A leitora Elizabete Band publicou o texto abaixo no fórum do Cinema em Cena e achei que valeria a pena reproduzi-lo aqui por julgá-lo um bom ponto de partida para certas discussões. Na realidade, devo dizer que concordo com boa parte do que Elizabete escreveu; a exceção maior fica por conta de sua categorização das crepusculetes como "vítimas de uma conjuntura ampla". Mesmo compreendendo a força da tal conjuntura descrita pela leitora, devo dizer que não creio que esta seja desculpa para a falta de pensamento crítico. E a juventude tampouco o é. Luca, por exemplo, tem seis anos de idade. É um fã ardoroso do Homem-Aranha e possui bonecos, roupas de cama, um cofrinho e até mesmo um lustre do personagem. No entanto, ao assistir a O Homem-Aranha 2, por exemplo, comentou que a seqüência do metrô, por sua natureza e duração, deveria vir ao final do filme, não no meio - uma observação de cunho claramente crítico feita por uma criança que, na época, tinha apenas 5 anos. Seria demais, portanto, esperar que adolescentes de 12 a 17 anos tivessem um pouco mais de sobriedade ao discursar sobre a "saga" Crepúsculo?
Dito isso, deixo vocês com o ótimo post de Elizabete:
"Primeiro gostaria de parabenizar o Pablo pela excelente crítica, eu gosto muito
do estilo de escrita dele, a ironia fina é admirável, e os pontos que ele
escolhe para trabalhar nos textos são ótimos. Sem falar nas metáforas
:)
Mas na verdade eu queria era deixar algumas reflexões sobre os
desdobramentos da crítica Lua Nova.
O filme é ruim? É. Eu não vi, mas
imagino que seja, por tudo que li até agora, por nota no IMDB, e por sexto
sentido, hehe. Os livros da Meyer também são, mas claro que isso não impede de
vender muito. Muitas coisas ruins vendem muito, até porque somos vítima da mídia
de massa, e nossa sociedade está cheia de gente sem senso crítico; o produto
ruim vende porque quem compra o quer assim, e por isso ele existe.
O que
me espantou na verdade foi a histeria coletiva das meninas e o tom colérico e as
mensagens de ódio com relação à crítica. Só que depois de um tempo eu parei pra
pensar. Acho que ninguém está parando para entender o porque do fenômeno, e
lendo algumas das mensagens das meninas nos fóruns, eu acabei fazendo a seguinte
análise.
Crepúsculo é um romance, e realmente um tipo de Romeu e Julieta.
É um romance emo (e emo remete literalmente à emoção), e emoção, nós sabemos,
não é um sentimento bem trabalhado por ninguém hoje em dia. Essas meninas
cresceram vendo bunda na TV, vendo uma hiperexploração do sexo até mesmo em
idades inadequadas, e estiveram expostas precocemente ao cinismo de uma
sociedade cada vez mais permissiva nos costumes ao mesmo tempo em que valoriza
cada vez menos os sentimentos e sua expressão. O "movimento" emo não surgiu à
toa. É preciso refletir sobre os porquês disso tudo.
Tenho 31 anos, sou
médica, e adoro ler. Lembro que na minha época de adolescente esse tipo de
histeria coletiva só acontecia em shows de mega ídolos, Madonna, Michael
Jackson, gente desmaiando. O fato da série crepúsculo conseguir gerar esse tipo
de reação por si só já chama a atenção para o porque disso ocorrer. Como disse
uma das fãs no fórum já citado aqui, os livros fizeram com que ela acreditasse
novamente no amor. Será que isso basta para justificar todo esse movimento? Fico
pensando, talvez. Porque ao mesmo tempo em que nossas adolescentes são
bombardeadas precocemente com repressão emocional, cinismo e bundas, é cobrado
socialmente que elas acreditem no amor, na pureza, que só façam sexo com alguém
que elas gostem. É cobrado que se casem e tenham uma relação até que a morte os
separe. São chamadas de vagabundas se não seguem determinados padrões
hipócritas. Deve ser um mundo difícil de viver. Ainda mais quando se tem 12, 15
anos, e não se entende nada da vida.
Além disso, o que as meninas têm
feito é um típico movimento de rebanho. É irracional, coisa de matilha, e vemos
esse mesmo movimento nos estádios de futebol, só que os gritos dos homens não
são tão agudos. Tem gente que literalmente mata e morre por um time, e não
existe argumento que mude isso. É irracional, é catarse, e eu enxergo como o
mesmo movimento que está acontecendo ao redor da série Crepúsculo.
Não
adianta argumentar; as fãs não têm a maturidade exigida para entender a crítica
do Pablo, como ainda não têm a educação necessária nem para escrever
corretamente, nem raciocinar logicamente ou argumentar corretamente. Lembrem que
estamos num momento em que não se valoriza livros nem leitura, as pessoas
escrevem cada vez menos, de forma cada vez mais abreviada, e há correntes que
pensam que o próprio raciocínio humano ficará assim, cada vez mais telegráfico,
consequência dos novos meios de comunicação.
A histeria de crepúsculo me
lembra muito a histeria dos alunos da Uniban, guardadas as devidas proporções, e
penso que deve ser visto como um fenômeno digno de análise e não apenas de
revolta crua e sem repercussão. Não consigo ver as meninas como vilãs ou
criminosas. Apenas como vítimas de um conjuntura ampla."