Estamos no fim de 2009. Já se foi o tempo em que o mundo aceitava que as mulheres fossem tratadas como escravas dos homens em qualquer esfera imaginável: sexual, profissional, doméstica, etc. Elas conquistaram o direito de voto. Lutaram para que pudessem ser vistas como iguais, não como seres biológica, intelectual e moralmente inferiores aos homens - estes, sim, criaturas notavelmente atrasadas. Dominaram o mercado de trabalho. Batalharam pelo direito de não serem hostilizadas ou consideradas putas apenas porque se liberaram sexualmente. A pílula, antes tabu, hoje é distribuída pelos governos mais esclarecidos. E se antes o lugar da mulher era "na cozinha" e cuidando da casa e dos filhos enquanto esperavam o maridinho chegar em casa para o jantar, hoje elas estão nas faculdades, tornando-se profissionais tão ou mais capacitadas do que aqueles que antes as dominavam e controlavam à base de força e preconceito.
Lindo.
Claro que elas ainda recebem, em média, bem menos do que seus colegas do sexo masculino para desempenharem as mesmas funções. Continuam a ser vítimas de estupro e violência doméstica em todo o mundo. Ainda estão longe de conseguirem representatividade nos governos da maior parte dos países.
Ah, mas estamos evoluindo, certo? As novas gerações concluirão o trabalho, esclarecidas como são, não é mesmo?
Oh, sim, evidente. Desde que uma mulher não se atreva a usar uma minissaia em uma faculdade, pois então será imediatamente seguida por uma turba de universitários aos gritos de "Puta! Puta!" até ser retirada do prédio sob escolta policial, num linchamento moral que remete à Inquisição. Os mesmos estudantes que, numa discussão de bar, certamente diriam que a prática do apedrejamento de mulheres "desonradas" em certos vilarejos muçulmanos é um "absurdo", "coisa de bárbaros", não hesitaram em atirar pedras verbais e morais numa colega que se atreveu a mostrar as coxas. Como ela pôde fazer isso? Conspurcar um ambiente sacrossanto com suas formas femininas, que todos sabem ser pecaminosas por natureza? Destruam-na! Humilhem-na! Impeçam-na de retornar ao convívio dos Bons! Se matá-la é impossível, assassinemos seu espírito! E se alguém questionar esta atitude, afirme que ela também "fez outras coisas", além de usar a minissaia - afinal, isto justificaria tudo, certo?
Não sei o que dizer, sinceramente. A cada vez que sinto-me ingenuamente tentado a acreditar que o mundo está melhorando, mesmo que a passos de tartaruga manca, sou trazido de volta à realidade. Um dublador que se recusa a emprestar sua voz a um ator num filme sobre homossexuais. Um pastor evangélico que prega, para um grupo de crianças, que a homossexualidade é uma doença. Uma jovem verbalmente queimada em praça pública por usar uma saia 10 centímetros menor do que o esperado.
Chega a doer, esta descrença na Humanidade. Mas se os nossos jovens agem assim, que direito tenho de sonhar num mundo mais iluminado para meus filhos?
Para encerrar, sei que este blog tem um número de acessos imenso. Tenho orgulho disso. E sei que conquistei esse "leitorado" não apenas em função do que escrevo, mas por respeitar quem me lê.
Mas há momentos para exceções e há aqueles que não merecem respeito algum.
Estatisticamente falando, é impossível que não haja um único leitor que estude na faculdade de São Bernardo do Campo (Uniban) na qual o incidente (eufemismo) ocorreu. E provavelmente há muitos que conhecem alguém que lá estude. Pois para aqueles que participaram daquela "mobilização", digo sem reservas: vocês são uns imbecis. Uns Neandertais. Um desperdício de oxigênio. Aliás, mais do que isso: são desperdício de pele. Todos que tomaram parte daquele ato vergonhoso deveriam ser esterilizados para que seus genes defeituosos não fossem transmitidos para as novas gerações como uma doença capaz de arruinar a Humanidade. Vocês desafiam o conceito de Evolução.
E se você é mulher e se juntou à turba... Deus. Ainda bem que Rosa Luxemburgo, Simone de Beauvoir e Betty Friedan estão mortas e não tiveram que testemunhar seu legado sendo usado para que companheiras de sexo agissem com a mesma mentalidade símia dos machos que por tanto tempo aprisionaram seus corpos e espíritos.
(P.S.: Se no intuito de mostrar que você é esclarecido e evoluído resolveu defender a jovem chamando aqueles que a xingaram de "viados"... má notícia: você também é um imbecil.)