A Linguagem do Cinema 3D

by Pablo Villaça 22. dezembro 2009 14:27
Avatar é, sem dúvida alguma, um grande avanço no que diz respeito à criação de ambientes e personagens totalmente gerados em computador - e também é importante observar como James Cameron se mostrou capaz de explorar a projeção 3D sem, com isso, cair na velha armadilha de incluir diversos momentos em que algo "salta" para fora da tela, assustando o espectador de maneira artificial e lembrando o público de que, afinal de contas, tudo aquilo não passa de um filme. Porém, por mais madura que tenha sido a abordagem do cineasta, é possível que só venhamos realmente a testemunhar um avanço real na linguagem narrativa do 3D dentro de alguns anos, o que, apesar de natural, não deixa de ser frustrante.
 
Para compreender os motivos que levarão a esta demora, é preciso fazer uma breve recapitulação histórica: no início, quando o Cinema surgiu, a razão de aspecto das telas e, conseqüentemente, da captação das imagens era 4:3 (ou 1.33:1), ou seja: um quase quadrado. Com isso, os cineastas do período eram obrigados a conceber composições que freqüentemente soavam amontoadas, sem espaço para respiro - especialmente quando três ou mais atores se encontravam em campo, o que obrigava os diretores a distribuírem os elementos em cena através de vários planos, de pontos mais próximos da câmera até outros mais afastados desta. Da mesma forma, quando se tornava necessário enfocar amplos espaços abertos, a solução muitas vezes residia em incluir mais teto do que laterais, como fica óbvio no plano (que exibo em meu curso) de ... E o Vento Levou em que a câmera se afasta de Vivien Leigh depois que esta faz sua promessa de jamais passar fome novamente - quando, então, o céu domina o quadro, mantendo Leigh em contraluz. (Se fosse realizado alguns anos depois, o filme provavelmente expandiria o quadro para os lados, enfocando mais a terra seca do que as nuvens.)
 
Com a abertura do quadro para razões maiores, de 1.65:1 a 2.35:1, os cineastas finalmente puderam permitir que suas composições respirassem mais, brincando com a gradação dos elementos em cena e distribuindo-as de maneira mais elegante e visualmente sofisticada. Além disso, jogos estéticos feitos através da profundidade de campo  (e que já eram presentes no 1.33:1) permitiam conduzir o olhar do espectador, focando detalhes específicos ou mesmo enganando propositalmente o público, como no inesquecível plano de Cidadão Kane em que temos nossa perspectiva enganada através da grande profundidade de campo e julgamos, erroneamente, que as janelas da sala se encontram bem mais próximas do que estão na realidade - e é somente o deslocamento de Kane pelo ambiente que nos leva a perceber a dimensão da sala.
 
Ora, como isto poderia ser feito num filme 3D? A profundidade do campo, que no 2D deve ser recriada/sugerida através da perspectiva, já é uma informação fornecida automaticamente ao espectador - e, portanto, jogos cênicos como o de Cidadão Kane se tornariam impossíveis. Por outro lado, a exploração desta nova dimensão é algo que certamente renderia uma série de vantagens para os cineastas contemporâneos, que finalmente poderiam compor seus quadros levando em consideração mais um importante aspecto na distribuição de seus elementos cênicos.
 
Porém, como já dito anteriormente, ainda seremos obrigados a aguardar alguns anos até que a linguagem 3D comece a ser suficientemente desenvolvida neste aspecto. Por quê? Enumero alguns fatores:
 
1) A imaturidade: por enquanto, a maior parte dos cineastas encara o 3D como um brinquedo novo. E, como crianças empolgadas, sentem a necessidade de exibir este brinquedo para todos através de trucagens que em nada acrescentam à narrativa, servindo apenas como distrações - se encaixando, aqui, todos os exemplos de planos em que algo parece pular na direção do público, o que, por romper a quarta parede e expor a artificialidade do Cinema, enfraquece a narrativa.
 
2) O costume: ao longo dos últimos cento e tantos anos, os cineastas se habituaram a pensar em apenas duas dimensões ao conceberem seus planos. Serão necessários alguns anos até que consigam se acostumar com a dimensão extra e percebam que agora não precisam mais usar a perspectiva artificialmente, mas que podem literalmente explorar a profundidade do quadro.
 
3) O dinheiro: como toda grande mudança técnica na História do Cinema, o 3D não surgiu de um impulso artístico, mas como conseqüência de preocupações estritamente financeiras. Foi assim com o Som, com a Cor e com o abandono do 1.33:1. Assim, o 3D é mais uma resposta direta às ameaças da pirataria do que qualquer outra coisa. Porém, o número de telas 3D ainda é relativamente pequeno e, portanto, nenhum filme se pagaria caso buscasse explorar apenas os cinemas aptos à exibição em três dimensões. Conseqüentemente, os cineastas ainda não têm liberdade para pensar estritamente em 3D, já que devem se preocupar também com as telas em que seus filmes serão exibidos em 2D - o que, obviamente, é um imenso obstáculo ao desenvolvimento da linguagem. Além disso, há a questão do home video, que representa uma fatia determinante na renda das produções e que ainda não conta com uma solução de exibição em três dimensões.
 
Porém, considerando os esforços de Jeffrey Katzenberg, chefão da DreamWorks, e do próprio James Cameron no sentido de popularizar o formato (incluindo o desenvolvimento de um 3D que não exija o uso de óculos especiais), é apenas uma questão de tempo até que nos aproximemos do momento em que os cineastas finalmente se verão completamente livres para que possam explorar e desenvolver a linguagem - e esta é uma pequena revolução que estou ansiosíssimo para testemunhar.

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Comentários

22/12/2009 15:35:31 #

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22/12/2009 15:36:08 #

Eduardo

Interessante.

Eduardo Brasil | Reply

22/12/2009 15:56:50 #

Rodrigo Alves

Eu gostei muito do modo sutil com que o James Cameron usou o 3D em Avatar. Por exemplo, uma cena em que Jake vai entrando na floresta, é possível notar que as folhagens vão "saindo" pelos extremos do quadro, mas sem vir diretamente em direção ao expectador. Eu achei interessantíssimo, e me deu uma tremenda sensação de imersão, como se eu realmente estivesse adentrando a floresta com o protagonista.
Só acho uma pena que algumas pessoas achem que filmes que fazem o uso extremo do 3D (como é o caso dos já citados objetos que pulam pra "acertar" a platéia) valem mais a pena, pois exploram mais o recurso.

Rodrigo Alves Brasil | Reply

22/12/2009 16:11:01 #

Leonardo Brondani Schenkel

Oi Pablo,

Um comentário sobre o home video: sabia que já padronizaram o 3D no formato Blu-ray?

feeds.arstechnica.com/.../...een-so-enthralled.ars

O objetivo é que equipamentos suportando o novo formato já estejam à venda quando Avatar for lançado em Blu-ray, em alguns meses.

Leonardo Brondani Schenkel Suécia | Reply

22/12/2009 16:41:44 #

José Marcelo


É sempre bom ler artigo sobre cinema feitos por quem entende de cinema.

PS: Pablo, nada ver com o assunto mas, navegando pelo sítio, percebi que vc não publicou crítica sobre Frost/Nixon.

José Marcelo Brasil | Reply

22/12/2009 17:04:54 #

Flavio

Um dos problemas do 3D é justamente a transposição para o 2D. Assisti Monstros vs. Alienigenas no DVD, e consequentemente em 2D. Com isso percebi as fraquezas do filme, coisas que normalmente eu não perceberia se estivesse distraido com os efeitos tridimensionais. E como na minha cidade não tem cinema em 3D assisti AVATAR no modo tradicional, e não percebi nada parecido, portanto acredito que Cameron realmente esta aperfeiçoando a técnica. Alguns filmes perdem totalmente a graça quando sofrem essa transposição, e outros, o 3D é apenas algo pra complementar, sem afetar totalmente a qualidade final, o que é o caso de AVATAR e UP! Essa é uma tecnologia que esta engatinhando e precisa de muito estudo e cuidado pra não sumir antes de crescer.

Flavio Brasil | Reply

22/12/2009 17:33:11 #

Felipe Dias

É empolgante ver que a linguagem artística do cinema está sendo mudada não?
Mesmo essas inovações não tendo sido impulsionadas por motivações artísticas, é um sinal de que a arte vive e a vontade de se reinventar ainda pulsa!

Felipe Dias | Reply

22/12/2009 17:43:40 #

Pedro d'Aquino

Em Avatar, há uma cena bem legal que ilustra o uso do 3D como ferramenta de expressão.
(SPOILER)
Em um determinado momento, Jake volta à consciência humana e percebe que está cada vez mais ligado ao mundo dos Na'vi, o que o deixa um tanto desesperado. Para ilustrar seu estado de espírito, Cameron distorce propositalmente o 3D, deixando a profundidade dos elementos sutilmente "errada". A sensação de desorientação do espectador remete à confusão mental do protagonista.

Pedro d'Aquino Brasil | Reply

22/12/2009 18:20:54 #

Joaquim

Pablo, sobre o "dinheiro", dá para argumentar que qualquer inovação tecnológica, inclusive a própria invenção do Cinema, foi feita com fins "lucrativos", assim como qualquer outra conquista tecnológica dele (Cor, a vida do som, os já citados Widescreen, o home video, som digital, etc).

Seu texto faz excelentes observações, como sempre.

Joaquim Reino Unido | Reply

22/12/2009 19:17:14 #

Guilherme Huyer

Gostei do texto, MAaaaas:
"trucagens que em nada acrescentam à narrativa, servindo apenas como distrações - se encaixando, aqui, todos os exemplos de planos em que algo parece pular na direção do público, o que, por romper a quarta parede e expor a artificialidade do Cinema, enfraquece a narrativa."
Discordo completamente de que esses planos em que algo pula na direção do público enfraqueçam a narrativa. De modo algum. Aliás, na minha opinião a única coisa que faltou em Avatar foi a presença desses. O que eu concordo é que esses planos deveriam ser concebidos de modo orgânico à narrativa, e não simplesmente jogados gratuitamente. Isso sim enfraquece a narrativa. O problema não é algo saltar da tela, e sim sua razão na história.

Guilherme Huyer | Reply

22/12/2009 19:33:01 #

vinicvieira

cara, discordo um pouco em relação ao uso do 3D pelo cameron, eu acho que o que ele queria atingir era exatamente essa profundidade, não o uso dela como cidadão Kane, mas sim de um modo mais mundano, no sentido de imersão como o cara falou ai em cima... fiquei impressionado (como escrevi no meu blog) de verdade no quanto você consegue se posicionar dentro de vários planos dentros das cenas do filme, principalmente quando dentro da base humana, que é extremamente bem dividida em "camadas", pra mim é essa a grande diferença dele para os outros, essa sensção de "estar" ali no meio, "abraçado" por aquela cena... assim como não acho que esse próximo passo acontecerá, já que ele teria que ser dado por algum cineasta mais preocupado com a linguágem do que com as bilheterias, e eu não acho que um cara desses se disponha a fazer uma experiência dessas (tomara que eu queime minha lingua). Talvez o Almodovar filmando em 3D? dúvido... fica pra gente apenas sonhar com o Kubrick tendo vivido mais umas decadas para ter um negócio desses nas mãos... Cameron fez o máximo, e o 3D nunca irá atingir o cinema que não seja de ficção/terror/suspense (meio Frankfurtiano, mas é no que eu aposto)...

vinicvieira Brasil | Reply

22/12/2009 19:47:21 #

Henrique Rangel

Parabéns pelo post. Não havia pensado nesse sentido de imaturidade do 3D. Creio que o próximo passo seria a realização de filmes com gêneros incomuns em 3D, como a comédia e o drama (acredito que o Cameron disse algo assim anos atrás), não concorda?

Henrique Rangel Brasil | Reply

22/12/2009 21:43:26 #

Antônio

Pablo, você conseguiu assistir Avatar em 3D em BH? Se sim, onde por favor?
Abraços

Antônio Brasil | Reply

22/12/2009 21:48:08 #

Pablo

Está sendo exibido no Paragem, no BH, no Diamond e no Pátio.

Pablo | Reply

22/12/2009 21:53:07 #

Antônio

Obrigado!

Antônio Brasil | Reply

22/12/2009 22:19:52 #

Lucas

Acabei de assistir Avatar.
Achava meio fake pelos trailers (o 3D) mas fiquei impressionado. Os oculos fazem diferenca. Achei envolvente, ate me emocionei uhehue. Adorei os Na'vi. Quero namorar o avatar do Scully.
E o que eh a atriz que faz a Na'vi principal? Acho que ela merece ao menos ser indicada a alguns premios. Achei excelente.

Lucas Irlanda | Reply

23/12/2009 1:25:35 #

vinicvieira

é Sully e a mina e zoey saldana que a pouco tempo fez star trek (uhura) e a um tempão "o Terminal"

vinicvieira Brasil | Reply

23/12/2009 2:13:49 #

Eric

Mais uma vez tá chegando o momento de botar, assim que possível, o escorpião do bolso prá dormir:

info.abril.com.br/.../...d-em-2010-15122009-33.shl

Não vejo a 3D limitada por gêneros de filmes. Basta um pequenino exercício de imaginação prá me deixar, como bem disse o PV, ansioso prá testemunhar, as maravilhas que estão por vir!!

Eric Brasil | Reply

23/12/2009 10:53:19 #

Leandro Augusto Pereira

Eu tenho uma dúvida que ninguém conseguiu me responder: Quem usa ôculos como faz para assistir a esses filmes? Põe um em cima do outro? Tira e usa só o 3D? Tem ôculos 3D com grau?

Leandro Augusto Pereira Brasil | Reply

23/12/2009 13:30:07 #

Vincent Vasquez

Só pra entender melhor: as composições de tela que soam amontoadas, sem espaço para respiro são tipo as que vemos nas novelas?

Vincent Vasquez Brasil | Reply

23/12/2009 16:36:38 #

José Mário

Acho que realmente o 3D tem de evoluir muito. Dos três filmes que assisti ( Up, Tá chovendo Hamburguer e Avatar) não consegui notar diferença gritante para os filmes 2D. Como disse o Pablo, a maioria das coisas são mesmo objetos pulando da tela.

Mas acredito que é uma ferramenta muito poderosa. Avatar começou a mostrar isso, mas ainda devagar. A grande inovação dele é realmente o movimento dos Na'vi e a perfeição dos cenários. De forma nenhuma diminuo o filme, que é espetacular. Apenas não deve ser tão diferente do 2D.

José Mário | Reply

23/12/2009 23:30:38 #

Jacques

"que, por romper a quarta parede e expor a artificialidade do Cinema, enfraquece a narrativa."

Tb discordo disso aqui. Não falo das coisas que pulam na tela, mas de recursos de artificialidade declarada de um modo geral. Não acho que expor determinados recursos cinematográficos enfraqueça a narrativa. Não são coisas contrárias. Acho que o espectador é capaz de reconhecer algo como artificial e ainda assim imergir completamente na história. Isso é concepção fechada em cinema classico narrativo, em que tudo estaria a serviço da trama.

Mas, no geral, gostei do post.

Jacques Brasil | Reply

23/12/2009 23:39:17 #

robfarah

Pablo, você disse que o home video impede o uso do 3D em casa, mas o blu ray de Coraline que comprei é em 3D (tem tb a versão 2D) e veio com 4 óculos.

Imaginei que todos os filmes 3D seriam lançados assim.
Não assisti nenhum nos cinemas porque eram dublados e pretendia assistir em 3D em casa.
Pelo visto, meu plano terá de ser repensado.

robfarah Brasil | Reply

24/12/2009 2:17:08 #

Eric

Leandro Augusto Pereira, põe um óculos por cima do outro.

Só prá constar: quem assiste(iu) "Avatar" em 2D, simplesmente não assiste(iu) "Avatar". Aos 5 minutos de filme já tinha tomado a decisão: "Terei que voltar aqui (ao cinema), para ver pelo menos mais uma vez!". Sim. É "ver" mesmo! "Escapam" tantos detalhes momentâneos, que só vendo... de novo!, para aumentar o percentual da percepção do que rola na tela.
Absolutamente imperdível, apesar das semelhanças com "Dança com Lobos" e com "Matrix" terem me incomodado um bocado. Será que rolam 12 Oscars, detonando assim o record de 11, pertencente a "Titanic", "O Retorno do Rei" e "Ben-Hur"?

Eric Portugal | Reply

24/12/2009 13:59:09 #

Aquiman Costa

Estou muito louco para ver Avatar, louco mesmo. Smile

Aquiman Costa Brasil | Reply

25/12/2009 22:27:20 #

Ana

Também tinha achado interessante o uso elegante do 3D pelo Cameron (o Spielberg teria jogado os bichos de Pandora na cara da gente), e, quando li seu post, me achei até um pouco entendedora de cinema.
Assisti ao Avatar dos dois modos, e achei a versão 3D mais favorecedora das proporções, por exemplo, da altura dos na´vi em relação aos humanos e à própria floresta. Mas notei um furo do filme quando Jake Sully pula numa cachoeira para fugir de um animal: vista de cima, a cachoeira é enorme, altíssima; vista de baixo, parecia ter uns quatro metros no máximo. Mas isso, é claro, não obscurece em nada a imensa beleza do filme.
Acho que ainda vamos falar do Avatar por muito tempo.

Ana Brasil | Reply

28/12/2009 14:35:18 #

Tiago Cardoso

adorei a postagem... muito boa e explicativa....
agora entendo pq eu achei o 3D do filme Avatar meio fraco....
pq simplesmente eu nunca tinha visto um filme em 3D antes e por isso eu esperava as coisas saindo fora da tela e em minha direção.. o filme em si naum tem esse tipo de coisa... ja os trailers passados antes teem... por isso gostei mais dos trailers kkkk

como foi a minha primeira vez.. naum me importaria com a narração e nada... queria ver as coisas pulando da tela...

não vi... exceto algumas cenas contadas nos dedos.. e ainda tive tempo pra ficar tentando enteder como a imagem era feita.. e enganando a ilusão de 3D...
simplismente olhando para o canto da tela e percebendo que havia camadas nas imagens.. e isso me deixava meio frustrado.. mas adorei o filme em si...

Tiago Cardoso Brasil | Reply

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