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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
17/07/2001 01/01/1970 4 / 5 5 / 5
Distribuidora

Direção

Martin Scorsese

Elenco

Robert De Niro , Jerry Lewis , Diahnne Abbott , Sandra Bernhard

Roteiro

Paul D. Zimmerman

Produção

Robert F. Colesberry

Fotografia

Fred Schuler

Montagem

Thelma Schoonmaker

Design de Produção

Boris Leven

Figurino

Richard Bruno

Direção de Arte

Lawrence Miller

O Rei da Comédia
The King of Comedy

Dirigido por Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Jerry Lewis, Diahnne Abbott, Sandra Bernhard.

O Rei da Comédia é um daqueles filmes que vão ficando cada vez mais dolorosos de se ver à medida em que compreendemos a profundidade e a fragilidade dos personagens principais, e nos identificamos com eles.

Rupert Pupkin (De Niro) é um pretendente a humorista. Ele se julga extremamente talentoso e engraçado e, em sua ilimitada auto-confiança, acaba invadindo a limousine de um famoso humorista, Jerry Langford, e pedindo-lhe uma chance para se apresentar em seu programa de televisão. Langford (Lewis) pede que o rapaz entre em contato com sua secretária e, sem mais delongas, encerra a conversa por aí.

O que Langford sequer desconfia é que Pupkin vive em um mundo particular, no qual ele é o centro das atenções. Neste `universo` íntimo, Pupkin se imagina conversando com Liza Minnelli e com o próprio Langford, que lhe `pede` o favor de apresentar seu programa de televisão por seis semanas. Pupkin encena todas essas conversas em seu quarto, entre os insistentes chamados de sua mãe. O problema é que, muitas vezes, ele não consegue discernir o que é fato e o que é imaginação. Em um dado momento, por exemplo, ele imagina que Langford o convidou para um fim-de-semana em sua casa de campo e realmente vai até lá - ficando surpreso, é claro, quando o humorista ameaça chamar a polícia se ele não for embora.

O Rei da Comédia é um filme cuja força reside nas fortes interpretações de seus atores principais. De Niro faz de seu Pupkin um homem patético, e ao mesmo tempo capaz de praticamente tudo para atingir seu objetivo - se tornar o novo `rei da comédia`. (`É preferível ser rei por uma noite do que um tolo durante a vida inteira.`, diz ele a certa altura, quando as coisas se complicam de maneira irremediável). Quando todas as suas tentativas de se aproximar do ídolo falham (o que ele não parece capaz de entender, já que em suas fantasias ele e Langford são grandes amigos), Pupkin sente-se ofendido, ultrajado. Assim, junto com uma amiga também não muito certa da cabeça (Bernhard), ele resolve tomar uma atitude radical, porém eficaz.

Mas a grande atuação do filme é a de Jerry Lewis. Ele tem a oportunidade de interpretar dois personagens: o inseguro e engraçado Langford das fantasias de Pupkin; e o solitário e introspectivo Langford da realidade. Este, um homem triste, incapaz de aproveitar um só segundo do carinho que os fãs lhe reservam. O verdadeiro Langford só quer saber de viver sua própria vida, afastado-se de tudo e de todos. Para ele a comédia não é um prazer, mas sim um terrível fardo - o que me lembra o personagem de Walter Matthau em Uma Dupla Desajustada, de 75. Aliás, há uma frase dita por Willy Clark - o personagem de Matthau naquele filme - que poderia perfeitamente ter sido dita pelo Langford de Jerry Lewis neste O Rei da Comédia: `Se eu estivesse lá para me divertir eu teria comprado um ingresso.`

Mas estou divagando. Prosseguindo: Scorsese, inteligente como sempre, conseguiu escapar das armadilhas que uma história como essa poderia facilmente armar para um diretor menos desavisado. Em mãos menos hábeis, O Rei da Comédia poderia ter virado uma comédia de humor negro, sempre procurando o riso fácil através do incomum. Aqui isto não acontece. Há algumas risadas, é claro, mas é só. E mesmo assim elas vêm durante os `delírios` de Pupkin, sempre exageradamente narcisistas. Scorsese não quer fazer rir. Ele procura a reflexão.

Sou obrigado a confessar que me identifiquei com o personagem de Pupkin. Muitas vezes já me surpreendi fantasiando alguma situação na qual eu era o centro das atenções e estava rodeado de pessoas por quem tenho admiração. Nestas ocasiões eu `voltava` à realidade feliz, realizado: a fantasia por si só me recompensara. Este é o drama de Pupkin: não diferenciando fantasia de realidade, ele está constantemente se decepcionando com as pessoas que habitam o mundo real.
``

21 de Janeiro de 1997

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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