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Uma Rua Chamada Pecado

Crítico★★★★★5/5
08 min
Uma Rua Chamada Pecado
Uma Rua Chamada Pecado

Dirigido por Elia Kazan. Com: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden, Rudy Bond, Peg Hillias, Nick Dennis.

A primeira vez que vemos Blanche DuBois em Uma Rua Chamada Pecado, ela surge em meio à fumaça deixada pelo trem do qual acaba de descer, aparecendo na tela como uma visão fantástica, quase mítica – exatamente o efeito que ela adoraria provocar em todos que a cercam. Afetada como seu nome, Blanche é uma mulher de modos artificiais, de uma voz que insiste em inflexões teatrais e de uma persona que se sentiria mais à vontade num palco. Comportando-se como uma aristocrata obrigada a viver em meio a plebeus sem modos, ela se muda para o pequeno apartamento da irmã Stella e ali encontra um homem que, em contrapartida, não poderia ser mais bruto: seu cunhado Stanley Kowalski.

Lançado em 1951, o filme é uma adaptação da premiada peça escrita pelo lendário Tennessee Williams apenas quatro anos antes e, como era comum na obra do dramaturgo, traz diversos elementos autobiográficos – da influência de sua irmã esquizofrênica à presença intimidante de Stanley, que ele criou a partir de um antigo colega da época em que trabalhou numa fábrica de sapatos. Explorando também o período em que viveu em New Orleans, Williams incutiu no texto a atmosfera do bairro francês da cidade e, não à toa, o cineasta Elia Kazan, que também havia dirigido o espetáculo teatral, trouxe para o filme a sonoridade do local, usando o jazz como base da trilha composta por Alex North. (Da versão para os palcos também vieram praticamente todos os atores: nove deles vieram da montagem norte-americana, incluindo Marlon Brando, Kim Hunter, Karl Malden, Rudy Bond e Peg Hillias, enquanto Vivien Leigh, substituindo Jessica Tandy, veio da produção encenada na Inglaterra e dirigida por Laurence Olivier.)

Transformando-se imediatamente em astro após o lançamento nos cinemas de Uma Rua Chamada Pecado, Brando alterou também o conceito de atuação vigente em Hollywood neste que foi apenas seu segundo trabalho para a telona (e que lhe rendeu a primeira de quatro indicações consecutivas ao Oscar): abandonando todas as afetações características dos grandes intérpretes até então, ele trouxe para o cinema o conceito do Método, que, inspirado na abordagem de Stanislavski, prega um mergulho absoluto no personagem e um naturalismo resultante das verdadeiras experiências e emoções do ator. Assim, quando se coça ao percorrer o ambiente, fala com a boca cheia de comida ou dá um peteleco numa pluma que se solta da roupa da parceira de cena, Brando está revolucionando a Arte. E o mais importante: por mais naturais ou improvisadas que pareçam, estas decisões estão sempre a serviço do personagem e da narrativa – e quando Stanley remove um fiapo da blusa da esposa ao chateá-la com um relato sobre a irmã, é possível ver ali a doçura da qual é capaz ao lidar com Stella e que obviamente desempenhou um papel importante ao conquistá-la.

Stanley Kowalski, por sinal, é um homem de contradições: impulsivo, estourado e brutal, ele é um indivíduo inquestionavelmente apaixonado pela companheira – e, portanto, segundos após agredi-la ele percebe o que fez, se arrepende e se entrega às lágrimas por temer perdê-la (o que, nem preciso acrescentar, jamais justificaria suas ações, já que o arrependimento é a chantagem emocional típica do agressor para manter a vítima ao seu lado). Mais à vontade sem camisa ou com uma justa camiseta branca do que com o terno que parece grande e estranho em seu corpo musculoso (Brando virou também símbolo sexual com este filme), Stanley tem, em suas roupas, uma representação instantânea de sua volatilidade emocional: em um instante, surge sedutor ao tentar Blanche com o torso nu; em outro, traz a camisa rasgada e ensopada ao se entregar a mais um ímpeto de raiva. Neste sentido, a natureza animalesca do rapaz convive com uma imaturidade mais típica de uma criança: sem saber o que dizer para convencer a esposa de seu arrependimento, por exemplo, ele se limita a gritar “Stella!” diversas vezes, como se esperasse que a urgência de sua voz a convencesse de sua necessidade de tê-la consigo (funciona).

O fascinante é que Stella é vivida por Kim Hunter como uma mulher que, mesmo sujeitada à violência do marido, parece extrair certo prazer da certeza de que, agressivo ou não, este a deseja. Além disso, sua origem abastada e de linhagem “nobre” (como indica seu sobrenome, que tanto significa para a irmã e nada para os demais) desempenha um papel inevitável na maneira como enxerga Stanley, o que explica a forma casual com que o repreende pelos modos grosseiros à mesa – e a reação do sujeito, certamente motivada pelo sentimento de humilhação, é tão súbita e intensa que as duas irmãs se limitam a baixar as cabeças e a se encolher, como se reconhecendo estarem diante de um animal selvagem cujos olhos não devem encarar.

Sensível para a natureza ambígua deste relacionamento, o diretor Elia Kazan não se furta de explorar o forte componente sexual entre Stanley e Stella – algo ainda mais notável quando nos lembramos de que o longa foi lançado no início da década de 50 (e, claro, o cineasta foi obrigado a fazer dezenas de cortes antes que o trabalho pudesse chegar às salas de exibição). Ao mesmo tempo, esta mistura de desejo e abuso lança um ar patético e melancólico sobre quase todas as interações do casal: quando Stella responde aos repetidos chamados do marido, por exemplo, desce a escadaria do cortiço com a postura e a expressão de uma princesa orgulhosa (algo que Kazan ressalta através de planos mais fechados), buscando ignorar, ao menos por ora, que é uma mulher vitimada pela violência doméstica indo ao encontro do companheiro agressor, bêbado e reincidente. Não, ela não tem o poder de fazê-lo parar, é verdade, mas tem o de fazê-lo se arrepender a cada briga, o que a excita e serve de pequeno consolo diante da triste realidade que habita.

A tolerância excessiva, aliás, é uma característica inegável de Stella, que frequentemente ignora a vaidade da irmã mesmo quando esta insiste em parecer jovem e bela para os amigos decadentes de Stanley que mal se importam com sua existência (a exceção é Mitch, que Karl Marlden compõe como um homem capaz de doçura, mas também de imensas fraquezas). Blanche, por sua vez, é interpretada por Vivien Leigh como uma mulher cansada de lutar pela própria sobrevivência e que, por isso, não vê o ridículo de se esforçar para seduzir um homem pelo qual nem mesmo se interessa – ou pelo qual se interessa como uma forma de mera reafirmação e fuga.

É uma realidade triste de decadência emocional que Uma Rua Chamada Pecado reflete nas paredes descascadas e sujas do apartamento dos Kowalski e que, ao longo da narrativa, vão se tornando mais próximas umas das outras para ressaltar a claustrofobia crescente daquelas pessoas presas umas às outras e que só conseguem escapar através da embriaguez, do sexo e do mergulho em um passado que já não era dos melhores para início de conversa (e a música triste que volta à mente de Blanche como um eco fantasmagórico ao lembrar de uma tragédia passada reflete esta melancolia).

Mas, como é fácil perceber, fugir de um presente triste ao tentar reviver as glórias decadentes de um passado cruel não é a melhor das estratégias. E, assim, quando Blanche é confrontada por seu passado e por seu presente, é devastador perceber como a fantasia que tenta viver se desfaz – algo que Leigh ilustra com imenso talento ao abandonar a voz frágil, artificial e infantil que usava até então e substitui-la por um tom grave, exausto e derrotado que reflete as sombras que deixam seu rosto envelhecido e expõem anos e anos de dores e decepções. É uma transformação assustadora e tocante de adolescente a adulta que a atriz executa com uma sensibilidade ímpar.

Tematicamente maduro, emocionalmente complexo e narrativamente ambicioso, Uma Rua Chamada Pecado é uma obra que, hoje, seria encarada como fracasso certo de bilheteria. Que em seu ano de lançamento tenha tido a quinta maior arrecadação é um sinal lamentável de como nos infantilizamos como espectadores.

10 de Maio de 2016

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

Brando alterou o conceito de atuação vigente em Hollywood neste que foi apenas seu segundo trabalho.

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Avaliações dos Usuários

Pedro Braga
Pedro Braga15 de nov. de 2016

Com certeza, Pablo! Stela tinha uma abordagem muito diferente do Sistema, muito mais próxima aos preceitos de Stanislavski porque estudou depois com ele, numa fase mais madura), mas politicamente eram ambos semelhantes. Mas sim, não tinha nada ver pôr isso no texto, era só um comentário, um adendo, mesmo... =)

Pablo Villaça
Pablo Villaça8 de nov. de 2016

Pedro, não só Strasberg, mas Stella Adler, que Brando considerava muito mais como sua mentora do que Strasberg (ela também estudou com Stanislavski). Mas isso fugia do propósito do texto.

Pedro Braga
Pedro Braga8 de nov. de 2016

correção: linha 2 do segundo parágrafo: "No entanto, o Método é uma leitura específica (via Strasberg) do SISTEMA"

Pedro Braga
Pedro Braga8 de nov. de 2016

É, com certeza, um dos melhores filmes que já vi na vida. Ao mesmo tempo, é triste saber que Elia Kazan era um artista tão incrível e um homem tão absolutamente tapado com relação à política, assim como Lee Stransberg. Aliás, um adendo: Brando e Strasberg fazem uma das muitas possíveis leituras do Sistema Stanislavski. Essa leitura é chamada de Método. No entanto, o Método é uma leitura específica (via Strasberg) do Método, desprovido de suas características mais fundamentais como a partitura de ações físicas e excessivamente focado na questão da emoção. Estudiosos do Sistema Stanislavski dirão que o Método não só é uma leitura, como é também uma deturpação do Sistema à americana, deturpação essa que fundou a maior escola de atores de Holywood, o Actor´s Studio.