Como é bom escrever um título de post como esse. É difícil acreditar, aliás, que vi e comentei o último episódio inédito de "Lost" há longuíssimos oito meses, mas a espera finalmente chegou ao fim - e se tornou suportável graças a Dexter, que supriu minha necessidade de uma boa narrativa em série neste meio tempo. Pois bem, comento a seguir os dois primeiros episódios da sexta e última temporada de Lost e, embora eu vá tentar não revelar nada de especialmente importante, creio ser recomendável que este post seja lido apenas por aqueles que já assistiram à estréia.
Aviso dado.
Uma das coisas que mais me fascinam em Lost não diz respeito à sua trama repleta de reviravoltas e mistérios ou mesmo os personagens interessantes. Não, o que realmente me faz ter uma profunda admiração pela série é a capacidade que seus criadores têm de mudar radicalmente a própria estrutura narrativa do projeto. Produções como House, 24 Horas e Damages, por mais méritos que tenham (ou não, já que esta última temporada de House tem sido pavorosa), geralmente estão presas à estrutura estabelecida em seus episódios iniciais: House gira em torno da doença da semana (e é por isso que os dois primeiros episódios desta sexta temporada foram tão bons, já que fugiam disso), 24 Horas acompanha Jack Bauer em tempo real enquanto o sujeito lida com alguma ameaça terrorista e Damages salta seis meses no tempo para algum acontecimento bombástico. Eficazes ou não, estas séries só podem surpreender - se conseguirem - através de suas tramas, já que a estrutura será sempre a mesma.
E Lost? Ora, na primeira temporada, os flashbacks deram a tônica dos arcos dramáticos: acontecimentos do presente da ilha eram refletidos tematicamente em incidentes passados. Na segunda temporada, embora os flashbacks continuassem a dominar, a narrativa passou a ser dividida entre os personagens apresentados na temporada de estréia e os sobreviventes da parte de trás do avião. Finalmente, no terceiro ano veio uma mudança mais radical e os flashforwards foram introduzidos, mudando completamente a dinâmica da narrativa, já que agora o presente não refletia o passado, mas servia como triste contraponto ao futuro sombrio que viria a tomar conta dos heróis. No ano seguinte, embora os flashbacks e flashforwards continuassem a dominar, passamos a acompanhar novos núcleos narrativos que introduziram elementos diferentes do universo tradicional da série, como a mediunidade de Miles - mas foram as viagens temporais de Desmond (que remetiam a "Matadouro 5", aliás) que mais uma vez revolucionaram a maneira com que a trama de Lost era desenvolvida. Essa alteração na estrutura já seria algo sem precedentes no formato serializado, mas os criadores de Lost não se contentaram com isso e, na quinta temporada, radicalizaram no conceito introduzido com Desmond e passaram a adotar a viagem no tempo como tônica central da série.
Isto resume meu amor por Lost: o fato de não só jamais saber o que acontecerá, mas, principalmente, como acontecerá - o que nos traz a esta sexta e última temporada. Na qual, por incrível que pareça, Carlton Cuse e Damon Lindelof conseguem encontrar uma forma de mudar a estrutura da série pela quinta vez em apenas seis anos.
Estou falando do gato de Schrödinger.
Vocês certamente já ouviram falar deste conceito da física quântica: basicamente, um gato é colocado numa caixa fechada juntamente com um frasco de veneno. Como sabemos, sem abrir a caixa, se o gato está vivo ou morto? A resposta: enquanto não soubermos, as duas hipóteses se aplicam e o gato está simultanea (e teoricamente) vivo e morto; as duas situações coexistem.
Mas não é preciso mergulhar neste conceito para entender a sexta temporada de Lost (se fosse preciso, eu não entenderia nada, acreditem); basta sabermos que, de certa forma, os esforços de Jack para "resetar" a história com a explosão de uma bomba atômica deu certo: os personagens estão vivos e pousaram em Los Angeles. Mas os esforços de Jack também deram errado: os heróis acordam no tempo presente, mas ainda na ilha e com os ferimentos infligidos no final da temporada passada.
Em outras palavras: nada de flashbacks, flashforwards ou viagens no tempo. Lost agora lida com dimensões paralelas.
E isto, do ponto de vista dramático, é magnífico - e uma inigualável oportunidade para o elenco, que se sai admiravelmente bem. Josh Holloway pode encarnar o Sawyer amadurecido e estóico que passamos a admirar, mas também o golpista cínico e mau caráter que desprezávamos há seis anos, no início da série. Terry O'Quinn vive a versão "Homem de Preto", cruel e ardiloso, mas também um John Locke sereno e sábio. Jorge Garcia interpreta um Hurley tranqüilo e certo da própria sorte e um Hurley abalado e ansioso. E assim por diante.
Além disso, a batalha entre Jacob e o Homem de Preto se estabelece de vez, ao passo que o papel a ser desempenhado por Benjamin Linus ainda se encontra indefinido, o que é bastante curioso (mas apropriado, já que é sempre difícil prever o que se passa na cabeça calculista de Ben).
E confesso: já não aguentava mais de saudades daquele acorde dissonante que, num crescendo, culminava num estampido ao final de cada episódio quando éramos surpreendidos por uma nova e chocante reviravolta.
Pois, senhoras e senhores, tudo isso está de volta.
A melhor série da atualidade voltou ao ar.