A documentarista e a arquivista da Sony

by Pablo Villaça 19. novembro 2009 16:22

Durante o programa do InFilm, em setembro passado, assistimos ao bom documentário The Cutting Edge: The Magic of Movie Editing, dirigido pela pesquisadora Wendy Apple em 2004. Girando em torno da história da montagem e das diferentes filosofias envolvidas no processo, o longa é interessante e didático, contando com uma quantidade surpreendente de entrevistas e de imagens de arquivos.

Aliás, ao fim da exibição, uma das primeiras perguntas que fizemos à cineasta foi relativa à sua estratégia para conseguir os direitos de utilização daquelas seqüências. “Bom, não pudemos invocar a lei do Fair Use, já que, embora tenha propósitos educativos, o filme também tinha natureza comercial”, explicou Apple. “Assim, bati na porta dos estúdios explicando o propósito do documentário e solicitando que liberassem as imagens”.

Mas não foi fácil. Em uma reunião na Universal, por exemplo, o executivo responsável por atendê-la foi direto ao assunto: “Por que eu deveria ceder os direitos gratuitamente para você? Isso seria estupidez. Não podemos fazer isso.”. Sentindo que receberia um “não” inevitável, a cineasta não hesitou e partiu para o blefe: “Bom, eu conversei com o Spielberg sobre isso e ele ficou entusiasmado. Quer que eu ligue agora para ele para que possam discutir o assunto?”. Ciente de como a relação entre a Universal e Spielberg era importante para o estúdio e de que ela se encontrava abalada, a diretora observou como aquela informação abalou o executivo, que imediatamente mudou de tom. “Ok, vamos fazer o seguinte...”, ele reconsiderou. “Se você conseguir que a Sony libere seus filmes, nós cobraremos o mesmo preço que eles”.

Já era alguma coisa. Porém, era uma vitória agridoce, já que Apple sabia o motivo por trás da condição imposta pelo sujeito: os arquivos da Sony eram administrados por uma veterana notória por sua rigidez ao discutir os direitos sobre as propriedades do estúdio. E, assim, foi com imensa preocupação que Apple marcou uma reunião com a executiva.

O que ela não podia antecipar, porém, era o golpe de sorte que teria em seguida: ao entrar na sala para a esperada reunião, a diretora percebeu que a outra se encontrava num mau humor tenebroso. “Você viu o cara que acabou de sair daqui?”, perguntou a mulher. “Pois ele queria que eu liberasse os direitos sobre os nossos filmes para um documentário que está fazendo!”, comentou, quase com asco, despertando pânico na cineasta, que, afinal, estava ali pelo mesmo motivo. Mas a frase seguinte finalmente a acalmou: “O documentário dele é sobre mulheres em cenas de sexo envolvendo lesbianismo. Só sobre isso! Ele estava interessado em filmes que trouxesse atrizes se beijando!”.

Sentindo a oportunidade que se apresentava, Apple respondeu: “Bom, o meu documentário é sobre a História da Montagem”. A abordagem se mostrou perfeita, já que a executiva imediatamente abriu um sorriso e exclamou: “Que maravilha! Esse, sim, é um projeto digno!”.

No final, a Sony liberou os direitos cobrando o valor simbólico de um dólar por filme – e os demais estúdios não demoraram a seguir o exemplo.

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19/11/2009 16:36:20 #

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19/11/2009 18:25:25 #

Rodrigo

Pablo, eu gosto bastante deste documentário exatamente pelo caráter didático. Mas já li aqui no blog, e também no RT, um comentário seu sobre ele, dizendo que era óbvio demais e muito mal montado. Minha dúvida é: o fato de considerar o filme didático e fraco não seria contraditório?  

Rodrigo | Reply

19/11/2009 21:44:06 #

Léo Ribeiro

Que golpe de sorte dela (Apple). Tipo de oportunidade que surge de vez em nunca. Bacana a história.

Léo Ribeiro Brasil | Reply

19/11/2009 22:38:09 #

Marcos Italo

Olá a todos.

Esse documentário de que o Pablo falou é excelente. Deve ser visto não só por quem se interessa por edição de filmes mas também por quem AMA O CINEMA. Eu mesmo a cada seis meses dou uma reassistida e sempre me divirto bastante.

Pra quem tiver curiosidade em vê-lo, procure pelo DVD Duplo do Filme "Bullit" que foi lançado no Brasil há alguns anos. O documentário está no disco dois e está com legendas em português.

Vale a pena!

Marcos Italo Brasil | Reply

20/11/2009 9:50:56 #

João Paulo Barreto

Soberbo! "Quem sabe vender lenço, não chora em velório". Muito bom!

João Paulo Barreto Brasil | Reply

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