(Abraços ao ex-aluno Fernando Colella e ao amigo Marcos Petrucelli, que encontrei nos últimos dias.)
E...
21)
Mamonas pra
Sempre (O Doc) (Idem, Brasil,
2009). Dirigido por Cláudio Kahns.
A trajetória
do grupo Mamonas Assassinas é cinematográfica por natureza: alçados à fama
quase que da noite para o dia depois de passarem alguns anos no anonimato
absoluto com sua banda anterior, seus cinco integrantes se tornaram uma
verdadeira febre em todo país enquanto suas músicas eram cantadas por crianças,
adolescentes e adultos – apenas para, no auge da carreira, morrerem num
acidente de avião enquanto voltavam de um show.
Dirigido por
Cláudio Kahns, este documentário sobre a banda faz um bom trabalho ao
estabelecer as origens dos Mamonas: contando com preciosas imagens de arquivo,
o cineasta resgata os shows do grupo quando este ainda se chamava Utopia e se
levava a sério, entrevista os principais envolvidos na mudança de foco (e nome)
da banda e estabelece, sem alardes ou melodrama, as origens humildes de seus
integrantes – o que fica claro através dos depoimentos de parentes dos rapazes.
Da mesma forma, Kahns é bem sucedido ao retratar os músicos como jovens alegres
que, mesmo encarando o sucesso repentino com olhos deslumbrados, não passaram a
ignorar as raízes (mesmo porque nem tiveram tempo para permitir que o sucesso
lhes subisse à cabeça) – e particularmente tocante é testemunhar um dos irmãos
Reoli ligando para a mãe de Los Angeles para contar que sentia falta de feijão
na comida.
Triste desde o
princípio por sabermos como aquela história irá terminar, Manonas Assassinas – O Doc tinha, portanto, tudo para se estabelecer
como um longa interessante, divertido e comovente – e se não consegue atingir
estes objetivos, a responsabilidade deve ser atribuída completamente às
decisões pavorosamente equivocadas de seus realizadores, que, por algum motivo
misterioso, decidiram que deveriam tentar
ser tão irreverentes quanto os próprios Mamonas, praticamente destruindo
o filme em seus esforços neste sentido. Como explicar, por exemplo, a idéia de
inserir animações de mamonas saltitantes sempre que o nome de um entrevistado
surge na tela, completando a besteira com efeitos sonoros engraçadinhos que
servem apenas para tirar o foco do que está sendo dito? E por que ninguém
avisou o diretor de que o conceito de criar versões porcamente animadas
(inspiradas em South Park,
possivelmente) dos músicos e colocá-las atravessando a tela de tempos em tempos
é algo não apenas patético e sem a menor graça como – novamente - serviria
apenas para distrair o espectador? Mas creio que qualquer esperança de que o
filme pudesse levar sua própria narrativa a sério foi realmente abandonada
quando, durante uma entrevista com os pais de Dinho em uma fazenda, o cineasta
e seu montador perceberam a presença de um peru ao fundo e, acreditem ou não,
acharam que seria apropriado colocar um balão sobre a cabeça da ave com a frase
“Yo soy del Peru!” – o que não tem graça alguma, tira o foco do depoimento e –
o mais grave – é uma profunda falta de respeito para com o casal que está ali
falando sobre o filho morto aos 24 anos de idade.
Porém, os
problemas do longa vão além: ao repetir vários números musicais
desnecessariamente, Mamonas Assassinas –
O Doc perde o ritmo a partir da segunda metade da projeção, sendo
prejudicado também pelo foco excessivo em Dinho, que, embora realmente fosse o
mais carismático e divertido membro da banda, representava apenas 20% do grupo
– e seus companheiros certamente mereciam um pouco mais de atenção do que a que
recebem do filme, que se limita a citar rapidamente seus principais traços de
personalidade durante uma entrevista. Para piorar, Kahns dedica menos de dez
minutos à tragédia que vitimou a banda, ignorando completamente suas
circunstâncias e também a deplorável exploração feita pela mídia na época. Além
disso, o documentário não se preocupa com o que veio a seguir: qual o “legado”
artístico e financeiro dos Mamonas? Eles continuam a gerar receita
postumamente? E quem ganha com isso?
O mais
lamentável é que o diretor tinha um entrevistado perfeito para cobrir todas
estas questões: o músico e empresário Rick Bonadio, que, extremamente
articulado e aberto, é, sem dúvida alguma, aquele que oferece as melhores
informações ao longo da projeção – e, em parte, é graças a ele que o filme
sobrevive (as imagens de arquivo e a própria história da banda respondem pela
outra parte).
Infelizmente,
a mesma produtora responsável por este documentário tem os direitos sobre a
história dos Mamonas Assassinas e já está preparando um longa de ficção sobre
os músicos. Mas o que podemos esperar deste novo projeto se seus realizadores
não conseguiram demonstrar um mínimo de bom senso ou bom gosto nem mesmo ao
lidarem diretamente com as pessoas envolvidas com a banda? (3 estrelas em 5)
22)
Patrik,
Idade 1,5 (Patrik 1,5, Suécia,
2008). Dirigido por Ella Lemhagen. Com: Gustaf Skarsgård, Torkel Petersson, Tom
Ljungman.
Göran e Sven
Skoogh são um casal homossexual que, mudando para um confortável condomínio
fechado em uma cidade sueca, se preparam para um passo importante em sua
relação: a adoção de uma criança. Porém, por mais esclarecido que o país seja
em relação à homossexualidade, o preconceito permanece vivo e, assim, eles se
vêem no fim da lista de pais em busca de uma família. Assim, quando recebem uma
carta indicando que foram escolhidos para receber Patrik, cuja idade é listada
como “1,5”, ficam extasiados – especialmente Göran (Gustaf Skarsgård, filho de
Stellan), o mais jovem dos dois. No entanto, lugar de um bebê adorável, eles
recebem a vista de um adolescente de 15 anos que, rebelde e agressivo, é também
terrivelmente homófobo.
Baseado numa
peça escrita por Michael Druker, o roteiro da diretora Ella Lemhagen emprega o
primeiro ato com inteligência ao estabelecer a importância que aquela adoção
tem para os Skoogh. Aliás, a própria dinâmica do casal é desenvolvida com
sensibilidade pela cineasta, incluindo as grandes diferenças entre suas
personalidades: Göran é mais doce, sofisticado e detesta confrontações, ao
passo que Torkel é explosivo, alcoólatra e fã de música country. Sem jamais tentar fazer rir – e sendo divertido justamente
por isso -, o filme de Lemhagen deixa claro que, para os personagens, aquela
situação é extremamente séria, o que não quer dizer que não possamos achar
graça em todos aqueles contratempos.
Enriquecido
por uma bela fotografia e pela eficiente direção de arte que usa as cores com
sabedoria ao estabelecer os temperamentos daquelas pessoas (reparem como cada
casa da vizinhança tem uma cor-chave que se contrapõe ao vermelho dominante no
lar dos protagonistas), Patrik 1,5
desenvolve a narrativa de maneira orgânica, retratando a aproximação do trio
principal de maneira fluida e sempre verossímil, apresentando-se como um longa
divertido que, de quebra, traz uma bela mensagem sobre aceitação. (4 estrelas em 5)
23)
Eu Matei
Minha Mãe (J’ai tué ma mère, Canadá,
2009). Dirigido por Xavier Dolan. Com: Xavier Dolan, Anne Dorval, François
Arnaud, Suzanne Clément.
É permitido
ter inveja de Xavier Dolan: aos 24 anos, o canadense roteirizou, dirigiu e
protagonizou um filme que não apenas foi exibido em Cannes como recebeu três
prêmios no festival – e mesmo que esteja longe de ser um Cidadão Kane, seu Eu Matei
Minha Mãe é um trabalho sensível e visceral. Ah, sim: como se não bastasse,
Dolan é um sujeito bonito que não enfrentaria muitos problemas para se
estabelecer como galã. Canalha.
Girando em
torno do relacionamento do jovem Hubert (Dolan) e sua explosiva mãe Chantale
(Dorval), o filme adota uma abordagem intimista ao focar esta pequena família
através de uma câmera que se mantém sempre próxima dos atores enquanto estes
expõem o desprezo que seus personagens sentem um pelo outro. Constantemente
gritando (o que se torna desgastante para o público, num efeito que Dolan
provavelmente estava mesmo buscando), aquelas pessoas parecem se detestar – e é
por isso que os ocasionais instantes de carinho que compartilham se tornam
surpreendentemente significativos.
Contrapondo a
escuridão constante da casa de Hubert e sua mãe com a claridade do apartamento
no qual o namorado do rapaz mora (o que é mais do que adequado, já que o
relacionamento deste com a própria mãe é extremamente harmonioso), Dolan também
faz uma curiosa utilização da câmera lenta em planos que retratam explosões de
violência do protagonista.
Exaustivo mas
eficaz estudo de personagens, Eu Matei
Minha Mãe ainda conta com um desfecho que, respeitando a lógica da
história, soa satisfatório sem necessariamente poder ser considerado como um “final
feliz”. (4 estrelas em 5)
24) Perseguição
(Persécution, França, 2009). Dirigido
por Patrice Chéreau. Com: Romain
Duris, Charlotte Gainsbourg, Jean-Huges Anglade, Gillen Cohen, Michel
Duchaussoy, Alex Descas.
Visualmente
desinteressante e com um roteiro patético em sua simplicidade temática, Perseguição veste o disfarce do drama e
do estudo de personagem para contar uma história trivial sobre um casal que
jamais parece ser acertar graças à indisponibilidade emocional do rapaz (Duris)
e a ausência física da moça (Gainsbourg), que vive viajando a trabalho.
Assediado por um stalker (Anglade),
Daniel acaba se mostrando muito mais aberto a aceitar a presença do amalucado
sujeito do que em se entregar para a namorada. Resultado: o casal se encontra,
chora, manifesta amor mútuo e finalmente conclui que não poderá permanecer
junto. Até que, na cena seguinte, volta a se encontrar para repetir todo o
processo.
Caso Daniel
brilhasse ao sol, Perseguição
poderia, portanto, ser uma versão “cabeça” de Crepúsculo. Algo profundamente decepcionante vindo do diretor de
algo tão soberbo quanto A Rainha Margot. (1 estrela em 5)
25)
Mau Dia para
Pescar (Mal Dia para Pescar, Uruguai/Espanha,
2009). Dirigido por Alvaro Brechner. Com: Gary Piquer, Jouko Ahola, Antonella
Costa, César Troncoso.
Mistura de O Lutador e Nove Rainhas, este candidato oficial do Uruguai ao Oscar 2010 gira
em torno de um atleta de luta livre decadente (Ahola) que, acompanhado por um
empresário trapaceiro que se intitula “Príncipe” (Piquer), viaja por
cidadezinhas da América do Sul promovendo desafios nos quais oferece mil
dólares para quem conseguir permanecer de pé no ringue por três minutos ao lado
do “campeão”. Porém, ao chegar num vilarejo aparentemente igual a todos os
outros, o “Príncipe” testemunha seu esquema habitual naufragar ao descobrir que
o desafiante que havia subornado fora preso. Para piorar, uma bela mulher local
(Costa) mostra-se determinada a ver seu próprio noivo subindo no ringue – e a
forma física invejável do sujeito, aliada à sua fama de durão, deixa o empresário
preocupado, já que, além do campeão não desconfiar de que suas lutas são “arranjadas”,
eles não têm sequer o dinheiro para pagar o desafio.
Com roteiro
escrito pelo diretor Álvaro Brechner e pelo ator Gary Piquer (a partir de um
conto de Juan Carlos Onetti), Mau Dia
para Pescar traz uma trama bem amarrada que se torna mais envolvente graças
aos interessantes personagens que a movem. O “Príncipe”, por exemplo, é vivido
por Piquer como um sujeito que, falando rápida e ininterruptamente, se julga
claramente mais esperto do que os “caipiras” que costuma enganar – e que,
talvez por isso, não percebe quando está sendo claramente manipulado. Com o cabelo
preso num rabo-de-cavalo e o cavanhaque que buscam lhe conferir algum grau de
sofisticação, deixando-o apenas com um ar de trapaceiro ainda maior, o sujeito curiosamente
trata o campeão como uma criança, fazendo-o dormir toda a noite com uma melodia
infantil e cuidando para que seus problemas de saúde não se tornem óbvios (e
Jouko Ahola faz um belíssimo trabalho ao retratar a força do lutador ao mesmo
tempo em que explora sua vulnerabilidade psicológica e emocional). Fechando o
elenco, Antonella Costa encarna Adriana como uma pequena Lady Macbeth, tratando
seu noivo Turco como um peão para que consiga o que deseja.
Com bons
diálogos e uma estrutura narrativa bastante eficaz, Mau Dia para Pescar atinge seu auge numa cena absolutamente
fantástica que, ambientada no quarto de hotel dividido pelo Príncipe e pelo
campeão, traz uma conversa tocante, tensa e divertida entre os dois
personagens, funcionando como um preparativo ideal para o clímax do filme.
E o fato de
chegarmos ao desfecho nos importando com todos aqueles personagens (mesmo com a
durona Adriana) é uma surpresa agradável que torna o longa ainda mais
satisfatório. (5 estrelas em 5)
26)
Coffin
Rock (Idem, Austrália, 2009). Dirigido
por Rupert Glasson. Com: Lisa
Chappell, Sam Parsonson, Rob Taylor, Joseph Del Re, Jodie Dry.
Caso tivesse
sido produzido em Hollywood, Coffin Rock traria
Ashley Judd no piloto automático em seu elenco, faturaria 50-60 milhões de
dólares nas bilheterias norte-americanas (um sucesso moderado, mas suficiente),
contaria com um trabalho de câmera medíocre e seria prontamente esquecido assim
que chegasse ao DVD. Pois dirigido pelo
australiano Rupert Glasson e protagonizado por Lisa Chappell, o filme realmente
não é uma obra-prima memorável e certamente não será lembrado daqui a 20 anos
como um trabalho seminal – e, ainda assim, ele se apresenta bem melhor do que
esperado graças a uma atuação magnética de Chappell e, especialmente, ao
cuidado que Glasson dedica aos aspectos visuais do longa.
Escrito pelo
próprio diretor, o roteiro acompanha o casal Jessie (Chappell) e Rob (Taylor,
um sósia envelhecido de Michael Bay), que não consegue ter filhos. Ao acompanhar
o marido num teste de fertilidade numa clínica, Jessie é vista pelo
recepcionista Evan (Parsonson), que se encanta por ela e decide conquistá-la,
abandonando tudo para viver na pequena cidade litorânea que abriga o casal.
Depois de uma noite de bebedeira, Jessie transa com o rapaz e, pouco depois,
descobre estar grávida – e Evan passa a assediá-la violentamente para que ela o
assuma como pai da criança.
Usando seu
rosto jovem e aparentemente inofensivo de maneira eficaz ao contrastá-lo com os
maneirismos do personagem, o estreante Sam Parsonson cria um vilão adequado ao gênero:
instável e sempre falando sozinho, Evan é um rapaz que poderia apenas ser visto
como sendo tímido e inseguro caso não conhecêssemos suas motivações – e, assim,
quando ele presenteia a amada com um
ninho vazio, sabemos que, por trás de seu gesto aparentemente gentil, há uma
alfinetada emocional poderosa que busca lembrar Jessie de que seu marido talvez
jamais consiga engravidá-la. Enquanto isso, a neo-zelandesa Lisa Chappell,
lindíssima em seus 41 anos e sem esconder suas charmosas linhas de expressão,
se estabelece como uma protagonista forte e capaz de carregar o filme sozinha –
embora, claro, eventualmente o roteiro sinta a necessidade de levá-la a ser
salva por um homem.
Mas o que mais
se destaca em Coffin Rock é mesmo o
impecável trabalho de fotografia: quando Evan conversa ao telefone, por
exemplo, uma cena que poderia ser corriqueira ganha destaque graças à
composição elegante e ao magnífico contraluz promovido pelo pôr-do-sol ao
fundo. Da mesma maneira, as cenas em que vemos o trailer iluminado do rapaz sob
a chuva é algo não só belo esteticamente como ainda ressalta a estranheza do
personagem em função de sua insistência em enfeitar seu velho trailer com luzes
de Natal fora de época e sob aquele temporal. Além disso, com sua cuidadosa mise en scène, Glasson cria suspense ao
enfocar Jessie conversando ao telefone sem perceber, no batente da porta – e no
primeiro plano -, manchas de sangue deixadas por um ataque prévio de seu algoz.
Infelizmente, Coffin Rock acaba se entregando a todos
os clichês que costumam enfraquecer os trabalhos do gênero: um vilão que
consegue desaparecer num piscar de olhos enquanto a vítima se vira por meio
segundo; a presença do macho-alfa como herói; e, claro, a indestrutibilidade do
antagonista, que, embora humano, parece sobreviver a todo tipo de ataque
enquanto permanece atrás da mocinha.
Ainda assim, é
difícil ser excessivamente rigoroso com o roteiro quando o que está na tela
demonstra tanto cuidado em sua concepção visual. (3 estrelas em 5)