Quando comecei a atuar como crítico de cinema, em 1994, era um completo desconhecido no meio. Escrevia para alguns BBS de Belo Horizonte (a Internet pré-Internet) e em um jornal regional. Em 97, com a criação do Cinema em Cena, comecei lentamente a ganhar alguns leitores e eventualmente decidi largar a Medicina (estava no sétimo período da UFMG) para me dedicar com exclusividade ao site - e dois anos depois, como chefe de redação da revista MovieStar, percebi que a crítica viera para ficar.
Nesta época, eu era "novidade" - e, assim, era comum ver meu nome citado ao lado de elogios feitos por leitores satisfeitos com a chance de ler algo sobre Cinema escrito por alguém diferente dos medalhões habituais. O curioso é que, lendo textos da época (especialmente aqueles escritos em 1997 e 98), continuo a concordar com os argumentos em si, mas sinto certa vergonha da forma com que escrevia (há exceções; acho a
análise sobre Amadeus aceitável, por exemplo). Com o passar do tempo, fui me sentindo mais seguro de minha "voz" e o Cinema em Cena foi se estabelecendo como referência na Internet brasileira.
E, de um dia para o outro, comecei a perceber que muitos me odiavam.
Sim, a palavra é "ódio". Passei a receber emails ofensivos com freqüência cada vez maior e em diversos fóruns meu nome se transformou em sinônimo de "mau crítico". O romance inicial havia chegado ao fim. Para piorar, ignorando os conselhos de amigos e familiares, eu buscava ativamente essas mensagens negativas, lendo-as e, em vários casos, respondendo-as. E cada uma delas me irritava profundamente.
E então, depois de uns dois anos, as mensagens positivas e os elogios retornaram como que por encanto. Eu era "in" mais uma vez. Sim, aqui e ali surgiam detratores, mas nada como antes. Ou eu estava fazendo algo de incrivelmente certo ou o ciclo reiniciara sozinho.
O que me traz à fase atual: ou estou fazendo algo de incrivelmente errado ou o ciclo saltou para a segunda fase. Chega a impressionar: há pessoas que parecem ignorar tudo o que escrevo até que, ao encontrarem uma palavra da qual discordam, escrevem posts longos e apaixonados sobre como sou detestável, estúpido e mereço a morte. Claro que agora aprendi com os erros do passado e não saio buscando estas ofensas, mas há sempre leitores "prestativos" que não hesitam em enviar links para as agressões - e mesmo tendo amadurecido um pouquinho (ênfase no "pouquinho"), não consigo resistir ao simples clique que me levará à fogueira.
Há exceções? Claro que sim: há alguns dias, por exemplo,
linkei aqui a carinhosa carta aberta de um leitor - que, por sua vez, inspirou várias outras mensagens de carinho. Mas os
haters também se fazem presentes pelo Twitter (quando insistem em incluir um "@pablovillaca" em seus posts de ataque para se certificarem de que os lerei), através de emails e em posts no fórum do Cinema em Cena (parei de ler outros fóruns e mesmo de publicar respostas no nosso próprio). Mas acho que é inevitável que isso aconteça.
Enfim. Não há uma conclusão ou mesmo um insight neste post. Senti apenas a necessidade de comentar esse curioso (e frustrante) ciclo que venho observando ao longo destes quase 16 anos (caramba) como crítico.