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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/12/2013 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Imovision
Duração do filme
180 minuto(s)

Azul é a Cor Mais Quente
La vie d'Adèle - chapitre 1 & 2

Dirigido por Abdellatif Kechiche. Com: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Mona Walravens, Alma Jodorowsky, Anne Loiret, Jérémie Laheurte, Benoît Pilot.

Apenas alguém que amamos profundamente pode dizer algo como “Sempre terei imenso carinho por você” e nos despedaçar no processo. Quando nos envolvemos sexual e romanticamente, entregamos este poder ao outro: a capacidade de nos machucar com a generosidade – desde que esta venha de um lugar distante e desassociado do desejo. Em Azul é a Cor Mais Quente, um sensível retrato de um relacionamento entre duas criaturas complexas e capazes de arroubos indizíveis de paixão, o sentimento de perda é praticamente embutido na narrativa desde o princípio – e enxergar o filme como um “romance lésbico” é incorrer no erro dos homofóbicos, que tendem a enxergar gays e lésbicas como seres atípicos e estranhos, em vez de perceber que a história aqui contada gira em torno de pessoas que se definem por seus sentimentos, não por sua orientação sexual.

Inspirado nos quadrinhos de Julie Maroh, o roteiro de Ghalia Lacroix e do diretor Abdellatif Kechiche acompanha Adèle (Exarchopoulos), uma jovem estudante do ensino médio que, garota perfeitamente comum, se entrega a flertes adolescentes e à descoberta do próprio potencial sexual. Depois de se envolver brevemente com um estudante mais velho, a moça acaba conhecendo Emma (Seydoux), uma universitária que, lésbica assumida, acaba entrando em seu cotidiano de maneira intensa, dando início a um longo relacionamento que não apenas conduzirá Adèle da adolescência à idade adulta como ainda trará a esta uma liberdade sexual antes presente apenas em suas fantasias.

Assumindo desde os primeiros momentos a intenção de dissecar Adèle enquanto esta passa por seu processo de amadurecimento, Kechiche e o diretor de fotografia Sofian El Fani trazem a bela atriz Adèle Exarchopoulos constantemente em planos fechados que buscam as menores mudanças em sua expressão, incluindo ângulos inesperados que investigam seu rosto mesmo quando ela se estica para trás para se espreguiçar durante o jantar. Acompanhando recortes de seu cotidiano, que incluem muitas aulas, mas também passeatas, namoros e festas, o filme logo indica estabelecer seu ponto de vista em torno de Adèle, mas também a partir desta: assim, em certos instantes a acompanhamos à distância, percebendo seu isolamento em um bar, apenas para em outros momentos praticamente assumirmos seu ponto de vista (mas sem câmera subjetiva) quando, em planos que contam com reduzidíssima profundidade de campo, ela parece descobrir aos poucos um novo universo enquanto caminha pelo bar gay que lhe apresenta a possibilidade de uma importante exploração de sua sexualidade.

Da mesma forma, é perfeito que o longa seja rodado com razão de aspecto de 2.35:1, já que isto permite que Kechiche coloque-se perto dos rostos de suas atrizes enquanto estas conversam mesmo mantendo as duas relativamente distantes uma da outra, criando uma tensão sexual palpável entre as duas. A lógica da estética do cineasta, aliás, é irrepreensível: em alguns pontos, por exemplo, ele traz Adèle dividindo a tela com seus reflexos (um deles se coloca entre ela e Emma, logo no início da relação que irão construir), o que encaixa perfeitamente no sentimento da moça, que se vê dividida entre quem acreditava ser e quem julga necessário se tornar para que alcance algum grau de satisfação interior – e se discuti a importância dos espelhos e dos reflexos ao escrever sobre Cisne Negro, o mesmo valeria para o trabalho de Kechiche aqui. Sem se furtar também de investir no romantismo de um sol que se posiciona atrás das garotas enquanto estas se beijam, criando uma imagem de amor cheio de promessas, o diretor é inteligente o bastante para retornar à locação posteriormente a fim de colocar Adèle no mesmo banco no qual se aproximou de Emma – mas, desta vez, sob a chuva de folhas de um outono melancólico.

A sutileza de Kechiche, diga-se de passagem, é um dos grandes méritos de Azul é a Cor Mais Quente (e, sim, sei que isto soará irônico considerando a natureza gráficas das cenas de sexo – mas discutirei estas adiante): é admirável, por exemplo, que ele traga uma discussão inspirada por A Vida de Marianne, de Marivaux, e minutos depois reproduza a situação ali discutida ao enfocar Adèle passando por Emma na rua, refletindo justamente o trecho enfocado sem, contudo, tentar forçar o espectador a notar a similaridade. Da mesma maneira, quando a protagonista é acusada pelas colegas de ser “lésbica” (eu deveria colocar “acusada” entre aspas, mas, infelizmente, é literalmente isto que as garotas fazem), ela falha em perceber, na cena seguinte, que seus colegas analisam uma passagem pertinente de um poema de Francis Ponge que poderia ser perfeitamente encarado como um símbolo de sua homossexualidade nascente, inevitável e natural: “Mais abaixo que eu, sempre mais abaixo que eu, se encontra a água (...) passiva e obstinada em seu único vício: a gravidade”. Esta estratégia de retratar quase literalmente os sentimentos, inseguranças e desejos de Adèle, vale apontar, é recorrente ao longo de Azul é a Cor Mais Quente: após um instante especialmente difícil, a moça é vista com seus pequenos alunos na praia enquanto uma garotinha é enterrada, ao passo que, numa excepcional cena que acompanha uma festa, vemos ao fundo, numa tela, momentos de A Caixa de Pandora no qual Louise Brooks parece interpretar os pensamentos da protagonista.

Que, diga-se de passagem, é uma mulher difícil de decifrar – algo que se deve, em boa parte, à performance magistral da novata Adèle Exarchopoulos. Encarnando Adèle desde seu período de estudante do ensino médio até se tornar uma dedicada e competente professora de alfabetização, a atriz é capaz de evocar a intensidade sexual e sentimental da personagem mesmo mantendo um olhar distante e triste que sugere uma luta interna contínua em busca de alguma tranquilidade emocional e psicológica. Sugerindo um desconforto subjacente mesmo enquanto mantém a aparência de felicidade, Adèle é o retrato da vulnerabilidade – e mesmo quando machuca sua companheira, é por ela que tememos por sabermos que a outra provavelmente conseguirá superar o que quer que venha em sua direção (uma ideia que Kechiche reforça ao manter Emma distante de nosso olhar enquanto passa por um processo provavelmente difícil).

Mas é mesmo graças à sensibilidade do filme ao retratar a aproximação de Adèle e Emma que nos envolvemos tanto com as personagens. Em vez de saltar diretamente para o encontro sexual das duas mulheres, Azul é a Cor Mais Quente faz questão de mostrá-las se conhecendo, trocando trivialidade sobre si mesmas, encantando-se mutuamente. A partir daí, Kechiche investe na expectativa do primeiro beijo, que é apresentado como resultado de imensa antecipação e desejo – e é tocante que, logo após aquele primeiro contato íntimo, elas sorriam felizes, contrastando com a sobriedade do beijo antes trocado por Adèle e seu namorado de colégio. Da mesma forma, o longa justifica fartamente suas sequências de sexo, que jamais soam gratuitas ou como mera exploração do corpo de suas atrizes, já que o breve, desajeitado e mecânico coito (não há outra palavra para aquilo) entre a protagonista e o colega de escola empalidece brutalmente quando contrastado à intensa, extensa e íntima transa de Adèle e Emma, que culmina não num orgasmo barulhento, mas numa quieta e doce troca de carinhos.

E, assim, ao contrário do pobre Thomas (Laheurte), que precisou perguntar, inseguro, se a namorada havia gostado do sexo, Emma pode apenas abraçar a parceira em silêncio, já que já sabemos a resposta que a pergunta teria agora: sim, foi. Muito. O sorriso que Adèle exibe após a transa não é apenas de prazer; é de... pertencimento. E ver as duas garotas dormindo abraçadas é testemunhar o resultado do carinho e da troca de sentimentos reais entre duas pessoas que realmente se importam uma com a outra.

Sem jamais definir as personagens de acordo com suas orientações sexuais, Azul é a Cor Mais Quente é um filme que compreende que somos um conjunto de características e preferências: podemos amar esta determinada posição sexual, aquele diretor de Cinema ou uma cor específica, mas somos mais do que estes gostos isolados. Adèle não é homo ou bissexual; é uma mulher que ama lecionar, exerce bem sua profissão, tem carinho por seus pequenos alunos e ama como todos amamos, cometendo erros e buscando corrigi-los com maior ou menor sucesso – e ver esta jovem se transformar de uma adolescente sexualmente confusa a uma mulher que, mesmo pontualmente insegura, sabe o que quer e age segundo este querer, é uma experiência envolvente e bela.

E também dolorosa por trazer duas pessoas que dividem uma forte ligação sexual sabotada por um sentimento irremediavelmente quebrado – algo que todos vivemos em algum ponto de nossas conturbadas e breves existências. Assim, retorno ao ponto inicial deste texto e afirmo que encarar Azul é a Cor Mais Quente como “uma história de lésbicas” é reduzir suas personagens às suas orientações sexuais em vez de perceber que o que vivem é universal e reflete a humanidade falha, atrapalhada e comovente de todos nós.

27 de Dezembro de 2013

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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