(Live together or spoil alone.)
Acabou.
Depois de seis instigantes anos, Lost chegou ao fim com um plano que remeteu diretamente à primeira imagem que nos apresentou à série - e se há algo que quem faz meu curso de Teoria, Linguagem e Crítica sabe, é que tenho um fraco terrível por rimas deste tipo. Com isso, Carlton Cuse e Damon Lindelof não apenas encerraram a jornada de maneira emocionalmente satisfatória, mas também extremamente elegante.
O episódio final, aliás, foi repleto de rimas visuais e temáticas do tipo: o movimento de câmera que traz Locke e Jack olhando para o fundo da caverna é uma clara referência ao plano final da primeira temporada, quando a escotilha foi finalmente aberta, e o nascimento de Aaron foi praticamente uma reencenação de sua "primeira" chegada ao mundo - e cada instante de reconhecimento proporcionado pelos criadores era fruto de um arrepio não só pela coesão da estrutura, mas também pelo reconhecimento de que estávamos mesmo nos aproximando do fim.
"Estrutura", vale dizer, é algo pelo qual Lost será lembrado eternamente pelos interessados em audiovisual. Como já escrevi no passado, é raríssimo ver uma série que tem coragem não apenas de investir em novos arcos dramáticos, mas que, acima de tudo, não hesita em alterar a própria estrutura de sua narrativa praticamente a cada nova temporada. Se House se mantém preso ao "doente da semana" e 24 Horas é limitado pela abordagem em tempo real, Lost jamais hesitou em investir em novas formas de contar suas histórias: embora os flashbacks funcionassem magnificamente bem, logo fomos introduzidos ao conceito do flashforward - e eventualmente fomos atirados em uma série de saltos temporais até chegarmos à inicialmente estranha idéia do flashsideways, que nos apresentava a um universo "alternativo/paralelo" cuja natureza não conseguíamos compreender completamente.
Mas que, para crédito de Cuse e Lindelof, se revelou um conceito que serviu perfeitamente para amarrar as trajetórias dos personagens de uma maneira satisfatória e profundamente comovente - afinal, o que poderia ser mais definitivo do que a morte de todos e um reencontro motivado pelo fato de terem dividido uma passagem fundamental em suas vidas? Mas, mais do que isso, o flash-limbo (fui o primeiro a cunhar o termo, hein?) acabou surgindo como um conceito que muito empresta do espiritismo, já que alguns daqueles personagens parecem usar esta nova existência (reencarnação?) como uma oportunidade de crescimento ou, no mínimo, de pagar pelos erros cometidos anteriormente, justificando por que Ana-Lucia ainda "não está pronta" para acompanhar os demais ou por que Benjamin Linus opta por permanecer ali por mais algum tempo para continuar seu aprendizado, já que, sem dúvida alguma, era um dos que mais tinham contas a prestar. (Da mesma forma, não deixa de ser curioso que Fionnula Flanagan encarne a Sra. Hawking/Widmore na série, já que sua personagem acaba dividindo curiosas características com a governanta que encarnou em Os Outros. Mas divago.)
Ainda assim, é preciso reconhecer que muitos não se interessarão pela descoberta do flash-limbo ou pelas rimas visuais, querendo saber simplesmente se "todas as perguntas foram respondidas". Aqui faço duas considerações:
1) Como já disse antes, Lost me cativou não pelas respostas, mas pelas perguntas e pelos personagens (mais sobre estes em um segundo). Os mistérios instigantes apresentados pela série despertaram, ao longo dos seis últimos anos, uma fonte de prazer em si mesmos; saber a origem das tatuagens de Jack, por exemplo, não era tão fascinante quanto o simples conceito de um cirurgião aparentemente tão recalcado que, de forma curiosa, trazia tantas marcas na pele. Assim, sou grato à série por criar indagações tão envolventes quanto os propósitos da Dharma, a presença de um urso polar numa ilha tropical e os números de Hurley - e se nem tudo foi respondido (e como poderia?), considero-me inteligente o bastante para compreender que as lacunas podem ser preenchidas com minhas próprias teorias e "viagens". O mundo real não oferece respostas a tudo (algo que Michael Haneke adora esfregar na cara de seus fãs) e, assim, é interessante que às vezes nos divorciemos de nosso comodismo de espectadores e percebamos que, por mais que exijamos respostas para tudo, nem sempre seremos atendidos - e mesmo que fôssemos, qual a diferença? Seria uma resposta tão arbitrária e maniqueísta quanto qualquer outra que pudéssemos imaginar sozinhos. Lembrem-se do casal brincando na praia ao fim de Desejo & Reparação e percebam que uma série de respostas atiradas no final seria algo tão artificial, falso, como aquela cena - embora certamente fosse despertar uma sensação de "satisfação" em boa parte do público. Portanto, agradeço aos realizadores por me tratarem com um pouco mais de respeito do que a maioria dos produtores que trazem seus personagens apagando a luz do cenário ao fim da série por saberem que resoluções do tipo, por mais infantis que sejam, evitam dores de cabeça e cobranças por parte de "fãs".
2) Quais respostas adicionais poderiam ser fornecidas? Sabemos o que é a ilha; sabemos o que representa; conhecemos os dois lados em conflito que motivaram a ida dos personagens para o local; descobrimos o que os números representavam e o que era a "lista de Jacob"; fomos informados sobre a origem do urso polar e da escotilha; compreendemos o que é a fumaça negra; como o Black Rock foi parar ali; quem é Richard e por que não envelhece; de onde vinham as "vozes" e os "fantasmas"; e por aí afora. E daí que não sabemos exatamente o que é a "luz"? Sua função é o que basta, não? Sim, a apresentação da "mãe" de Jacob e do Homem de Preto (Jacobina?) me frustrou justamente por perceber que os criadores estavam tentando utilizá-la como uma explicação artificial (vide parágrafo anterior), mas eventualmente eles ganharam meu respeito por não insistirem em apresentá-la como a "solução dos mistérios da ilha" - algo que eu temia que eles fizessem nos últimos episódios.
"Ah, mas o que era a Dharma?", podem questionar alguns. A Dharma era como os tripulantes do Oceanic 815; um grupo de pessoas que passou pela história da ilha. O mesmo vale para Widmore, Eloise, Richard, Ben, Desmond, etc. É realmente preciso saber mais do que isso? Será que precisamos saber também quem passou pela ilha entre a "posse" de Jacob e chegada de Richard? Ou quem veio depois que Hurley se tornou o novo Jacob?
Não podemos apenas aceitar que a ilha, protagonista da série, serviu de palco para muitos dramas pessoais e que tivemos, ao longo dos últimos seis anos, a oportunidade maravilhosa de acompanhar alguns destes?
Sim, porque Lost se tornou esta série tão memorável em função de seus personagens. Jack e sua racionalidade de homem da Ciência sempre querendo ajudar a todos; Sayid e sua culpa pelo passado de torturador; Sawyer e sua canalhice motivada por um terrível trauma de infância e por uma vida voltada ao desejo de vingança; Kate e sua força destrutiva inspirada por uma mãe ausente e um pai abusivo; Locke e sua determinação regada por sua Fé inabalável em algo maior. Personagens tridimensionais que cresceram diante de nossos olhos ao longo dos anos: vimos Jack se tornar um homem capaz de acreditar no desconhecido; Sayid descobriu sua própria humanidade; Sawyer permitiu-se estabelecer laços significativos com outras pessoas; e assim por diante.
Como negar a força dos personagens de Lost se, ao ver Sayid reencontrando (e reconhecendo) Shannon após quatro anos, fui movido às lágrimas pela felicidade do casal? Se os olhares de reconhecimento entre Claire e Charlie, Jin e Sun e Saywer e Juliet me deixaram tão feliz quanto os próprios envolvidos na cena?
Se ver Jack se entregando à morte no mesmo local no qual abriu os olhos, confuso e ferido, há seis anos, me fez sentir não só uma profunda tristeza por vê-lo finalmente partindo ao sacrificar-se pela ilha, mas também grato por ter testemunhado suas ações, conflitos, dúvidas e dores ao longo deste tempo?
E por mais que seja um cético na "vida real", confesso sem embaraço algum que ver todos aqueles indivíduos - não, mais! Aqueles meus amigos - se reencontrando no pós-vida, felizes por voltarem aos braços uns dos outros foi algo que me fez despedir de Lost com lágrimas, mas também com um imenso sorriso de agradecimento. Eu estava feliz por eles, mas também por mim, que tive a honra de conhecê-los e acompanhá-los por seis inesquecíveis e fantásticos anos.
Como foi bom ter sido fã de Lost.