Foi anunciado na semana passada o lançamento de
A Bela Adormecida em Blu-ray. O que me chamou a atenção na notícia (
clique aqui para ler a reportagem original) é que o filme parece ser a atração menos importante do disco. Colocaram de tudo: no menu, por exemplo, o cenário simula a previsão do tempo na sua região (ou seja, se estiver com sol, o castelo da princesa estará sob um belo céu azul; se estiver chovendo, espere ouvir raios e trovoadas nas caixas de som). Não que esse “extra” tenha realmente a ver com os temas do filme, mas é um atrativo que mostra apenas como a nova tecnologia é bacana e possibilita uma interatividade maior com o usuário.
Outro exemplo são os mecanismos de comunicação: conectando-se à rede da Disney na internet, é possível ver as pessoas que estão assistindo/acessando o disco ao mesmo tempo que você, em qualquer canto do mundo. Então, você pode conversar com elas
enquanto assiste ao filme. Ótimo, não? Agora, surge um incentivo a mais para bater-papo ao invés de prestar atenção na tela, já não bastasse o DVD ter mudado consideravelmente o comportamento das pessoas em uma sala de cinema (é cada vez mais freqüente vermos alguém sentar numa poltrona e agir como se estivesse no sofá de casa – e não falo apenas das conversas paralelas, mas também dos pés apoiados na fileira da frente, às vezes até com os pés descalços, entre outras liberdades).
Outra atração do Blu-ray de
A Bela Adormecida é a possibilidade de gravar mensagens em vídeo e
inseri-las em qualquer parte do filme, para enviar aos amigos depois. Quer dizer, agora também é possível vandalizar o filme e ainda mostrar para todo mundo.
Eu sei que estou sendo pessimista aqui, ainda mais porque esse tipo de atração é mais voltada para as crianças. Trata-se mais de um brinquedo, afinal, é inevitável que nossos filhos vão ter acesso cada vez maior a meios de interação, captação de imagens e compartilhamento. Portanto, a Disney está pensando na tendência, e está pensando certo. Mas diga a verdade: você vê um Blu-ray desses rodando no seu quarto ou na sua sala de estar, com todos esses recursos, em curto prazo? Na própria matéria é dito que os aparelhos atuais, com exceção do PlayStation 3, ainda não dão suporte à tecnologia desenvolvida pela Disney. E agora que não há concorrência, já que o formato ganhou do HD-DVD, por quanto sairá essa brincadeira, para a indústria e para o consumidor?
Acompanho uma discussão que vem se prolongando há meses em um grupo sobre DVDs que é justamente sobre o interesse do público pela mídia física. O DVD é popular porque é acessível. Mas quem compra um filme por um preço médio de R$ 29,90, vai estar disposto a pagar R$ 69,90 ou mais por um Blu-ray? Eu não vou trocar meu acervo de DVDs. Não mesmo. Se eu aderir ao Blu-ray, será para ter títulos novos e readquirir apenas aqueles que valem a pena ver em altíssima definição (por exemplo, todos os Kubrick).
Nesse sentido, a chegada do Blu-ray pode fazer as pessoas reavaliarem suas coleções de DVDs e readquirirem somente aqueles filmes que elas realmente gostam. Mas isso pensando no usuário que é cinéfilo e faz questão de ter a caixinha na prateleira. Para o público em geral, para quem compra DVD como se fosse CD de música (entram aí também os consumidores de DVDs piratas), parece pouco provável que o Blu-ray atinja a mesma aceitação. O acesso à internet banda larga já está se popularizando, enquanto essa nova mídia física ainda engatinha. O cenário atual é mais favorável ao
download de filmes em alta definição (pago e legalizado) do que à troca do DVD pelo Blu-ray. Podem apostar que aqueles que já criaram o hábito de “baixar” filmes hoje não compram DVDs como antigamente.
Diante disso, creio que seria bem mais interessante se os estúdios e fabricantes investissem em formas de reduzir os preços do que na criação de extras para vender
A Bela Adormecida como se fosse a faca Ginsu.