Visita à Disney Animation

by Pablo Villaça 25. novembro 2009 12:03

(O texto abaixo faz parte do Diário de Bordo que escrevi durante o programa Como Filmes e Programas de TV São Realmente Feitos, que comandei no InFilm em setembro de 2009.)

Comentei anteriormente que certas empresas visitadas pelo grupo do InFilm normalmente não recebem visitas de cinéfilos ou mesmo profissionais interessados apenas em conhecer seu espaço de trabalho; pois com a Disney Animation é diferente: ela nunca abre seu prédio a visitantes. Caso você não seja um artista trabalhando em algum projeto diretamente relacionado à companhia ou não tenha interesses comerciais ligados ao estúdio, a entrada é inevitavelmente barrada – e por isso percorrer aqueles corredores representou uma experiência ainda mais fascinante.

Preparando-se para o lançamento da animação A Princesa e o Sapo, a Disney Animation praticamente redecorou a maior parte de seu interior com elementos relacionados ao filme, desde o lobby (que trazia partituras com trechos da trilha, células originais da animação e uma tevê exibindo seqüências finalizadas do filme) até aposentos inteiros que recriavam o French Quarter de New Orleans, onde a história se passa. Primeira animação tradicional, em 2D, produzida desde que John Lasseter assumiu o posto de chefão da Disney, A Princesa e o Sapo também traz a primeira princesa negra da história do estúdio, além de marcar também a estréia do compositor Randy Newman no departamento 2D depois de colaborar por mais de uma década com Lasseter nos projetos da Pixar.

Caminhando pelo prédio da Disney Animation, aliás, fomos surpreendidos pela quantidade de desenhos expostos em praticamente toda a extensão das paredes – e logo fomos informados de que boa parte daquelas magníficas pinturas, que poderiam facilmente ser emolduradas e penduradas em qualquer sala, havia sido produzida por estagiários do estúdio, que sempre recebem a tarefa de conceber peças de naturezas diferentes para que os supervisores de animação possam avaliar quais são os pontos fortes e fracos de cada artista da empresa. Além disso, storyboards de várias produções Disney e artes conceituais dos projetos mais recentes dividiam aquele espaço igualmente com as obras dos iniciantes, numa atitude admirável por parte dos diretores da empresa.

Aliás, ao assumir a Disney Animation, Lasseter levou para o estúdio a mesma filosofia que adotou na Pixar e, assim, uma de suas primeiras providências foi demolir todas as paredes das salas dos executivos no centro do prédio, criando uma imensa área aberta que passou a servir de espaço de convivência dos funcionários, contando com uma lanchonete (na qual tudo é gratuito), uma mesa de reunião, confortáveis e coloridas poltronas e um jukebox. Da mesma maneira, cada novo projeto da Disney Animation ganhou seu próprio centro de produção em um canto do edifício, sendo completamente decorado com os temas principais da obra: assim, ao atravessarmos um arco contendo as palavras “New Orleans”, mergulhamos num ambiente repleto de pinturas, objetos de decoração e desenhos relacionados a A Princesa e o Sapo – e, mais tarde, ao atravessarmos outro “portal”, chegamos a uma área dominada por elementos que remetiam ao projeto seguinte da companhia, Rapunzel.

Incluindo artes conceituais originais desenhadas pela lendária Mary Blair para Cinderela, de 1950 – pinturas que certamente arrecadariam (no mínimo) alguns milhares de dezenas de dólares em qualquer leilão.

E por falar em Rapunzel, pudemos apreciar vários estudos feitos para o filme que a Disney lançará no final de 2010, desde diferentes versões criadas para a personagem-título até esculturas que servirão de referência para os animadores na criação deste que será o primeiro musical em 3D do Cinema, além de ser também uma animação tradicional em 2D apresentada em 3D, outra inovação do estúdio (já as músicas serão compostas por Alan Menken, figura tradicional da Disney). De acordo com Jessica Hallock, relações-públicas da empresa, a Rapunzel vista no longa (e que terá a voz de Mandy Moore) será bastante diferente da heroína tradicional da fábula, surgindo como uma jovem independente e forte que não hesita em partir para a ação quando julga necessário, surpreendendo até mesmo o príncipe dublado por Zachary Levi (da série Chuck).

Depois de sairmos da “ala Rapunzel”, fomos levados a uma pequena sala que trazia um quadro imenso com as datas previstas de lançamento de A Princesa e o Sapo em dezenas de países, bem como os nomes dos principais parceiros comerciais que o estúdio havia estabelecido nestes mercados, mas nossa atenção foi logo deslocada para o imenso monitor no qual assistimos a uma das seqüências do longa: um número musical protagonizado pelo vilão, Dr. Facilier (voz de Keith David), pelo mocinho (o brasileiro Bruno Campos) e pelo melhor amigo deste, cujo visual foi claramente inspirado nas feições do ator Timothy Spall, embora não seja dublado por este. Embora trouxesse um ou outro plano ainda não finalizado, a seqüência se mostrou inventiva e divertida, indicando que Facilier talvez se torne mais um vilão memorável da galeria Disney.

Para finalizar o passeio, visitamos a sala que pertenceu a Roy Disney, sobrinho de Walt que abandonou a empresa em 2003: localizada no interior do imenso chapéu de mago usado por Mickey em Fantasia (e que enfeita a fachada do prédio), a sala tem, claro, paredes inclinadas e uma pintura que, composta por faixas verticais, logo passou a provocar vertigens nos integrantes do grupo – e foi aí que Hallock explicou que a sala, inicialmente usada para reuniões, foi logo abandonada justamente por gerar desconforto nos ocupantes, transformando-se quase numa espécie de pequeno museu. Um museu que ninguém se atreve a visitar sem tomar remédios para labirintite.

Tags: , ,

cinema | infilm | viagens

Comentários

25/11/2009 12:54:06 #

Fernando Duarte

Olá, imagino que não tenha sido permitido, mas não custa perguntar: tem imagens?

Fernando Duarte Brasil | Reply

25/11/2009 13:16:35 #

Sylvia

Pablito, seu sortudo filho da mãe!! Acho que eu desmaiaria se me visse na Disney Animation, heheh

Brincadeiras (invejosíssimas!) à parte, adorei, adorei esse seu relato. Estou esperando A Princesa e o Sapo com grande expectativa, pois sinto muita falta dos desenhos 2D (que na minha saudosista opinião imensamente mais expressivos e charmosos que os 3D).

Só lamento a participação de Randy Newman nesse projeto. Acho as letras de suas músicas infantis e repetitivas demais...

Abraços!

P.S. - Se, à semelhança do (absurdo) que aconteceu com o lançamento de "Um Conto de Natal" em SP, "A Princesa e o Sapo" não tiver cópias legendadas, acho que esgano um...  

Sylvia Brasil | Reply

25/11/2009 17:27:52 #

Flavio

Ahh a Disney, fantástica. Sempre fui fã do estudio.

Flavio Brasil | Reply

25/11/2009 19:30:02 #

Joaquim

Mais um numa série de excelentes postagens jornalísticas do Pablo. Sensacional.

E muito boa a ponderação sobre cinema nacional abaixo, reitero. Esse tipo de debate faz muita falta na mídia sobre cinema no Brasil. Pablo mandando muito, muito bem!

Joaquim Reino Unido | Reply

25/11/2009 23:24:22 #

Maíra

Bela descrição  Pablo! Gostaria de ter estado lá. Foi quase como tivesse estado. Infelizmente, não tenho imaginação sufiente para imaginar as ilustrações e decorações.

Maíra Brasil | Reply

Comentar


(Vai mostrar seu Gravatar)

  Country flag

biuquote
  • Comentário
  • Pré-visualização
Loading



Posts recentes

Comentários recentes

Comment RSS

Calendar

<<  setembro 2010  >>
seteququsedo
303112345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930123
45678910

View posts in large calendar