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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
29/05/2009 01/01/1970 3 / 5 / 5
Distribuidora

Heróis
Push

Dirigido por Paul McGuigan. Com: Chris Evans, Dakota Fanning, Camilla Belle, Djimon Hounsou, Cliff Curtis, Neil Jackson, Lu Lu, Ming-Na, Nate Mooney.

 

Heróis é um trabalho curioso: embora seja obviamente uma produção que tem a ação como foco principal, o filme do escocês Paul McGuigan parece possuir aspirações de se estabelecer como um drama independente, já que, esteticamente, investe numa fotografia granulada e numa câmera sempre na mão que, somadas aos constantes zooms e ao uso intenso de locações apinhadas de transeuntes, remetem mais aos trabalhos de David Gordon Green do que aos de Michael Bay. E se a história concebida por David Bourla apresenta sérios problemas de desenvolvimento, ao menos é interessante o bastante em seu conceito original para permitir que a experiência seja suficientemente instigante para merecer nossa atenção.

           

Contando com uma galeria de personagens que possuem poderes paranormais (resultado das experiências dos nazistas), Heróis gira em torno de Nick (Evans), um mover que certo dia é procurado pela jovem watcher Cassie (Fanning) e informado de que a pusher Kira (Belle) está sendo procurada pela Divisão, uma agência secreta que visa transformar os paranormais em “super-soldados” do governo norte-americano (sim, a velha história do “super-soldado”...). Perseguidos por bleeders e pelo pusher Henry Carver (Hounsou), os heróis solicitam a ajuda do shifter Hook (Curtis), da sniff Emily (Na) e do shadow Pinky (Mooney), além de apelarem até mesmo para um wiper. Hein? Você não sabe o que são movers, pushers, watchers, shifters e por aí afora? Não se preocupe; descobrir os diferentes poderes dos vários personagens de Heróis representa o que o filme tem de melhor – e é uma pena, portanto, que a trama não faça jus a eles ao investir numa perseguição boba e cansativa a um “soro” que supostamente intensificaria os poderes daqueles indivíduos embora, na prática, acabe matando todos aqueles que o utilizam.

           

Rebatizado como Heróis no Brasil com o claro propósito de explorar a popularidade da decepcionante série criada por Tim Kring, o filme mal tenta esconder o fato de ter realmente se inspirado naquela produção, já que chega a incluir uma frase que remete claramente ao ridículo bordão “Save the cheerleader, save the world” que Kring criou para sua obra (aqui ouvimos “Ajude a moça e ajudará a todos nós!”) – isto para não mencionarmos que, como o pintor Isaac Mendez da primeira temporada de Heroes, o filme traz duas garotas que prevêem o futuro utilizando desenhos. Aliás, assim também como Heroes, o longa suga vários elementos do universo dos X-Men, como personagens amaldiçoados por seus poderes e, claro, a própria dinâmica resultante do uso de poderes diferentes para se alcançar um objetivo.

           

Infelizmente, o roteiro de Bourla parece não compreender o potencial da premissa, desperdiçando-o já na terrível narração inicial, quando ouvimos a jovem Cassie num longo monólogo expositivo que, ao tentar situar o espectador quanto ao que virá em seguida, consegue soar apenas artificial e aborrecido. Além disso, o uso excessivo do conceito dos “pais ausentes” para amarrar a trama tematicamente é algo que cheira a manual de roteiro – uma impressão reforçada pela batida tentativa de já preparar o público para uma possível continuação. Em contrapartida, o filme encontra algumas soluções interessantes ao lidar, por exemplo, com os esforços de Nick para evitar que os watchers (que lêem o futuro) antecipem seus movimentos – e mesmo que sua estratégia seja logicamente falha, ao menos o roteiro faz uma tentativa honesta de desenvolvê-la de maneira plausível.

           

Responsável pelo bom À Flor da Pele e pelo surpreendentemente eficaz Xeque-Mate, Paul McGuigan explora bem as locações em Hong Kong para mergulhar o filme numa correta atmosfera de decadência e melancolia, utilizando as ruas superpopuladas e os prédios cinza e velhos como pano de fundo para a história (e a já citada abordagem de filme “independente” pode nem sempre se encaixar na proposta da produção, mas é bastante curiosa). Enquanto isso, o design de produção do geralmente competente François Séguin investe num estilo carregado em cores e formas estranhas que buscam estabelecer aquele universo como algo entre o real e o fantástico, o que não deixa de ser apropriado.

           

Já o elenco desaponta de maneira uniforme: Chris Evans, tão promissor em Celular, volta a oferecer a performance sem carisma que marcou suas participações nos péssimos longas da série Quarteto Fantástico, ao passo que Camilla Belle permanece a mesma atriz bonita e inexpressiva de Quando um Estranho Chama. E se Dakota Fanning consegue injetar alguma energia ao filme, o fato é que, diferentemente de suas excelentes atuações na infância, ela agora surge tristemente irregular, chegando a beirar o patético na cena em que sua personagem encontra-se bêbada. Finalmente, Djimon Hounsou, um ator talentoso e sempre mal utilizado por Hollywood, nada mais pode fazer do que encarnar uma espécie de dublê de Samuel L. Jackson, aceitando o tipo de papel com que este vem sabotando a própria carreira.

           

Embora tenha potencial para contar uma história bem mais interessante, Heróis é um filme apenas correto e moderadamente divertido que, sejamos honestos, nem exige a atuação de um wiper para ser prontamente esquecido pelo espectador após a sessão.

 

28 de Maio de 2009

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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