Dirigido por Nicolas Winding Refn. Com: Ryan Gosling, Albert Brooks, Carey Mulligan, Ron Perlman, Oscar Isaac, Bryan Cranston, Christina Hendricks, Kaden Leos.
Drive é um estudo de personagem disfarçado de romance vestindo uma fantasia de filme de ação. Com um estilo visual e uma trilha saídas diretamente da década de 80 e sequências de ação extraídas dos anos 70, este longa de Nicolas Winding Refn ainda traz um protagonista que pertence à irmandade do Homem Sem Nome de Clint Eastwood: o herói solitário, calado e de passado misterioso que acaba fazendo o que é certo mesmo sem ter a intenção clara de fazê-lo.
Escrito por Hossein Amini a partir do livro de James Sallis, o roteiro acompanha o Motorista sem nome vivido por Ryan Gosling, que já na excelente introdução pré-créditos explica sua linha de trabalho: dirigir o carro de fuga para criminosos. Sem se envolver no crime em si e sem pertencer a qualquer quadrilha, ele se compromete a buscar e levar os bandidos para onde desejarem desde que eles estejam em seu carro numa janela pré-determinada de cinco minutos. Atuando também como dublê em Hollywood e mecânico na oficina do amigo Shannon (Cranston), ele acaba se encantando pela vizinha Irene (Mulligan), uma jovem mãe cujo marido encontra-se na cadeia. Quando este é libertado e passa a ser pressionado por antigos comparsas para cometer um último assalto, o Motorista decide ajudá-lo, dando início a uma série de incidentes cada vez mais violentos que o colocam no caminho dos perigoso gângsteres Nino (Perlman) e Bernie (Brooks).
Encarnando o protagonista como um sujeito monossilábico e com ar sempre cansado e triste, Gosling faz aqui um tipo anti-Tarantino, que só abre a boca para dizer exatamente o que é preciso sem desperdiçar uma única palavra. Sem jamais revelar ao público (ou a quem quer que seja) as circunstâncias que o levaram até ali, o Motorista soa inicialmente como um tipo pacato e deprimido – o que, por contraste, o torna ainda mais assustador e perigoso quando percebemos sua capacidade para a violência. Da mesma maneira, é justamente sua impassividade habitual que leva o público a compreender a importância de seu relacionamento com Irene mesmo que o sujeito manifeste muito pouco de sua alegria, deixando apenas que um levíssimo sorriso ocasional altere sua expressão sempre tão fechada – e, neste aspecto, o rosto juvenil e o olhar esperançoso de Carey Mulligan funcionam como motivadores perfeitos para que um homem tão seco finalmente tente se abrir para alguém.
Mas o elenco de Drive reserva outras atrações em seus papéis secundários: compondo Shannon como um perdedor crônico que parece eternamente destinado à mediocridade e à frustração, Bryan Cranston sugere uma figura paterna mais do que apropriada ao Motorista em fuga de algo que desconhecemos, ao passo que Oscar Isaac merece créditos por evitar os clichês e transformar o marido de Irene não em um antagonista ao romance sonhado pelo anti-herói, mas sim em um homem que, mesmo determinado a honrar sua família, vê-se obrigado pelas circunstâncias a repetir os velhos erros. E se Ron Perlman continua a representar uma presença sempre interessante em qualquer filme, é mesmo Albert Brooks quem rouba o filme com seu pequeno mafioso Bernie Rose: abandonando qualquer traço do comediante brilhante que sempre foi, Brooks surge aqui como um homem calculista e extremamente perigoso , encarregando-se de boa parte das falas mais memoráveis do longa.
Criando uma atmosfera melancólica ecoada de forma impecável pela trilha de Cliff Martinez (obviamente inspirado no trabalho do Tangerine Dream para o cinema durante a década de 80), o cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn é hábil ao refletir a natureza do protagonista em sua própria direção, que se mostra sempre objetiva ao gastar o menor tempo possível para mover a narrativa – e percebam, por exemplo, como a evolução do relacionamento entre o Motorista e Irene é contada numa sequência rápida que, sem gastar um quadro sequer com firulas emocionais, constrói o envolvimento da dupla com eficiência e agilidade. De forma similar, Refn planeja as sequências de ação com um equilíbrio admirável entre estilo e funcionalidade: sim, aqui e ali o diretor inclui planos em câmera lenta que ressaltam determinados incidentes de maneira interessante e mesmo divertida, mas isto jamais se sobrepõe ao interesse de permitir que o espectador saiba exatamente o que está ocorrendo e como o protagonista age naquelas circunstâncias – e é interessante notar, por exemplo, como o Motorista confere importância não só à velocidade às manobras mais radicais, mas também à observação cuidadosa do ambiente e, inclusive, aos momentos em que parar o carro em algum lugar se revela mais eficaz do que disparar numa corrida desenfreada.
Com uma fotografia que remete com inteligência ao noir e uma montagem que oscila bem entre os momentos mais intimistas de construção de personagem e aqueles devotados à ação (destacando-se principalmente no confronto final, que soa simultaneamente tenso e triste), Drive é um filme protagonizado por um homem violento que lamenta sê-lo e cuja tristeza constante é uma resposta não só à vida que leva, mas à constatação de que, por mais que tente ou deseje, jamais poderá fugir da própria natureza.
Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio de 2011.
18 de Outubro de 2011

No sul da Califórnia, motorista dublê de filmes tem um outro emprego à noite dirigindo para criminosos em roubos. Quando descobre que está marcado para morrer, ele precisa salvar a própria pele.