Não é preciso ser lulista como eu para concluir que a Folha de São Paulo desta vez passou de qualquer limite aceitável no que diz respeito à ética jornalística. Vou além: se o conto (porque é um conto) de César Benjamin girasse sobre Fernando Henrique ou José Serra, minha revolta com relação a este tablóide (porque virou um tablóide) seria absolutamente a mesma.
Senão vejamos: um sujeito escreve um artigo afirmando que, há 15 anos, o atual Presidente da República confessou, durante um almoço, ter tentado estuprar um jovem militante do MEP enquanto dividiam a mesma cela. O autor do texto não possui qualquer evidência que comprove sua gravíssima denúncia, afirma não se lembrar direito de quem estava à mesa, identificando apenas dois nomes diretamente ligados ao Presidente, e confessa não saber quem era a tal vítima de estupro.
O que a Folha faz? Ora, óbvio: publica o artigo sem pensar duas vezes.
Este é o exemplo perfeito da extrema irresponsabilidade que tomou conta de órgãos como Folha, Veja e afins. É por isso que a nova Lei de Imprensa se tornou pauta. Se os grandes veículos passaram a se comportar como crianças, dizendo o que lhes vem à mente sem avaliar as conseqüências e sem embasar o que afirmam, a coisa está muito errada.
Aliás, retiro o que disse: eles avaliam, sim, as conseqüências. E é isso que motiva artigos como este. Se a reputação do Presidente e sua aprovação pela população parecem inabaláveis depois de tantos artigos de ataque, resta apenas a apelação total: acusá-lo de crime sexual. E de natureza homossexual. Chego a me questionar se a Folha não cogitou a possibilidade de dizer que Lula ainda chutou uma Santa depois de tentar violentar o "menino do MEP", já que isto seria o complemento perfeito para um artigo que visa despertar a revolta do brasileiro médio.
A tática politiqueira da Folha (abraçada com entusiasmo pelo canalha Reinaldo Azevedo, que saltou sobre a notícia como um cão faminto salta sobre um osso) em nada difere do que vermes como Glenn Beck, Bill O'Reilly e Sean Hannity vêm fazendo na Fox News ao sugerirem que Obama é "comunista" e quer "matar velhinhos" com seu projeto de atendimento médico patrocinado pelo Estado. Ou ao insinuarem que ele não nasceu em solo norte-americano.
Publicar um artigo desses é a morte definitiva da Folha. Que começou a se matar ao emprestar seus furgões para transportar presos torturados na Ditadura, ao calar-se no meio da investigação sobre o Sr. X que pagou 200 mil dólares para os deputados federais pela emenda da reeleição e ao rebatizar o período mais trágico de nossa história política recente como "ditabranda".
E que ela cumpra seu dever agora e apure o factóide que criou, buscando o "menino do MEP" e tentando confirmar o depoimento de Benjamin - lembrando-se de que, ao falhar, cimentará de vez qualquer vestígio de integridade que ainda possuía.
Update: Na edição de hoje, sábado (28/11), a Folha apurou a informação de que a denúncia de tentativa de estupro era infundada (oh!). Deveria ter feito isso ontem, antes de publicar essa coisa nojenta. Além disso, a VEJA (um amálgama de Pat Robertson, Rush Limbaugh, Ann Coulter e o Diabo) entrevistou o suposto "menino do MEP", que negou tudo. A manchete usada pela VEJA para a matéria? Se você pensou em algo como "Menino do MEP nega que Presidente tenha tentado estuprá-lo" ou algo mais claro, não conhece as táticas repulsivas da revista. O título é, simplesmente, "Triste e abatido".
Enquanto isso, o cineasta Silvio Tendler afirmou estar presente durante a tal conversa e negou categoricamente que Lula tenha confessado ter tentado estuprar um colega de cela e...
... não dá. Simplesmente não dá. Só de escrever esta última frase senti vontade de rir do absurdo. Então um candidato à Presidência, em meio a uma campanha disputadíssima, confessaria durante um almoço com meros conhecidos, de maneira absolutamente casual, ter cometido um crime de natureza sexual? Uma história cabeluda que nunca veio a público em 30 anos? E tem gente que acredita nisso? E FOLHA e VEJA publicam como fato? E Marcelo Madureira (do Casseta) escreve para a Folha para elogiar a "denúncia", provando que, além de sem graça, é também um imbecil? E Reinaldo Azevedo passa a chamar Lula, o Presidente da República, de "estuprador" sem ter qualquer evidência para isso?
E tem gente que ainda acha isso tudo "normal"? Não, não, a vontade rir passou. A reação mais apropriada é a ânsia de vômito.
Update 2: "O que está em discussão aqui é justamente a maneira de lidar com
dois fatos que guardam certa semelhança. FHC tinha um filho na Europa,
era algo sabido e comprovado, e ninguém falou nada para não arranhar
sua reputação. Agora, vem um cara dizer que Lula tentou estuprar um
colega de cela, sem prova alguma, sem evidência nenhuma, e ganha uma
página inteira no maior jornal do país. Tenho muita saudade dos tempos em que trabalhei na “Folha”, e do
jornal que fazíamos então. Jamais publicaríamos um artigo desses, com
acusação tão grave, sem a menor comprovação. O jornalismo, tal qual
aprendi a fazer na Barão de Limeira, não existe mais." - excelente post de Flávio Gomes sobre o assunto.