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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/03/2007 01/01/1970 5 / 5 / 5
Distribuidora

O Bom Pastor
The Good Shepherd

Dirigido por Robert De Niro. Com: Matt Damon, John Turturro, William Hurt, Alec Baldwin, Angelina Jolie, Tammy Blanchard, Billy Crudup, Martina Geddeck, Michael Gambon, Timothy Hutton, Lee Pace, Eddie Redmayne, John Sessions, Mark Ivanir, Oleg Stefan, Robert De Niro, Joe Pesci.

O Bom Pastor é um filme que se passa em um mundo de conversas cifradas, instruções subentendidas, códigos, senhas e contra-senhas – um universo no qual um chapéu deixado para trás distraidamente pode ocultar informações extremamente relevantes. Em outras palavras: o mundo da espionagem.

Recontando os primeiros anos da CIA, o longa tem início com um dos grandes fracassos da agência norte-americana: a tentativa frustrada de invadir Cuba a partir da Baía dos Porcos, em 1961. Tomado pelas suspeitas de que há um espião infiltrado entre seus homens, o introspectivo Edward Wilson (Damon) recebe uma correspondência anônima que contém uma foto e uma gravação – e enquanto sua equipe investiga o material em busca de maiores pistas, o filme nos conduz, através de flashbacks, à juventude de Edward e sua eventual participação na fundação da CIA ao assumir o departamento de contra-inteligência. Parcialmente inspirado em James Jesus Angleton, o personagem de Damon trabalha vários anos ao lado da inteligência britânica a fim de aprender seus métodos e torna-se uma figura importante da agência norte-americana, percebendo, aos poucos, que isto trará um custo enorme para sua vida pessoal.

Apropriadamente mergulhado em sombras e belíssimas imagens em contraluz, O Bom Pastor representa o segundo trabalho de Robert De Niro como diretor (o primeiro foi o eficiente Desafio no Bronx, de 1993), que revela, aqui, um olhar inspirado para composições e, como já era de se esperar, um talento inegável para a condução do elenco - não é à toa que todos parecem sussurrar seus diálogos durante toda a projeção, já que uma frase inadvertidamente escutada por alguém de fora pode comprometer planos cuidadosamente orquestrados. Num meio conhecido por devorar seus jogadores, nenhuma precaução é exagerada e De Niro faz com que seus atores compreendam este conceito perfeitamente; é como se todos estivessem sempre olhando por cima dos próprios ombros.

Para tornar tudo ainda mais tenso, o filme recria uma época particularmente nervosa da nossa História recente: num pós-Guerra ciente do poder destrutivo da bomba atômica, duas das principais nações responsáveis pela derrota dos nazistas imediatamente dão início a uma corrida ansiosa pelo domínio estratégico da Inteligência (em seu sentido figurado – a Espionagem – e literal, já que ambos os países buscam cooptar o maior número possível de cientistas). É o começo da Guerra Fria e de um jogo perigoso que manteve o planeta à beira da destruição em diversas ocasiões (especialmente durante a crise dos 13 dias). É neste contexto instável que nasce a CIA, cuja importância estratégica era tão grande quanto seu potencial para o desastre: “Temo que isto irá conferir poder demais a poucas pessoas”, diz o general Bill Sullivan (inspirado em Bill Donovan), o principal arquiteto da agência e não por acaso vivido pelo próprio De Niro. “Vejo (a CIA) como os olhos e ouvidos dos Estados Unidos. Não quero que ela também se torne seu coração e alma”.

Infelizmente, era isso que viria a acontecer, já que, para justificar suas altas verbas e cimentar sua posição de influência junto ao Presidente, a Agência Central de Inteligência se dedicaria justamente a inflar sua própria importância através da fomentação da paranóia e do medo – uma filosofia que impera ainda hoje, como podemos ver em Fahrenheit 11 de Setembro. Aliás, em certo momento da projeção, um ex-agente russo resume à perfeição esta tática da CIA: “Vocês precisam manter o mito russo vivo para justificarem seu complexo militar industrial. Seu sistema depende da Rússia ser percebida como uma ameaça mortal”. Esta cena, diga-se de passagem, é uma das mais fortes de um projeto consistente em seu tom do início ao fim e que jamais permite que a complexidade de sua narrativa confunda o espectador – uma façanha que deve ser atribuída, em grande parte, ao roteiro impecável de Eric Roth, que já lidara com tramas ambiciosas em Munique e O Informante.

Porém, O Bom Pastor não é apenas um filme sobre a origem da CIA, mas também o retrato de um homem que abre mão de tudo por uma causa (se esta era nobre ou não, é uma discussão que foge aos propósitos desta análise): introspectivo por natureza, Edward Wilson é apresentado ao espectador como um  homem de meia-idade solitário e entristecido – e o fato da porta de seu escritório trazer os dizeres “Isto não é uma saída” é uma síntese irônica de sua trajetória ao longo da narrativa. Assim, quando o primeiro flashback nos surpreende com um Edward jovem e alegre, percebemos que algo se perdeu (ou melhor: se perderá) ao longo do caminho. O primeiro passo nesta jornada rumo à destruição da própria alma, aliás, é representado por seu envolvimento com a bela Clover (Jolie), que eventualmente o obriga a abandonar seu amor juvenil e a assumir precocemente uma existência de “adulto".

Interpretado com intensa concentração por Matt Damon, Edward se torna um estranho para a própria família - um “fantasma”, como diz sua esposa. Aliás, até mesmo seu hobby reflete, de maneira simbólica, o preço que ele e sua família pagam pela auto-disciplina rigorosa exigida por sua linha de trabalho: “engarrafar” navios é uma metáfora perfeita para a prisão auto-imposta de sua alma originalmente poética – e quando ele, já mais velho, oferece um raro sorriso para Laura (Blanchard), percebemos que está tentando resgatar, mesmo que por alguns segundos, a alegria descompromissada da juventude. Em um elenco homogeneamente fantástico (aliás, como é bom rever Joe Pesci depois de oito anos longe das telas!), Damon é o destaque absoluto, embora a maquiagem utilizada para envelhecê-lo seja claramente deficiente, exigindo um esforço de imaginação por parte do espectador para que possamos aceitá-lo como um homem de mais de 50 anos de idade.

Tecnicamente irrepreensível, O Bom Pastor traz efeitos visuais que, sem chamar a atenção para si mesmos (algo característico dos efeitos mais eficazes), ajudam a ótima direção de arte na recriação de época, merecendo destaque o plano aéreo que revela a Berlim semi-destruída do fim da Segunda Guerra. Além disso, a montagem de Tariq Anwar salta de um período a outro da história sem que isto interrompa o fluxo da narrativa, o que sempre merece elogios.

Injustamente ignorado pelas principais premiações norte-americanas, O Bom Pastor tem, em seu cerne, um arco dramático que de certa forma reflete aquele presente na magnífica trilogia O Poderoso Chefão: assim como Michael Corleone, Edward Wilson perde o que tinha de mais importante em função de um estilo de vida que lhe foi imposto pelo acaso. E se há algo que os leitores que me acompanham há algum tempo certamente já sabem é que não há elogio maior que eu possa fazer a um filme do que compará-lo à saga concebida por Mario Puzo e Francis Ford Coppola.

16 de Março de 2007

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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