SP - Dia 1: Medo de Avião - postado em 19/10/2006, às 22:48

Deixem-me descrever como é a rotina de alguém que tem medo de avião: assim que marca a data da viagem, o pobre começa a ficar ansioso com a certeza de que seus dias sobre a Terra estão contados. À medida que a viagem se aproxima, a ansiedade aumenta, os pesadelos com acidentes se tornam mais intensos e mais freqüentes (principalmente se você já tinha estes pesadelos normalmente, mesmo sem previsão de viajar) e você chega a questionar se não seria melhor desmarcar tudo para acabar com o sofrimento.

E então chega o dia da viagem. Você acorda com a certeza de que aquele foi seu último despertar. Você vai ao escritório e, na saída, olha para trás certo de que não voltará a vê-lo; beija o filho com a certeza de que aquela é a última vez que ouvirá sua voz (afinal, você não chegará ao seu destino); olha para sua casa e pensa: "Era tão bom morar aqui!".

Na hora do embarque, olha para os demais passageiros pensando no que cada um deixou para trás e como serão descritos nas notícias dos jornais. Antes da decolagem, a comissária de bordo avisa que as luzes da cabine serão desligadas durante os procedimentos e você pensa:

- Meu Deus, ele precisa até da energia das lampadazinhas para decolar? E se algo falhar?

As turbinas roncam assustadoramente e a máquina treme. Você se apavora ao perceber o esforço necessário para que aquele trambolho deixe o solo.

Durante o vôo, você constantemente observa seus companheiros de viagem a fim de verificar se estão tranqüilos. Sempre que algum comissário surge em seu campo de visão, você procura desesperadamente por um sorriso, um gesto brincalhão - qualquer coisa que indique que tudo está bem. Você olha pela janela e se assusta com o tremor das asas: "Não é possível. Esse troço vai soltar. Não é normal, balançar desse jeito!". Quando as turbinas fazem barulho demais, você teme que elas estejam prestes a falhar; se fazem barulho de menos, teme que estejam enfrentando uma pane.

De repente, o comandante (ou o co-piloto) sai da cabine e vai ao banheiro. Você respira aliviado; ele jamais abandonaria o posto caso houvesse algum problema. Quando ele volta para a cabine, porém, sua ansiedade retorna a cada novo tremor da nave.

Sabendo de seu medo, a torre de controle manda que o aparelho circule por 20 minutos enquanto o tráfego no aeroporto volta ao normal. A cada inclinar do avião, você teme que algo saia errado e que ele vire de cabeça para baixo. Isso dura uma eternidade, até que finalmente recebem autorização de pouso.

Aí vem a tortura final: pousar em Congonhas. Quando você sai de dentro das nuvens, percebe que está no meio da cidade e que as asas do avião parecem prestes a bater em um edifício a qualquer momento. Você reza com fervor absoluto.

A aeronave toca o solo. A direção da turbina se inverte, o freio empurra seu corpo para frente e, por alguns segundos, parece que o avião não irá parar a tempo. Ele para. Você agradece a Deus por ter salvo sua vida mais uma vez.

Enfrento esta mesma rotina desde os 12 anos de idade, quando viajamos para Brasília e enfrentamos uma turbulência pavorosa em um pouso sob a chuva. Desde então, o pânico se repete a cada nova viagem. O mais estranho é que, ao mesmo tempo, eu gosto da sensação de estar voando, de olhar o mundo lá de cima. Vá entender.

E daqui a duas semanas tem a viagem de volta a BH.



Postado por Pablo
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