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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/02/2001 06/07/2000 5 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
120 minuto(s)

Direção

Ang Lee

Elenco

Chow Yun-Fat , Michelle Yeoh , Ziyi Zhang , Chang Cheng Dong , Pei-Pei Cheng , Fa Zeng Li

Roteiro

Hui-Ling Wang , James Schamus , Kuo Jung Tsai

Produção

Ang Lee

Fotografia

Peter Pau

Música

Dun Tan

Montagem

Tim Squyres

Design de Produção

Tim Yip

Figurino

Tim Yip

Direção de Arte

Jian-Quo Wang

O Tigre e o Dragão
Wo hu zang long

Dirigido por Ang Lee. Com: Chow Yun-Fat, Michelle Yeoh, Zhang Ziyi, Chang Chen, Cheng Pei-pei e Li Fa-zeng.

O Tigre e o Dragão poderia perfeitamente começar com a clássica introdução `Era uma vez...`. Ambientado em um universo de fantasia e misticismo (a Pequin da dinastia Ching), o filme é povoado por personagens grandiosos que desafiam a lei da gravidade a todo momento, movendo-se com fluidez e graciosidade impressionantes, e executando acrobacias que desafiam nossa compreensão - o que pode acabar parecendo absurdo demais para os espectadores mais cínicos.

Antes de mais nada, porém, vamos à história: era uma vez um guerreiro, Li Mu Bai, que se cansou de passar a vida lutando por toda a China e resolveu abandonar a peregrinação. Amargo, ele pede a uma antiga amiga, Shu Lien (por quem mantém uma contida - e correspondida - paixão há muitos anos), que entregue sua poderosa espada, Destino Verde, ao mestre Sir Te. Porém, a espada é roubada por uma figura misteriosa que, possivelmente, também foi a responsável pelo envenenamento do antigo mestre do valoroso guerreiro. Enquanto isso, uma jovem garota, Jen, reluta em aceitar seu destino de tradições e subserviência, e resolve conferir novo rumo à própria vida - o que pode levá-la a um caminho equivocado e sombrio.

Apesar da trama bem definida, O Tigre e o Dragão é mais um filme sobre personagens do que, propriamente, sobre situações. É no caráter de cada uma destas intrigantes figuras que reside a força da história presente no roteiro (escrito por Hui-Ling Wang, James Schamus e Kuo Jung Tsai), que, ao contrário de outros lançamentos `pós-Matrix` (vide As Panteras), consegue justificar plenamente as manobras anti-gravitacionais executadas por seus protagonistas: na verdade, estes são praticantes de um tipo de arte marcial ensinado apenas no mítico Monte Wudan. Entre outras coisas, eles são capazes de paralisar o adversário através de uma série de toques em pontos estratégicos de seu corpo; movem-se com incrível agilidade e leveza; e possuem reflexos assustadoramente rápidos.

O mais curioso é que O Tigre e o Dragão não é apenas um filme de `artes marciais`, embora pregue valores típicos do gênero, como coragem, tradição e honra: graças à sensível direção de Ang Lee, os personagens da história acabam tornando-se mais notáveis do que suas próprias qualidades como lutadores. Além disso, o papel essencial das personagens femininas ao longo da trama confere fôlego novo à narrativa: são elas, as figuras mais fortes e presentes do filme.

Isso não diminui, no entanto, a importância das lutas presentes em O Tigre e o Dragão; ao contrário, elas são engrandecidas pela dimensão heróica conferida aos lutadores - e as brilhantes coreografias criadas por Yuen Wo Ping (que fez trabalho semelhante em Matrix) realçam este fato com perfeição. Amparado por uma série de efeitos mecânicos (e não digitais, como muitos pensam), ele confere uma inconfundível beleza aos movimentos dos personagens, fazendo com que estes se enfrentem sobre os telhados de Pequin e no alto de um bambuzal, naquela que é a seqüência mais formidável do filme. Como se não bastasse, a fotografia de Peter Pau aproveita ao máximo as belas locações que hospedam a história, realçando, também, a bela direção de arte e os figurinos de Timmy Yip. Para completar, temos, ainda, a tocante trilha sonora (toda em cordas) de Tan Dun, que confere um clima épico à produção sem chamar demasiadamente a atenção sobre si (o que é uma grande virtude).

Minha única ressalva com relação a O Tigre e o Dragão gira em torno do longo flashback que acontece no meio da trama: além de interromper a história, ele não acrescenta nada de importante ao filme. Muitos podem até considerar o envolvimento entre Jen e Lo como uma boa forma de desenvolver a personagem de Zhang Ziyi, mas, particularmente, discordo disso: o relacionamento do casal jamais desempenha um papel relevante, servindo apenas para desviar nossa atenção de um outro relacionamento que (este sim!) merecia mais destaque: aquele entre Li Mu Bai e Shu Lien.

A poesia presente nas imagens elaboradas por Ang Lee, no entanto, supera este equívoco. Descrever O Tigre e o Dragão como `um filme de arte sobre kung fu` seria subestimar o trabalho do diretor, que escapa das definições convencionais. Esta é, sem dúvida, uma obra ímpar, incomum. Não é perfeita nem capaz de despertar sentimentos intensos, avassaladores, mas, ainda assim, não permite que a ignoremos, pois deixa algo bem claro: jamais vimos um filme como este.
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3 de Março de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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