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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
03/02/2006 25/12/2005 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

O Segredo de Brokeback Mountain
Brokeback Mountain

Dirigido por Ang Lee. Com: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Randy Quaid, Michelle Williams, Linda Cardellini, Anna Faris, Randall Malone, Kate Mara, Scott Michael Campbell, Roberta Maxwell.

Romeu & Julieta. Rick Blaine & Ilsa. Tristão & Isolda. Muitas das grandes histórias de amor giram em torno de casais que, mesmo tomados por uma paixão avassaladora, são obrigados a se manter separados em função de rixas familiares, políticas ou de convenções sociais. O Segredo de Brokeback Mountain, novo trabalho do cineasta taiwanês Ang Lee, conta uma destas histórias, girando em torno de duas pessoas que, impedidas de assumirem diante do mundo o que sentem uma pela outra, processam de maneiras completamente diferentes este relacionamento e a própria impossibilidade de mantê-lo. O fato de que os amantes em questão são homens - e cowboys - é um mero detalhe.


Em tese, é óbvio que um romance entre dois cowboys, figuras icônicas do imaginário e do Cinema norte-americanos, seria algo difícil de se admitir; no entanto, o belo roteiro de Larry McMurtry e Diana Ossana (inspirado em conto de E. Annie Proulx) contorna este obstáculo ao estabelecer o relacionamento dos personagens de maneira natural e sensível: contratados para cuidar de um rebanho de ovelhas no alto da montanha Brokeback, Ennis Del Mar (Ledger) e Jack Twist (Gyllenhaal) são levados a se isolar do mundo por longos meses, tendo apenas um ao outro como companhia. Inicialmente reservados (especialmente Ennis), eles criam uma ligação gradual, tornando-se amigos, confidentes e, para surpresa de ambos, amantes. Estabelecida a conexão, os vaqueiros dão início a um romance impossível que, atravessando décadas, refletirá não apenas a intolerância da Sociedade, mas a deles mesmos, tornando-se ainda mais trágico em função dos conflitos entre temperamentos tão distintos.

Irmão (em temática e tom) do maravilhoso As Pontes de Madison, o filme retrata o relacionamento de Jack e Ennis como algo mais do que um simples desejo sexual; presos em realidades que lhes são hostis, os dois homens passam a encarar seus encontros esporádicos como oportunidades raras de relaxarem e sentirem-se felizes, completos. Casados e pais de família, eles trocam confidências sobre seus problemas conjugais e dividem histórias sobre outros relacionamentos heterossexuais (discutirei este detalhe adiante) – e a preocupação que têm um com o outro é uma prova inconteste do amor genuíno que compartilham.

Fugindo de quaisquer estereótipos que poderiam simplificar e degradar seus personagens (sejam estes relacionados à figura do homossexual ou à do cowboy), Heath Ledger e Jake Gyllenhaal oferecem performances fundamentais para o sucesso da narrativa: uma nota em falso ou um maneirismo excessivo destruiriam a complexidade e a delicadeza da história. Como Ennis, Ledger mantém uma postura sempre tensa e a expressão constantemente cerrada, como se estivesse eternamente se defendendo de um ataque que pode vir a qualquer instante. Introspectivo e reprimido, o sujeito não apenas sente dificuldades para expressar seus sentimentos como provavelmente custa a entendê-los: embrutecido por uma existência miserável e pelo abandono, Ennis encontra proteção no silêncio – e, mesmo quando fala, sua boca mal parece se abrir, como se aquilo representasse um esforço pavoroso de sua parte. Assim, a intensidade do que sente por Jack representa, para ele, uma benção e uma maldição: por um lado, com o parceiro ele finalmente sente liberdade para se expressar (mas não muito; por outro, a carga de culpa e medo provocada por um condicionamento recheado de preconceitos o transforma em uma figura ainda mais amaldiçoada pelos próprios sentimentos.

Jake Gyllenhaal, por sua vez, encarna Jack Twist como uma pessoa francamente mais emotiva e disposta a aceitar (e a expressar) os próprios sentimentos. Percebendo que o que vive com Ennis é sincero e real, ele não hesita em sugerir que abandonem suas esposas e passem a viver juntos, mesmo que corram o risco de se tornarem vítimas da violência inspirada pela intolerância dos preconceituosos (mas até que ponto a insistência de Jack não é conseqüência de uma simples idealização?). Aliás, uma das questões que mais me fascinam em O Segredo de Brokeback Mountain diz respeito à natureza do relacionamento entre Ennis e Jack: enquanto este último é obviamente gay, demonstrando interesse sexual regular por outros homens, o primeiro jamais denota atração semelhante. A impressão é a de que Ennis se apaixonou por Jack, e que o fato deste último ser do mesmo sexo foi um mero acaso. Quando está longe do parceiro, o personagem de Heath Ledger jamais parece reparar em outros homens, mostrando-se claramente mais atraído pelo sexo oposto. Em contrapartida, o único relacionamento heterossexual de Jack que testemunhamos envolve uma mulher que, desde o momento que surge na tela, apresenta uma postura firme que confere a Jack a condição de metade passiva do casal – inclusive sexualmente, já que é ela quem toma a iniciativa de abordá-lo e também é quem controla a primeira transa (e, posteriormente, é ela quem assume o comando da casa e dos negócios).

É por esta razão que Ennis não toleraria saber sobre outros casos homossexuais de Jack, embora não tenha problema com os relatos envolvendo mulheres: para Ennis, aquela situação representa algo único e diz respeito exclusivamente a Jack – e descobrir que o mesmo não se aplica a este seria um golpe duro demais. Infelizmente para ambos, Ennis tampouco é capaz de assumir o que sente de maneira completa, e não apenas com relação a Jack: sua incapacidade de compreender ou processar os próprios sentimentos também o torna inacessível para a esposa e as filhas – e é esta, no final das contas, sua grande tragédia.

Mas não é apenas o elenco masculino que brilha em O Segredo de Brokeback Mountain: como a torturada esposa de Ennis, Michelle Williams constrói uma personagem cuja falta de cultura e sofisticação intelectual, aliada ao machismo da sociedade em que vive, torna impossível a adoção de uma postura mais decidida com relação ao envolvimento do marido com outro homem. E se Anne Hathaway tem a oportunidade de demonstrar seu alcance dramático durante uma difícil conversa que mantém com Ennis pelo telefone, quando sua personagem é obrigada a reconhecer duras verdades que sempre procurou ignorar, a veterana Roberta Maxwell, vivendo a mãe de Jack, oferece um desempenho magnífico em uma cena na qual tem que demonstrar sua compreensão e sua dor simplesmente através do olhar, numa performance que merecia (bem mais do que a de Williams) ser indicada ao Oscar.

Embalado pela bela trilha instrumental de Gustavo Santaolalla, que se mostra tão econômica quanto a performance de Heath Ledger, O Segredo de Brokeback Mountain também conta com um trabalho sutil, mas eficaz, de direção de arte: observem, por exemplo, como a casa de Ennis e Alma apresenta cores sempre tristes e opressivas, refletindo a existência sem alegria do casal, e perceba também como a residência de Jack e Lureen é decorada de maneira a refletir claramente os gostos desta última, ajudando a estabelecer o sujeito como uma figura deslocada em seu próprio lar. Elementos como estes ajudam a comprovar a sensibilidade do cineasta Ang Lee, que também acerta ao estabelecer um ritmo pausado, contemplativo, permitindo que conheçamos aqueles personagens com a calma necessária. Se há algum ponto em que o diretor erra, aliás, é justamente ao incluir confrontos dispensáveis que ocorrem em dois jantares de Ação de Graças: em ambos os casos, as discussões que surgem acabam não levando a lugar algum, servindo apenas para martelar elementos que já conhecíamos (da mesma forma, Lee deveria ter exigido um estudo melhor de maquiagem para Heath Ledger, já que seu envelhecimento, apesar da ótima performance do ator, não convence quanto à aparência física).

Envolvendo homossexualidade ou não, a história de amor narrada em O Segredo de Brokeback Mountain é tocante por ser universal. É perfeitamente possível, para qualquer espectador, identificar-se com a dor dos protagonistas, independentemente das orientações sexuais de cada um. E é por isso que, na lista dos grandes romances, casais como Romeu & Julieta, Rick Blaine & Ilsa e Tristão & Isolda agora podem compartilhar suas tragédias pessoais com Jack Twist & Ennis Del Mar.
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02 de Fevereiro de 2006

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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