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Amadeus

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Milos Forman. Com: F. Murray Abrahams, Tom Hulce, Jeffrey Jones, Elizabeth Berridge, Simon Callow.

Amadeus é um filme maravilhosamente triste. Não, não é um daqueles dramas do tipo Minha Vida ou Um Mundo Perfeito, ao final dos quais a platéia está derramando litros de lágrimas. Tampouco segue o estilo de Anastasia, a Princesa Esquecida, que conta com personagens amargurados, introspectivos (como o Bounine de Yul Brinner ou a solitária grã-duquesa de Helen Hayes). Nada disso. Amadeus é sobre frustrações. A frustração de não ser tudo aquilo que se deseja. A frustração de saber que há alguém infinitamente melhor do que você justamente naquilo que mais se ama. A frustração de ver seu legado sendo esquecido enquanto a velhice se aproxima.

A história gira, curiosamente, não em torno do personagem-título (Mozart), mas sim em torno de seu antagonista, o rancoroso compositor Antonio Salieri, e sobre como o talento de Mozart gerou uma inveja cega e perigosa por parte deste. Deixarei de lado a questão sobre a veracidade ou não do que é narrado. Se Salieri foi ou não um dos principais causadores da decadência e morte de Mozart, isso não interessa. A relação que se estabelece entre os dois músicos é o mais importante aspecto do filme. Da parte de Mozart, uma confiança ingênua, somado a um certo desdém pela obra de Salieri, a quem julga um músico menor. Da parte de Salieri um sentimento ambíguo, de respeito e desprezo.

F. Murray Abrahams, como Salieri, brinda o espectador com uma daquelas interpretações que preenche e até mesmo transcende o espaço da tela. Tecnicamente irrepreensível. Intuitivamente perfeita. Interpretações como a de Abrahams neste filme são espécimes raros: Orson Welles, em Cidadão Kane; Ben Kingsley em Gandhi; Marlon Brando em O Poderoso Chefão, e mais alguns raros exemplares. Salieri se torna mais do que o personagem de um filme. Ele se destaca da tela e leva o espectador a associá-lo a uma série de pessoas do nosso dia-a-dia. As melhores cenas são aquelas em que Salieri, já velho, relata toda a sua história ao padre que veio tomar-lhe a confissão. Ali, principalmente, Abrahams rouba o espetáculo. É assustador ver aquele velho amargurado, solitário e, por vezes, horrorizado consigo mesmo descrever com uma sinceridade arrebatadora todo o seu ódio por aquele rival do passado, Mozart.

Não que a interpretação de Hulce tenha deixado a desejar. Nada disso. O problema é que Salieri é muito mais complexo e interessante. Ao mesmo tempo em que demonstra possuir uma sensibilidade imensa (como ao chorar só em `ler` as partituras de Mozart), ele se torna mais e mais rancoroso por sua incapacidade de produzir algo a altura do jovem músico - e isso é o que torna o Salieri de Abrahams tão amedrontador. Ele é capaz de tomar atitudes tão paradoxais que, algumas vezes, o espectador fica na dúvida se ele ama ou odeia Amadeus. E na verdade ele nutre os dois sentimentos. Exemplo: depois de assistir à ópera Don Giovanni, Salieri usa sua influência para que ela saia de cartaz após 5 apresentações, apenas. No entanto, vai a todas as cinco, maravilhado pela qualidade do que viu.

Salieri se julga negligenciado por Deus em favor de Mozart. Ele se revolta por Deus tê-lo dotado de `verdadeiro amor pela música` e tê-lo negado `o talento para realizá-la`. Ele acredita estar sendo tripudiado pelo Todo-Poderoso, que, apesar de negar-lhe o `dom`, concedeu-lhe a capacidade de reconhecê-lo na obra do jovem Amadeus. E então ele decide se vingar, destruindo a criação divina. Se Deus não lhe deu a `voz` para louvar ao próprio Senhor, então ele vai impedir que a `criatura` o faça. Ele deseja a morte de Mozart.

Não devo falar mais nada, sob o risco de revelar mais do que deveria sobre o filme. Mas é claro que não posso deixar de comentar a cena mais estupenda do filme, já quase ao final, quando Salieri tem a oportunidade de ver Mozart compondo. Enquanto o jovem músico literalmente dita as notas, o compasso, a letra para um incrédulo Salieri, este percebe o quão incapaz é de acompanhar o ritmo do gênio. Ele não consegue sequer compreender o que lhe está sendo dito. Mas ao invés de ficar ainda mais rancoroso, ele fica maravilhado com o talento de Amadeus. Só então ele se dá conta da verdadeira extensão do `dom` que Deus concedeu ao outro. É uma cena maravilhosamente orquestrada pelo diretor Forman, associada a duas estupendas atuações. A cena resume, em si, o filme inteiro.

E o que vemos é uma obra de arte realmente à altura do homem que a inspirou.
``

7 de Janeiro de 1997

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

Antonio Salieri acredita que a música de Mozart é divina e deseja ser tão bom músico quanto. Mas não entende porque Deus favoreceu Mozart, uma criatura vulgar. A inveja de Salieri o torna inimigo de Deus, fazendo o se vingar.

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Avaliações dos Usuários

Armando Assis Netto
Armando Assis Netto3 de ago. de 2017

-Aviso: comentário com spoilers (ou nem tanto)- Me lembro de acordar com meu pai vendo Amadeus, na cena em que Mozart se apresenta para o imperador austríaco Fulano de Whatever pela primeira vez. Minha reação foi justamente a mesma dos personagens que chegam na porta para observar a pessoa que tocava aquele piano com tanto virtuosismo. Filme maravilhoso, música maravilhosa

josé alberto chagas da silva
josé alberto chagas da silva6 de jul. de 2017

Madu, também gosto muito dessa obra e conheci o canal do Pablo por esta crítica dele. Caso você se interesse pela trilha sonora desse filme, no endereço (https://www.youtube.com/playlist?list=PLOouWdX9Ao34wnZWZnMjykem1vEr0N_V-) do meu canal do youtube, disponibilizei a seleção completa de todas as músicas que aparecem no filme Amadeus. É bem mais completa que a própria trilha oficial. Curta e compartilhe.

Madu
Madu20 de jun. de 2017

Amo esse filme mais do que consigo explicar e sua crítica está maravilhosa, fiquei arrepiada só de ler e lembrar das cenas.

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