.
Porém, o que sempre me impediu de pensar no suicídio como uma possibilidade real foi o fato de que isto não representa uma solução para nada, mas apenas uma fuga. Uma fuga da qual não é possível arrepender-se. E se consideramos o estrago colossal que uma atitude como esta provoca em quem fica para trás, o suicídio se torna não apenas um ato de covardia, mas também de profundo egoísmo. Um gigantesco "fodam-se" para todos aqueles que nos amam.
(Só para constar, eu considero o suicídio como uma alternativa "legítima" em apenas dois casos: doença incurável que provocará intenso e inevitável sofrimento e naquelas circunstâncias em que, para todos os efeitos, sua vida já acabou, como discuti em minha crítica de Mar Adentro - e mesmo neste último, não estou certo de "aprovar" a auto-destruição.)
Comecei a pensar nestas questões depois da notícia do possível suicídio (ainda não foi oficialmente confirmado) de uma blogueira/twitteira de 33 anos de idade. Além de provar de maneira inconteste que o Twitter é uma péssima mídia para se deixar um bilhete de despedida (não posso acreditar que o que você tem a dizer antes de deixar esse mundo pode ser resumido em apenas 140 caracteres), a moça aparentemente escolheu uma maneira absurda de se matar: enfiou uma faca no próprio peito - algo que, no que diz respeito a formas de auto-extermínio, só perde em falta de praticidade para a auto-imolação.
Sim, é possível que ela, num processo mental distorcido, tenha desejado sofrer antes de morrer. Ou talvez apenas não tenha pensado melhor no que iria fazer. Ainda assim, quando penso na dor e no tempo que ela provavelmente levou para morrer - a não ser que tenha conseguido a proeza de reunir pontaria e força suficientes para atingir o próprio coração -, não posso deixar de sentir um frio na espinha. E não entendo como alguém que já tomou a decisão mais definitiva de sua existência pode não ter uma paciência mínima para ao menos encontrar uma forma mais confortável (ou menos lenta e dolorosa) de executar seu plano.
É claro que lamento a morte de uma pessoa jovem e saudável - mesmo que considere sua atitude incrivelmente estúpida e egoísta (ao que parece, ela tinha um filho pequeno, o que torna tudo mais imperdoável). Mas as decisões de deixar uma despedida no Twitter e de se matar com uma facada no peito me levam a pensar, confesso com certo embaraço, que havia algo muito mais errado com a moça do que uma simples depressão.